Minha casa vive em mim

Quando penso na infância a primeira coisa que vem a minha mente é a casa que morava com minha família – eu meu pai, minha mãe, duas irmãs e quatro irmãos. Sempre desorganizada. Era uma casa bem versátil, verdade. Teve muitas caras, cores e jeitos. Os habitantes dos quartos iam mudando de acordo com o aumento da prole, ao longo dos quase vinte e dois anos em que vivemos lá. Rua Raul Leite, nº 20, casa 3 – fundos, que acessávamos por uma longa escadaria. Estava localizada num bairro bem eclético em termos da diversidade social que ali vivia. Tinha gente pobre, classe média baixa, classe alta metida a burguesa que se “esfolava” para se manter em tal posição e tinha gente abastada mesmo. Nós éramos os pobres, mas sempre agraciados por uma vizinhança muito amiga e gentil, em sua maioria. No geral, posso dizer que um lugar agradável!

Nossa casa tinha três quartos, um banheiro, duas salas, cozinha, uma área externa grande e um quintal com um pé enorme de jenipapo. Num lar com tantas crianças e quartos não muito espaçosos, é claro que os famosos beliches (de três e de dois andares) tornavam as acomodações bem mais funcionais, o que não significa necessariamente belas ou harmônicas. Vivi num ambiente sem nenhuma estética, onde nada combinava com nada, no que se refere a harmonia que a minha alma tanto necessita numa moradia. Sou libriana com ascendente leão e sol quase de casa IV no meu Mapa Astrológico. Traduzindo, isso significa que lar é santuário sagrado e que um cantinho gostoso é tudo de bom para a paz do meu espírito.

Meu pai era um eletricista profissional, trabalhava na antiga Companhia de Energia Elétrica da Bahia, hoje Coelba, e aquele velho adágio “casa de ferreiro, espeto de pau”, cabia perfeitamente na figura dele. Apesar de ser “o cara” na eletricidade, era um faz tudo em casa. Pintava parede, consertava canos, capinava o quintal, cozinhava, fazia feira, compras, forrava nossos livros da escola, amava minha mãe, mas era de uma desorganização alucinante. Vivia a bradar que “trabalhava sem deixar vestígios”, o que não correspondia a verdade dos fatos. Era bom no que fazia, um profissional muito solicitado por toda a vizinhança e elogiado por quem recebia os seus serviços. Mas, dentro de casa, não primava em nada pelo bom acabamento das instalações, deixando fios expostos, cacareco para todo lado, tubulações visíveis, caixa de ferramentas embaixo dos móveis. Pintava a casa e o chão ficava todo salpicado por meses a lembrar da “limpeza” das paredes de todo ano, sem nenhum primor nos retoques.

Minha mãe, por sua vez, era professora, mas acabou indo trabalhar como educadora em saúde, uma função que corresponde hoje em dia ao papel das nossas maravilhosas ACS – Agentes Comunitárias de Saúde. Era também auxiliar de enfermagem, o que a colocava numa exigente escala de trabalhos externos e infindável jornada de afazeres domésticos quando retornava. Tendo que dar conta de tantas coisas ao mesmo tempo, a beleza da casa não era mesmo a sua prioridade. Gostava da ordem, mas os dias eram naturalmente para bagunçar tudo e passar o final de semana arrumando o que dava.

Em síntese, vivíamos num lugar, em minha opinião, digno de “sobreviventes”.

Na medida em que íamos crescendo meu pai nos colocava numa tabela de tarefas. Meninos e meninas iam entrando na lista das obrigações domésticos, inicialmente de forma igualitária, tipo: lavar pratos, por a mesa, encerar a casa, limpar o quintal…. Mas, o machismo estrutural estava presente para subalternizar as fêmeas da casa, o que nos fazia sempre trabalhar mais e ao macharal, reservado sempre mais tempo para a delicia dos momentos de brincadeiras, diversão e rua.

Eventualmente tínhamos alguém que vinha na função de “diarista” para ajudar na faxina e também uma lavadeira que semanalmente levava as trouxas de roupas sujas da casa para lavar fora… Como mais velha das mulheres, fui sendo encarregada do “rol das roupas” que iam para lavagem, e também outras tarefinhas, como tomar conta dos irmãos menores, varrer, forrar cama, passar as manhãs de sábado com minha mãe tratando carne, preparando comida da semana, e no final de tudo passar a tarde arrumando a cozinha e o resto da casa, numa rotina cansativa, chata e infindável.

É claro que eu amava a escola e odiava os sábados e feriados. Naquela época cristalizei a casa como um local de sacrifícios, de trabalhos forçados e reprodução de desigualdades. Mas, até os 17 anos assumi a incumbência silenciosa de deixar aquela casa “bonita” como podia, mesmo estando longe daquilo que a minha alma tanto queria. De verdade, nunca consegui… Então, fui colocando a nossa casa no lugar de simplesmente “nossa casa”, a base de tudo que pude receber e, ponto. Fui sossegando meu coração e, mais ou menos nessa idade, comecei a sentir a necessidade de buscar minha própria casa, meu lugar de ordem, silêncio e beleza…

Um desafio tal busca, que me parece ter se tornado existencial. Minha casa interior passou a ser com o tempo, o lugar que até hoje tento ordenar. A melhor casa que pude conhecer a cada tempo, desde que tomei consciência de que está tudo dentro de nós. Arrumar as desordens, silenciar os barulhos e desarmonias foi me aproximando de verdade do melhor lugar do mundo para viver, a casa que carrego onde vou… Aqui dentro de mim. E fora de mim, cada vez menos canto para organizar…

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