atenta as agressões fantasiadas de alegrias

Por Roberta Bonfim

Chegou abril, passamos um ano nesse lugar de praticamente não sair de casa. E em tempos tão contraditórios, aqui em casa só temos o que agradecer, temos casa, gatas, plantas, comida, saúde e amor. Temos tudo, trancado em alguns metros quadrados. E nesse meio tempo para não parar a vida, tive de abrir concessões, fazer escolhas ao que tange a educação da minha cria. 

Não dou conta da minha rotina e da dela, juntas, e aqui somos nós duas, então a TV que antes tinha tempo determinado agora é som constante por um turno inteiro, e tudo bem, são ali outras falas e realidades. Um tipo estranho de companhia, mas uma companhia, e lembro que também a tive, só que em meus tempos era mesmo a TV aberta, aqui pelo menos timidamente é feita uma curadoria do que é possível assistir e ficamos menos expostas às infinitas propagandas. E ainda sim, vez ou outra ela me lembra que preciso nos inscrever, que isso é importante. 

E aí vem uma questão, 98% dos desenhos tem a presença real ou imagética do pai, e sempre o pai sendo o cara massa, que brinca, troca sorrir, mas também o que espera a comida ser servida. Até nos desenhos em homenagem a mãe tá lá a figura paterna. O desenho é de um mundo mágico, mas o boneco de lata, repete algumas vezes por episódio, “como diria meu pai e algum belo adjetivo”. 

Só que isso no contexto atual, especialmente no Brasil, beira a crueldade, pois o número de famílias sem essa presença física, emocional e/ou afetivamente, isso sem falar dos abandonos, estupros e outras agressões possíveis. Gente, sério, mais da metade das famílias do país são de mães solo.

E aí vem a tona uma série de valores patriarcais que são impostos de todos os modos. Há quase zero de desenho sem a presença dos pais, os desenhos ditos educativos, então exploram a estrutura da família tradicional em suas máximas e ensinam inclusive esse padrão. Estão lá. Até nos desenhos que exaltam a mãe o pai tá ali, no desenho, da fotografia, na mesa sentado, enquanto a mulher mãe, heroína serve a família de sorriso no rosto. 

E isso se estende também aos livros infantis, e todos os clássicos que criam contextos cruéis a quem não cabe nesse formato enquadrado, formatado definido e seguido. Fico pensando que somos todes sobreviventes de um mundo que foi desenhado, só que na vida real a pancada machuca.

Deixo aqui meu pedido aos criativos, que criem histórias mais respeitosas, sem agressão disfarçada de felicidade padrão. E fico por aqui, pois os dias estão curtos e as exigências crescentes.

E deixo também dica de livro infantil, “Sinto Muinto, mas eu sinto o que sinto”e “Betina”

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