Criar raízes des|||urbanas|||

Quando vou ao topo do prédio onde moro, visualizo a monocultura urbana e sua plantação de edifícios. Para plantá-los é preciso um buraco profundo, vigas de ferro e muito concreto. Percebi, com isso, que a manifestação das raízes urbanas tem movimento inverso ao das raízes das plantas: pois estas crescem ao abrir a parte mais dura e resistente de si, a semente; ao contrário daquelas que acabam por virar a sua própria armadura. Assim, as raízes urbanas são criadas para se manterem estáticas e fechadas para qualquer tipo de interferência. Como uma planta em um vaso, a humanidade urbana cresce com restrição de espaço para aquilo que nos dá base e sustentação, as raízes. É nesse caminho que busco a criação de pesquisa em arte, ao investigar movimentos que buscam abrir espaço no cotidiano da cidade para que raízes des|||urbanas||| possam crescer, dando base e sustentação ao ser vivente.

Já venho escrevendo aqui neste blog, que um campo energético é criado pelo movimento do corpo, como, também, um campo energético pode influenciar o movimento do mesmo. Caminhar pela cidade tem sido uma prática, onde exercito a percepção de como as frequências energéticas urbanas podem alterar o meu campo vibracional. Este estudo serve para decifrar as influências que chegam ao meu entorno e para escolher se quero ou não este tipo de relação. Utilizo como ferramenta de medição de sensação o meu corpo, tecnologia que está em mim desde que nasci. Criar formas para ativá-la é a minha intenção. Tenho percebido que existe no olhar algo que aciona esta tecnologia, como também ele é o primeiro sentido que me faz perder a atenção da minha consciência. Pratico meditação há 4 anos e este exercício me ajuda muito a ativar esse estado. Meditar, nos ajuda a abaixar a frequência mental para destinar atenção ao momento presente. Será que preciso fechar os olhos para ativar meu corpo termômetro? Talvez de início sim, pois a captura do olhar é rápida dentro de um contexto urbano. Derivas de olhos fechados nos faz criar rugosidades nas vias duras da cidade, abrindo campo para a imaginação de novos espaços-tempos. Porém é pelo cruzamento de olhares que consigo acessar a consciência do outro e, consequentemente, o outro a minha.

Já há um tempo, realizo práticas com o olhar, por exemplo: já fiquei durante 30 minutos realizando uma meditação em frente ao espelho, conectando meu próprio olhar pelo meu reflexo; fiz o mesmo exercício, só que olhando para o nascer da lua cheia; troquei essa mesma experiência com amiges querides, como Kalina Lopes (@kalinaca), Marcelo Prudente (@marcelosprudente) e Maria Epinefrina (@epinefrine_se); pratico olhar nos olhos das pessoas as quais converso; em meus processos de derivas urbanas, quando busco olhar nos olhos das pessoas que atravessam o meu caminho; e, por ultimo, quando busco olhar nos olhos de uma planta (segundo Mancuso, elas tem um sentido que se assemelha ao nosso sentido da visão, só que menos evoluído), ou de um animal. Olhar nos olhos de um animal é sempre uma surpresa para mim. Exercitei esses dias com um grilo, que encontrei numa bromélia que estava plantada em vaso, perdida numa imensa sala. Isso quer dizer que para um grilo, o seu único local de segurança era aquela planta. Cheguei bruscamente para observar a bromélia e dei de cara com o grilo, que se esquivou imediatamente, ao andar pra trás e depois congelar o seu corpo. Quando percebi que o assustei, parei, mas continuei olhando nos seus olhos e ele continuou olhando nos meus. Assim ficamos por um tempo. Esse exercício do olhar exige cautela, pois não estamos acostumados a nos desnudar assim. A nudez do contato visual é muito mais intimidadora do que a física. Porém é uma prática necessária, pois é por ela conseguimos ler as entrelinhas desses encontros. Nesse mundo que tem sede pelo poder, uma troca de olhar pode ser uma estratégia de manipulação, mas se for feito com respeito, pode ser um caminho para criarmos horizontalidade nas relações.

Sugestão de experiência – Ficar 1 minuto olhando para o meu olho virtual

Exercitar a percepção separada dos sentidos é uma estratégia de ativação dessas tecnologias corporais, pois damos mais atenção as informações recebidas por essa via e, com isso, começamos a entender melhor como eles (os sentidos) funcionam. Quando adentro neste campo hiper sensível, ligo o meu corpo termômetro. É importante saber da necessidade de ligá-lo, pois o sistema quer que nos mantenhamos desligados, para assim poder agir por nós mesmo, ao induzir os desejos do nosso corpo. Retomar o movimento singular é uma estratégia de criação de raízes des|||urbanas|||.

Neste caminho, associo o movimento das raízes das plantas ao movimento das consciências dos corpos. As raízes procuram as melhores condições de luz, gravidade, contato, umidade, oxigênio, campo elétrico e fonte sonora como estratégia para encontrar as melhores circunstâncias de condução de sentido de movimento. Mesmo em situações mais hostis, elas são capazes de encontrar meios de crescimento em estruturas rígidas, como o asfalto e o cimento (MANCUSO, 2019, p. 30). Um corpo com a sua consciência ligada é capaz de encontrar os mesmos meios de expansão COM SENTIDO, mesmo vivendo em condições de urbanidades. Mancuso também me toca quando diz que os animais se deslocam para resolver seus problemas (uma “espécie” de fuga), enquanto as plantas, por não poderem ir a outro lugar quando se sentem incomodadas, sofrem mutação. Neste caminho, questiono a minha humanidade para aprender com as plantas, ao me perguntar o que preciso transformar em mim para alterar a manifestação da existência em minha volta. O caminho de alteração exige um olhar atencioso para quais práticas do movimento hegemônico ainda reproduzo.

Acredito que uma dessas transformações é aprender a manter as plantas vivas. Isso é mais que óbvio, já que a nossa existência depende delas, pois sem oxigênio nada na Terra existiria. Porém quando vamos observar os hábitos urbanos, parece que essa informação não é muito bem entendida. Para alterar esse movimento é importante aprender com as plantas a encontrar meios de crescimento em estruturas rígidas, como o asfalto e o cimento. Repensar urbanismo é encontrar com o desurbanismo. O movimento é o inverso de tudo o que viemos realizando até agora. É preciso urgentemente criar espaços para as plantas crescerem.

Essa semana visitei a agroflorestal urbana que Lucas de Mattos (@sombradocajueiro) tem cultivado. Acho interessante e performativo que os agrofloresteiros são criadores de sistemas, no plural, pois saem do padrão monocultural, para criar uma comunidade diversa de plantas. Este é o movimento oposto ao pensamento urbanista, o qual concentra todo o alimento da cidade nos frios supermercados. No sistema agroflorestal as plantas crescem livre de vasos, podendo assim se conectar pelas raízes com todas as outras que crescem ao seu lado. Em relação, elas têm a possibilidade de dialogar com o solo e as outras espécies, para encontrar seu melhor sentido de crescimento. A saúde está em abundância e o próprio sistema também controla as possíveis pragas, com chegada de animais que se alimentam delas. Um agrofloresteiro maneja seu cultivo para encontrar equilíbrio no sistema. A socialização do sol é de extrema importância, pois muitas espécies, como o milho por exemplo, precisa de sol em abundância. Lucas disse que existem mais de 100 espécies de árvores plantadas, estas, que se não forem podadas, acabam por sombrear o sistema criado. Portanto, para que as plantas alimentícias de sol sobrevivam, a poda é necessária para este tipo de sistema, pois o sol precisa ser compartilhado com todes!

Antes e depois – Agrofloresta Sombra do Cajueiro

Conversei com Lucas sobre estratégias de avanços dessa cultura pela cidade adentro. Ele disse que existem discussões para criações de leis que fortaleçam o acontecimento desse caminho.

Voltei pra casa de bicicleta. No caminho, parei para contemplar um lugar que resume muito esse texto: de um lado estava o Rio Cocó e a sua floresta majestosa, enquanto do outro estava a Av. Engenheiro Santana Junior e o deprimente Shopping Iguatemi (que por sinal foi construído ilegalmente em cima de um mangue).

TEMPO… RESPIRO… então pergunto:

A nossa sobrevivência pode ser encontrada de forma mais sustentável? Por que não plantamos árvores frutíferas na cidade? Por que não plantamos comida na cidade? Por que não utilizamos os terrenos abandonados para plantar? Por que a localidade do Poço da Draga não tem fossa verde e circulo de bananeira? Por que os nossos rios estão poluídos? Por que não desurbanizamos a cidade? Por que temos tanto medo de trocar de sistema? O que é existir?

Imagino nesse lugar uma agrofloresta, um galinheiro e pessoas dançando no meio

Bibliografia

MANCUSO, Stefano. A Revolução das Plantas. São Paulo-SP. Ubu Editora. 2019.

Para se inspirar

Pesquisar: @condocultural | @ronfinleyproject | Comunidade Vila Nova Esperança

5 thoughts on “Criar raízes des|||urbanas|||

  1. Texto tão bem escrito e sensível que nos traz muitas reflexões sobre o que de fato é importante e necessário nas nossas conexões humanas.

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  2. Texto e reflexão e ações e proposições maravilhosas!… Além de uma poesia transbordando seiva!… Parabéns, Natália!… Pela prática, pela busca e pela construção de mundos (im)possíveis!

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  3. Texto altamente inspirador! Me fez refletir e pensar nas infinitas possibilidades que temos ao nos deparar com um questionamento, mas o padrão implantado em nós é seguir no automático e só enxergar o que querem q enxerguemos.
    Parabéns por nos fazer pensar de verdade e propor o exercício do olhar. Amei!

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