Histórias da infância

De início não é fácil lembrar as histórias da infância, mas, com um pouco de esforço e paciência, percebo que consigo retroceder e (d)escrever os detalhes do meu passado. Boas lembranças de um tempo bom em que fui muito feliz e aproveitei bastante a vida no meio do mato, lá na comunidade chamada Barreiras Branca, zona rural do município Choró. 

Fecho os olhos com a intenção de enxergar o passado mais distante que possa ver. Lá está a imagem de quando tinha por volta de três anos: meu avô materno havia amarrado a vaca-leiteira no mourão da cerca e minha irmã e eu éramos acordados muito cedo, talvez às 5h30 da manhã, para tomar um copo generoso do leite ordenhado naquele mesmo instante. Hoje eu não teria essa disposição; e talvez nem tivesse naquele tempo, isso porquê era uma imposição e não uma opção.

Lembro que quando fomos morar no sertão, depois da separação dos meus pais, meu pai tratou de resolver a moradia. Construiu, ele mesmo, com a ajuda de alguns parentes, uma casinha de taipa de dois cômodos. Consigo ver o relevo que as mãos deixaram na parede rebocada de barro molhado. Perto de casa, de onde foi retirado o barro, formou-se o barreiro, onde, por alguns anos, nos meses chuvosos, nos divertíamos em banhos e brincadeiras. De lá também era retirada a água para resolver os afazeres domésticos. Éramos proibidos de banhar no barreiro antes de ter separado a água para o banho e/ou para lavagem de roupa. O motivo é que a água quando calma ficava assentada, limpa para os usos, e, com os banhos, com a agitação, ficava baldeada e suja. 

Crianças criadas na roça fazem sempre alguns trabalhos para ajudar, mesmo que mínima e proporcionalmente. Comigo não foi diferente. Os adultos tinham suas funções de grande responsabilidade e para nós sobravam tarefas pequenas e simples que me davam, na maioria das vezes, a sensação de prazer em fazer. Naturalmente os pequenos tendem a imitar os adultos ao seu redor. Assim, quando miúdo, debulhava e engarrafava grãos de milho e feijão para guardar, tirava a semente do algodão, tangia os bichos para beber água no açude ou no rio, pisava o milho com pedra polida para transformar em xerém, para alimentar os pintinhos, colhia lenha para o fogão, entre outros pequenos serviços possíveis para o meu porte de menino.

Quando muito jovem, tinha encantamento e felicidade nisso tudo. E, com o passar dos anos, as atividades deixaram de ser tão prazerosas e se tornaram obrigações. Via o tempo do trabalho como desperdiçado, pois me tirava a possibilidade de brincar mais. Por outro lado, sempre tive apoio, incentivo e estímulo para os estudos. Tinha trabalho, mas também tinha brincadeira e aprendizado em tudo. Ter contato com as mais diversas experiências que uma vida pode proporcionar, desde o início, é um caminho incrível na formação de qualquer ser humano.
Considero uma enorme riqueza ter experienciado essas formas de crescer e de estar em contato com o mundo real, de ter responsabilidades dadas, entregues e assumidas e a noção da importância de lutar por meus direitos. O grande poeta Manoel de Barros dizia: “Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” Interpreto serem os detalhes da vida que fazem a própria vida ter sentido. Há sabedoria em tudo, basta estar atento e ser observador de tudo que acontece ao nosso redor.

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