Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas

Por Coletivo Abayomi

Assentados em um pensamento Zulu, uma das 11 línguas oficiais da África do Sul, Umuntu ngumuntu ngabantu, que significa: uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas, começamos a desenhar a vocês um pouco das cosmologias africanas que estampam em um de seus fundamentos a cooperatividade e o comunitarismo.

As estruturas sociais africanas, em sua maioria, têm nestes dois valores civilizatórios uma filosofia moral, ética e política. Diferente de nosso olhar eurocidental que tudo fragmenta e separa, a solidariedade, empatia e o respeito estão diretamente vinculados com a prática na comunidade. Para além do discurso e do aspecto religioso, este conceito pontua a necessidade da interdependência como ética cotidiana, e está ligado à ancestralidade.

 Há um princípio do povo Akan, que é um grupo étnico entre Gana e Costa do Marfim: “Onipa firi soro besi a, obesi onipa kurom”, algo como, “quando uma pessoa desce do céu, ele/ela desce em uma sociedade humana”. A vida em sociedade é uma necessidade da natureza humana, somos seres sociáveis e interdependentes para além da lógica material, abrangendo as formas espiritual e psicológica. Os pertencentes à comunidade possuem elos intelectuais, ideológicos e emocionais, compartilhando objetivos e valores, por isso o indivíduo pode satisfazer suas necessidades individuais vivendo em sociedade, porém precisamos de suporte, e é a comunidade quem o pode nos dar.

Imagem: @poe_cole

Assim, a comunidade não é vivenciada como uma banal associação de pessoas cujos interesses são afins, mas um grupo de pessoas que entendem o significado de interdependência, que dão ênfase à valores comuns e ao bem coletivo, comprometidas em viver em harmonia e cooperação com os outros. Pessoas conectadas por laços interpessoais, biológicos e /ou não-biológicos, com senso e sentido de responsabilidade pelo outro, enfatizam a ajuda mútua, a troca e compartilham partes no destino do outro. 

Imagem: @poe_cole

Nossa primeira experiência em comunidade é a família. É neste espaço-tempo que são pautadas as subjetividades, as emoções, desejos e interesses, revelando–se individuais e/ou coletivos. Há então uma negociação entre o âmbito público e privado, uma relação opositora e complementar, que considera sua capacidade individual de trabalho aliado à sensibilidade das necessidades do grupo, por tanto pensamos em toda a comunidade como uma extensão da família.

O pensamento ocidental nos condicionou a, paulatinamente, compreender a cooperatividade e o comunitarismo com a diminuição da autonomia e capacidade de escolher, valorizando a prevalência da cultura do self, individualista, e de uma sociedade de consumo que opera em lógica oposta aos valores, projetos, práticas comunitárias desenvolvidas pelo pensamento africano. 

Imagem: @poe_cole

Segundo a concepção dos bantu-kongo, dos povos da região de Angola- Congo todo ser humano é um sol vivo. Que cabe à comunidade gestar e gerir essa luz para que, assim como o astro que tem sua trajetória, o Muntu – o indivíduo – nasça como o sol faz, para ser e tornar-se com capacidade de acender outros. Deste modo, pleiteia a tomada de consciência de suas potências, reconhecendo-se como parte de uma constelação solar. Uma metáfora mais aconselhável, e possível, do que correr para rodar seus próprios pratos. 

Buscar novos caminhos, mirando outra compreensão social da palavra comunidade não é tarefa fácil, não possui receita, nem garantia de sucesso pleno, porém, sulear, é preciso e nos traz a palavra “UBUNTU” em toda sua potência: “EU SOU PORQUE NÓS SOMOS”.

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