Fatos reais

Um grupo de pessoas humanas ou inumanas vendo uma personagem que, parece, vai crescer em imponência, poder e desenvoltura, talvez como um assassino ou um sábio, mas que logo após os primeiros indícios disso envelhece rapidamente e morre.

Eu tinha uma namorada e escrevi histórias fantasiosas sobre pessoas que se perdiam pelo mundo, mundo que sempre as levava para um lugar diferente do que planejaram. Ela leu as histórias e disse: pare de escrever essas coisas, senão isso vai acontecer com você. Era uma garota agradável, de qualquer modo.

Uma mulher pintou criaturas feias em diversos quadros. Seu marido se assustou e a deixou. Quando esse abandono não podia mais ser revertido, quando ela já não o queria mais de volta, ele se arrependeu por um longo tempo.

Pai e filha, índios, diante de uma área de floresta, fora do seu limite, no limiar entre floresta e cidade, vendo de longe o que parecem ser olhos enormes e cheios de raiva por detrás das árvores. Como de uma criatura gigantesca, mas humana, demasiado humana.

Existia, dentro de uma mente, uma ideia de escrita que, essa mente sentia, era revolucionária. Mas não soube torná-la texto fora de si mesma, e a ideia morreu com ela.

Minha mãe, meu pai, outros parentes e um monte de animais domésticos e selvagens virão me buscar. Eu estou esperando por eles e vou continuar esperando. Quando eles vierem, nós todos vamos nos encontrar num campo aberto, coberto de grama, numa manhã de sol. Muito sol, e tal hora nós estaremos dentro do sol, da neve, da pedra.

Um grupo de escritores. Parece que não gostavam muito uns dos outros. Desconfiados mutuamente, como quase toda a espécie humana em relação a si mesma. Mas sempre conversavam e riam muito durante as conversas.

Homem, pra que esse drama todo, é só se matar logo e pronto, disse ela, rindo, com aquele sotaque cearense característico. Ele entortou a boca de um jeito engraçado e sabia ou acreditava que ela não falava por mal, porque gostava daquele humor.

Eu não conseguia distinguir se via uma cena cujos limites minha percepção abrangia, organizava em um corpo oco de luz, quer dizer, uma manada de grãos na água, ou se via um círculo ou uma espiral ou uma rede de linhas emaranhadas ao meu redor, que tanto pressionava minha pele e pelos, mesmo sem um acionamento ostensivo do tato, como fugia em direção aos horizontes de que a visão mal suspeitava.

A dificuldade de memorizar pode ser resultado de uma forte tendência ao devaneio; você não memoriza o que acabou de ler ou ouvir porque está devaneando, tomada por uma cena mental que insiste em ecoar, sem você ter pedido racionalmente por isso. Mesmo quando você não está devaneando com nada específico, nenhuma cena mental em particular, sua mente não memoriza porque está em espera por devaneio, em pré-disposição para devaneio, sem cena mental, mas com a sensação de deslizamento, de que algo fora de você mesma lhe move. Isso pode acontecer em qualquer idade, mas é mais comum quanto mais velho se fica, talvez pelo impulso frequente de, após muitos anos de vida, querer ser outro, estar em outro lugar, ser um corpo impróprio.

O gesto de coletar pequenos fragmentos de cenas pra serem juntados em histórias mais longas e elaboradas, estratégia de espera por algo indefinido. Mas essas cenas informaram que, curtas de palavras, são longas de espanto ou deslumbramento para as pessoas vivas, mortas ou inexistentes que as vivem, viveram, viverão ou viveriam.

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