Sobre esperança: de vacinas a pessoas melhores

1 ano e 5 meses. Tomtom se aproxima dessa marca e, por aqui, muitas novidades e coisas boas acontecendo. A começar pela tão esperada, desejada e precisada vacina. Depois de mais de ano, a gente se pega voltando a fazer planos, voltando a ter esperança! Poder rever a família  (ainda com cuidados, distância e máscara. Sim!! Não caiamos na falácia de que ela não é necessária. Não há, ainda, vacina ou contaminação anterior que dispense seu uso) é um alento em tempos de tantas saudades e incertezas. Nos passeios pelas redes sociais, os lutos, lamentos e pesares dão lugar às agulhadas, sorrisos e – não menos importantes – protestos, o que renova o nosso fôlego e dá aquele quentinho no peito…

Nessa maré de esperança e possibilidades, meu bb começa, lentamente, a extrapolar as fronteiras de casa e explorar novos mundos: o jardim do prédio, as casas das vovós, a futura escolinha. Decidimos, William e eu, após muitas conversas, combinados e ponderações, iniciar Tomtom no mundo das letras e das ciências agora no segundo semestre. Estou em contagem regressiva e já explodindo de ansiedade! Escola sempre foi, para mim, espaço de alegrias, encontros e amizade. Tirando o tempo de faculdade, não consigo nem lembrar a minha vida longe de uma escola: saí de aluna a professora; da carteira para a lousa, mas nunca de lá de dentro, nem corpo nem cabeça nem coração.

Mas, voltando ao assunto, os novos mundos que se apresentam ao Tom não abrandam sua infinda curiosidade por conhecer e explorar cada cantinho da casa. Cada manchinha na parede, folha caída no chão ou artefatos do cotidiano são objetos de um rico e minucioso estudo. Texturas, cores, funções; tudo cabe no interesse desse Sherlock bebê. Ocorre que, além de exímio investigador, meu filho traz também habilidades de alpinista. Não existem obstáculos para o Tom, todo cantinho serve de apoio e impulso para chegar ao lugar almejado, sejam cadeiras, armários ou janelas. Aí, papai e mamãe que lutem para alcançar a rapidez e a agilidade do bb escalador. A palavra mais pronunciada aqui em casa atualmente é NÃO – inclusive por ele, que já começa a arte se autoadvertindo que não pode. Não pode! Na boca não! No sofá não! Não puxa a televisão! Tomada não é brinquedo!

Como todas as etapas atravessadas até aqui, fui atrás de ler um pouco e conhecer possíveis abordagens para orientá-lo. Sempre em busca de uma educação mais afetiva, confesso que me surpreendi com o quanto se condena o NÃO. O que mais encontrei foram maneiras de ‘camuflar’ esse não para os filhos, seja trocando-o por outras palavras, seja nas estratégias de ação. Exemplo: Se o filho não pode pular no sofá, não diga isso a ele, aponte um lugar onde ele pode pular: ‘Olha, filho, aqui é mais legal!’. Tenho me policiado pra não fazer da minha vivência parâmetro para todos os seres, como o fazem os injustificáveis defensores da palmada, mas, pra mim, o NÃO também é afeto. Criança precisa de limite, precisa de borda, isso é estruturante para elas. Não se trata de tudo proibir, nem do ‘não porque não’ (embora eu saiba que em algum momento vou me valer dele, ainda. rsrs), mas de conversar, explicar os porquês, orientar a criança. Trata-se de diálogo, paciência e educação. E educar, meus caros, faz-se com muitos mais NÃOS do que SINS. É cansativo, trabalhoso e diário.

Deparo-me rotineiramente com o quanto a falta do NÃO pode interferir no desenvolvimento de uma criança, desde a fragilidade e pouca resistência diante de frustrações à ausência do próprio entendimento do sentido dessa palavra. Não à toa, hoje temos que repetir exaustivamente e explicar a marmanjos, que nem filhos nossos são, que NÃO É NÃO! Com o Tom, eu faço questão de mostrar desde cedo: os limites do corpo do outro, dos espaços que não lhe pertencem, daquilo que pode lhe fazer mal. Sempre de forma dialogal e afetiva, acolhendo suas birras e frustrações.

Acredito que, assim, estou formando uma pessoa atenta ao mundo ao seu redor, empática às dores do outro. Acredito que esse bebê, que tão pouco transita pelo mundo e entre as gentes, quando puder fazê-lo, vai ser sempre de maneira cuidadosa e amorosa. Porque sim, pode ter muito amor no NÃO também.

Tom conhecendo a futura escolinha dele.

Janira Alencar é mãe do Tom, de 1 ano e 5 meses

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