Davi Kopenawa: A queda do céu (3)

Este mês eu encerro meu resumo com citações para A queda do céu, relato do xamã yanomami Davi kopenawa, como tenho feito em fevereiro e março (mês passado o tempo me abandonou, e substituí a continuação da tarefa por pretensos poemas escritos por mim). A ideia é entregar às palavras bonitas e agudas do xamã o espaço de fala que me emprestaram.

“Foi Titiri, o espírito da noite, que no primeiro tempo ensinou o uso do wayamuu e do imuu [modos discursivos yanomami assemelhados a cânticos ou orações]. Fez isso para que pudéssemos fazer entender uns aos outros nossos pensamentos, evitando assim que brigássemos sem medida. Po­rém, antes disso, Titiri, furioso, devorou Xõemari, o ser da alvorada, para que ele parasse de voltar sem parar desde a jusante do céu, caminhando à frente de sua trilha de luz. Desde então, o fantasma de Xõemari só pode interromper a escuridão uma única vez, no raiar do dia. Então, Titiri disse a nossos ancestrais: “Que essa fala da noite fique no fundo de seu pensamento! Graças a ela, vocês serão realmente ouvidos por aqueles que vierem visitá-los”. É por isso que continuamos a discursar desse modo em nossas festas reahu, do anoitecer até o amanhecer, primeiro fazendo o wayamuu e depois o imuu. Assim, as pa­lavras desses diálogos não pararam de crescer em nós até hoje. Titiri as fez se multiplicarem, para que pudéssemos conversar entre as casas e pensar direito. São o âmago de nossa fala. Quando dizemos as coisas só com a boca, durante o dia, não nos entendemos de fato. Escutamos o som das palavras que nos são dirigidas, mas as esquecemos com facilidade. Durante a noite, ao contrário, as palavras ditas em wayamuu ou em imuu vão se acumulando e penetram no fundo de nosso pensamento. Revelam-se com toda a clareza e podem ser efe­tivamente ouvidas” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Hoje é impossível dizer que ainda haja algum lugar do mundo que escape ao capitalismo. Triste de constatar: tampouco escapou dele o cosmos que é a floresta, esse lugar para onde a humanidade europeoide deveria, mas não mereceria voltar.

“Depois de Manaus e Brasília, conheci São Paulo. Foi a primeira vez que viajei tão longe por cima da grande terra do Brasil. Compreendi então o quan­to é imenso o território dos brancos para além de nossa floresta e pensei: ‘Eles ficam agrupados numas poucas cidades espalhadas aqui e ali! Entre elas, no meio, é tudo vazio! Então por que querem tanto tomar nossa floresta?’. Esse pensamento não parou mais de voltar em minha mente. Acabou por fazer sumir o que restava de meu medo de falar! Tornou minhas palavras mais sólidas e lhes permitiu crescer cada vez mais. De modo que eu costumava declarar aos bran­cos que me escutavam: ‘Suas terras não são realmente habitadas! Seus grandes homens resguardam-nas com avareza, para mantê-las vazias. Não querem ceder nem um pedaço delas a ninguém. Preferem mandar sua gente esfomeada comer nossa floresta!’. E acrescentava: ‘No passado, muitos dos nossos morreram por causa das doenças de vocês. Hoje, não quero que nossos filhos e netos morram da fumaça do ouro! Mandem os garimpeiros embora de nossas terras! São seres maléficos, de pensamento obscuro. Não passam de comedores de metal cober­tos de epidemia xawara. Vamos acabar por flechá-los e, se for assim, muitos ainda vão morrer na floresta!’. Era difícil. Eu tinha de dizer tudo isso numa fala que não é a minha! Contudo, movida pela revolta, minha língua ia ficando mais ágil e minhas palavras menos enroladas. Muitos brancos começaram a conhecer meu nome e quiseram me escutar. Incentivaram-me, dizendo que achavam bom que eu defendesse a floresta. Isso me deixou mais confiante. Alegrava-me que eles me entendessem e se tornassem meus amigos. Naquela época, falei muito nas cidades. Achava que se os brancos pudessem me ouvir, acabariam convencendo o governo a não deixar saquear a floresta. Foi com esse único pensamento que comecei a viajar para tão longe de casa” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Alvos de ataques de garimpeiros, índios Yanomami pedem socorro - Notícias -  R7 Brasil
Crianças yanomami (foto da internet)

A voz encontra uma fala, que por sua vez encontra uma música. Um tipo de música para um tipo de fala para um tipo de voz, e assim quanto às vozes, falas e músicas possíveis. As vozes, falas e músicas dos marginalizados, dos mortos injustamente (o mundo humano, a injustiça, a norma) são mais bonitas que no caso dos opressores? Não sei dizer. Sei que a voz, a fala e a música do meu povo, do povo a que pertenço, são o que eu quero que viva.

“Nossas palavras para defender a floresta nos foram dadas por Omama. Sua força provém da imagem dos ancestrais do primeiro tempo, de quem somos os fantasmas. Foram eles que nos ensinaram a valentia que me per­mite falar com firmeza aos grandes homens dos brancos. Por isso, ficam preo­cupados quando minhas palavras invadem seu pensamento: ‘Hou! Essa gente da floresta não tem medo! Suas palavras são duras e eles não recuam!’. Na primeira vez em que me dirigi ao presidente do Brasil [José Sarney, em encontro ocorrido em 1989], pedi a ele que expul­sasse os garimpeiros de nossa floresta. Ele me respondeu, com hesitação: ‘São numerosos demais! Não tenho nem aviões nem helicópteros suficientes para tanto! Não tenho dinheiro!’. Repetiu-me essas mentiras como se eu fosse des­provido de pensamento! Eu trazia em mim a revolta de minha floresta des­truída e de meus parentes mortos. Retruquei que com aquelas palavras tortas ele só queria nos enganar e deixar que nossa terra fosse invadida. Depois acres­centei que para falar assim ele devia ser um homem fraco com o espírito cheio de esquecimento, de modo que não podia pretender ser um grande homem de verdade” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

Caminho contigo na floresta, meu amor. Não enxergamos o sol, cuja luz nos chega coada, em fios e nós emaranhados, pelas árvores, seus galhos e suas folhas. Caminhamos para sempre, felizes, juntos, na floresta mais linda que existe, meu amor: faz tempo que não te vejo, nunca te vi, mas caminho contigo, para sempre, enquanto houver essa floresta, e creio, e sei, que ela não deixará de existir, sobreviverá a nós, a tudo. A floresta comerá o mundo humano, e então ela soará sua risada de vitória, seu rumor polivocal, seu mundo dela, esse céu-e-terra só nosso.

“Quando eu era mais jovem, costumava me perguntar: ‘Será que os brancos possuem palavras de verdade? Será que podem se tornar nossos amigos?’. Des­de então, viajei muito entre eles para defender a floresta e aprendi a conhecer um pouco o que eles chamam de política. Isso me fez ficar mais desconfiado! Essa política não passa de falas emaranhadas. São só as palavras retorcidas daqueles que querem nossa morte para se apossar de nossas terras. Em muitas ocasiões, as pessoas que as proferem tentaram me enganar dizendo: ‘Sejamos amigos! Siga o nosso caminho e nós lhe daremos dinheiro! Você terá uma casa, e poderá viver na cidade, como nós!’. Eu nunca lhes dei ouvidos. Não quero me perder entre os brancos. Meu espírito só fica mesmo tranquilo quando estou rodeado pela beleza da floresta, junto dos meus. Na cidade, fico sempre ansioso e impaciente. Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não consegue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. Ficam tomados de vertigem, pois não param de devorar a carne de seus animais domésticos, que são os genros de Hayakoari, o ser anta que faz a gente virar outro. Ficam sempre bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e esfumaçam o peito. É por isso que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas. Não queremos mais ouvi-las. Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mes­mos. Seu pensamento permanece obstruído e eles dormem como antas ou ja­butis. Por isso não conseguem entender nossas palavras” (Davi Kopenawa: A queda do céu).

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