A vítima

A vítima

Todos nós já vimos imagens que mostram o quão perversa pode ser a humanidade. De um ponto de vista cinematográfico, por exemplo, já estamos acostumados a perceber “de cara” quem são os vilões e heróis das histórias que assistimos, lemos e ouvimos.

Quando fiz meu mestrado em Relações Internacionais, estudei um pouco sobre essa relação carrasco-vítima num âmbito muito particular: a colonização. Lembro que a literatura com que me envolvi na época “abriu minha mente” em relação ao que eu entendia por processo colonizador. Tudo que havia aprendido antes sobre a relação colonizador-colonizado se desconstruiu na minha frente como se fosse uma série de dominós enfileirados. Aprendi que o colonizado não é e nem nunca foi uma vítima passiva nessa relação.

Em algum momento, é a construção “a posteriori” da História que os colocou nessa posição. Antes, porém, houve luta, batalha, avanços e retrocessos. Isso me ensinou uma coisa sobre a história: que existem mil e uma maneiras de sobreviver.

Na esfera das nossas vidas privadas acontece o mesmo. E talvez seja relevante levarmos esses acontecimentos da esfera macro para a micro. Por exemplo, quando queremos viajar para um outro país, fazemos as malas, checamos o necessários e nos preocupamos principalmente com o “passaporte”. Quando finalmente chegamos na fronteira daquele país, apresentamos nossas credenciais a fim de ingressar no pais hospedeiro. Daí vem a pergunta mais essencial de todas: onde está a fronteira desse país? Pela Geografia e pela História, vemos, ouvimos e pensamos que o mundo tem limites bem definidos. Porém, não é bem assim que acontece na realidade. No nosso caso, a fronteira é simplesmente o “guarda” que se encontra na sua frente. O mesmo que vai verificar sua foto, seu nome, e fazer perguntas sobre seu objetivo com aquela viagem.

A fronteira, meus amigos, está nas nossas cabeças. As histórias que aquele guarda viveu o transformou num “agente” daquele país. Da mesma forma, as histórias que escutamos nos transforma em cidadãos “agentes” das fronteiras de nossos países. Tudo o que fazemos na vida é carregar histórias.

Portanto, é no nível micro que conseguimos enxergar de forma mais transparente as relações de poder. O ritual do “apresentar o passaporte” na “fronteira”, equivale ao ritual de “tornar-se homem ou mulher” nas “nossas famílias”, o que equivale a dizer que o ritual de “vencer na vida” depende também de um cenário estruturado cujos valores é a “sociedade” que vivemos que vai decidir o que vale ou não. Dito de outra maneira, para ser vilão ou herói, primeiro, nós nos posicionamos (consciente ou inconscientemente) numa relação dinâmica, controversa, entrecortada, mal-definida, recontada e vivida, posto que seja uma relação ainda em processo. Um devir. Só depois de vencidas as batalhas, ou mesmo a guerra, é que se pode falar em vilão ou herói.

Uma peça da Broadway que me vem agora na mente fala disso, chama-se “Wicked”, que conta a história da Bruxa Má do famoso Mágico de Oz. Nela, nós conhecemos melhor a história dessa temida bruxa. Entendemos o quanto foi mal-entendida, vítima de uma sociedade que a via de forma diferente, isto é, fora dos padrões e, por isso mesmo, excluída.

Ora, o chamado “bullying” é isso mesmo. É a expressão da crueldade da infância e da adolescência. Só recentemente é que temos tentado lidar com essas questões de forma mais transparente na esfera da opinião pública. Por isso, é importante discutirmos algumas diferenças: afinal, o que é ser uma vítima, o que é o vitimismo ou quando superamos esse lugar nos tornando sujeitos da nossa própria história?

Quem sabe no próximo mês, não desçamos ainda mais o nível para as esferas mais corriqueiras da vida… Como não sou tão cronista como gostaria de ser, talvez algum dos leitores queira compartilhar uma ou outra história de superação do vitimismo. Um forte abraço a todos e todas.

Gustavo X. Damasceno

Ator, capoera e contador de história. Licenciado pela UFC em História Social, mestrado pela PUC-Rio em Relações Internacionais. É responsável pelo texto do quadro “Des-construção”, na terceira sexta de cada mês.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s