Um rosto nos observa

Por Julio César Martins Soares

Jorge Luis Borges nos lembra que “por vezes à noite há um rosto que nos olha do fundo de um espelho”.

De alguma forma a existência deveria fazer esse papel, de ao sermos olhados trazer à tona a evidência de que algo ou alguém nos observa. Ou como diria Donald Winnicot: olho e sou visto, logo existo.

Não há como separar o nosso olhar de quem nos olha. Emanuel Lévinas alertava para a ideia de que o rosto do outro manifesta quem eu sou. Como se uma ética universal surgisse a partir desse momento.

Ao que Jacques Lacan dizia que antes de falar já éramos falados. Tantos pensamentos foram se formando acerca desse grande olhar, que nos observa atentamente, como uma conjugação perfeita de emissor e destinatário.

Mas por que esse olhar fala mais de nós mesmos do que dos outros? Qual é o sentido de tudo isso? Ora somos os olhos, ora espelhos, ora a opacidade, ora a escuridão.

Um pouco de mim, ou diria mais, tudo de cada singularidade contém a totalidade, como que inseparáveis. Não há um abismo que separe essa intersecção. Como diria John Donne homem algum é uma ilha.

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