“É muita coincidência”

O novo quadro do Fantástico, que traz um pouco de leveza a esses tempos sombrios, me fez lembrar de um episódio em Paris envolvendo um casal cearense e um célebre chef francês.

Foi em novembro de 2016. Eu passava uma curta temporada na França dando vida à Joëlle, heroína francesa do meu romance “O segredo da boneca russa”, quando meu marido chegou do Brasil para alguns dias de férias.

Coloquei o processo literário no modo espera e saímos os dois abraçadinhos pelas ruas medievais de Saint-Germain-des-Prés em direção ao carrefour de l’Odéon. Ele queria entregar, sem demora, a cachaça que trouxera do Ceará para o chef Yves Camdeborde. Apaixonado por cozinha, meu marido adora se conectar com os cozinheiros dos seus restaurantes favoritos. Entramos no bar-restaurante – lotado àquela hora – e tentamos nos aproximar do disputadíssimo balcão.

Para tu-do! Chef celebridade, restaurante famoso, clientes sem reserva, balcão… Explique melhor, s’il vous plaît! Parece estranho para o imaginário gourmet, mas essa é exatamente a proposta das três casas “Avants-Comptoirs” de Yves Camdeborde, considerado o precursor da “bistronomia”, conceito de porções autorais a preços mais acessíveis. Truques de mentes inovadoras e criativas para contornar as recorrentes crises econômicas deste início de século.

Camdeborde teve a brilhante ideia ao se deparar diariamente com as filas que se formavam à hora do almoço na sua “La Brasserie Le Comptoir” [localizada no térreo do seu charmoso hotel “Le Relais Saint-Germain”; à noite, a brasserie se transforma em restaurante com menu surpresa, elaborado com produtos frescos de alta qualidade para uma clientela agendada bem previamente]. O gênio montou, então, dois barzinhos colados à brasserie, sem bancos, cadeiras ou mesas; apenas um grande balcão para servir os tais petiscos finos, harmonizados com bons vinhos em taças. Se era para esperar em pé por uma mesa incerta na brasserie, que fosse em grande estilo. [Em tempo: estávamos no “Le Comptoir de la Terre”, o primeiro dos três “Avants-Comptoirs” parisienses].

Enquanto saboreávamos as deliciosas entradinhas [amuse-bouches], indaguei ao funcionário simpático que atendia no balcão se o chef Camdeborde estava na casa. Ele me fitou surpreso e respondeu afirmativamente. Esclareci que éramos brasileiros, fãs da gastronomia do Camdeborde, e perguntei se ele poderia entregar ao patrão uma cachaça que meu marido acabara de trazer do Brasil. Para nosso espanto, ele disse que ia chamar o Camdeborde para que entregássemos o souvenir pessoalmente.

Minutos depois, aparece o Camdeborde acompanhado de uma bela jovem. Transcreverei a seguir o colóquio para expressar fielmente a dimensão do inesperado fato:

Bonjour à vous! – Camdeborde nos saudou.

Bonjour, M. Camdeborde! Enchantés. Je suis Celma et voici mon mari, Antônio – apresentei a mim e meu marido.

Enchanté! – Camdeborde retribuiu. – Je vous présente Nicole.

Bonjour, Nicole! Enchantés! – saudamos a jovem.

Expliquei-lhes no meu francês intermediário, que eu estava em Paris escrevendo um livro, e que meu marido acabara de chegar do Brasil com uma cachaça artesanal premiada – de fabricação própria – especialmente para o Monsieur Camdeborde.

– Podem falar em português, eu sou brasileira – Nicole falou em tom quase inaudível, mas com visível satisfação.

– Que maravilha! – meu marido e eu dissemos ao mesmo tempo.

– Vocês são de onde? – Nicole manteve o tom moderado.

– Somos do Nordeste – meu marido respondeu.

– Também sou! Ils sont du Nordeste! – ela traduziu para Camdeborde, em tom levemente mais elevado. – De qual lugar? – ela prosseguiu.

– Ceará – respondi.

– Não acredito! Também sou do Ceará! Ils sont du Ceará! – ela gritou [para os padrões franceses], saltitando ao lado de Camdeborde.

Camdeborde arregalou os olhos e, já de posse da garrafa de cachaça, leu o rótulo em voz alta, dobrando os erres e enfatizando as últimas sílabas: “Cachaçá Cedrrrô do Libanô, São Gonçalô do Amarrrrantê…”

– São Gonçalo??? Crois pas! C’est a cotê de mon village! – Nicole interrompeu o chef aos saltos, gritando até para os padrões brasileiros.

– Qual a sua cidade? – perguntamos ao mesmo tempo.

– Paracuru – ela respondeu.

– Inacreditável! – foi a minha vez de pular, gritar e dar-lhe aquele abraço brasileiro. – Nossa fazenda, onde a cachaça é envelhecida e envasada, fica a meio caminho entre São Gonçalo e Paracuru. Vamos sempre na sua cidade caminhar na praia. Seus familiares moram lá?

– Sim!

– Como veio parar aqui, Nicole? – perguntei, invasiva, infringindo os sisudos códigos locais [jornalista nunca tira férias].

– Casei-me com um francês, o Baptiste, filho do Monsieur Camdeborde, trabalhamos aqui – ela respondeu sorrindo, apontando discretamente para o funcionário do balcão que arranjou aquele encontro inusitado.

Baptiste divertia-se à curta distância com a cena, sem imaginar o grau de conexão que se operava entre seus familiares e aquele desconhecido casal brasileiro. Mais parecia um reencontro de velhos amigos.

Tirei da bolsa um exemplar de “Viver, simplesmente”, uma coletânea de crônicas, artigos e reportagens organizada por minha editora para celebrar os meus sessenta de vivências, autografei para a família Camdeborde e abri na página 216, exatamente no capítulo “Trinta motivos para não sair de Saint-Germain-des-Prés [e arredores]”, que destacava os amuse-bouches do “L’Avant Comptoir” entre as delícias imperdíveis do charmoso bairro na margem esquerda do Sena. O chef-estrela agradeceu os mimos, tirou selfie conosco e saiu apressadamente; estava atrasado para o preparo do menu gastronômico daquela noite no seu exclusivíssimo “Le Comptoir du Relais”.

Difícil eleger a nossa maior alegria naquele início de tarde de outono: cumprimentar pessoalmente o famoso chef francês ou conhecer sua nora cearense. [Atualizando: Nicole e Baptiste não estão mais juntos].

Pensando aqui em enviar essa história para a produção do Fantástico. Posso até anexar uma sugestão de sinopse: “Casal cearense entra em um bar-restaurante francês que costuma frequentar quando está em Paris; pede ao barman que entregue ao proprietário [famoso chef francês que o casal só conhece através da mídia] uma cachaça premiada trazida do Brasil; o dito cujo aparece com uma jovem intérprete nascida numa cidadezinha cearense, na mesma região da fazenda do casal, local de origem da cachaça premiada; a jovem cearense era funcionária no bar-restaurante parisiense, nora do chef celebridade e casada com o tal barman”.

Sabe o que isso significa, Tadeu Schmidt? Tudo, né? Uma tremenda coincidência!

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