Todo corpo é ancestral.

Por Coletivo Abayomi

Enyin Baba-nla mi, iba           Meus antepassados, eu os saúdo

/ba ni mo wa fi ighayije        Meu tempo presente é para fazer saudações.

É próprio do ser humano o desejo de perpetuar a espécie e junto a isso surgem os questionamentos: Quem teria sido o primeiro? Haverá um último na jornada humana?

Em meio a trajetória da vida, estamos nós, impulsionados pelo passado e motivados pelo futuro e é, justamente nesse ínterim, que pulsa a Ancestralidade, valor motriz entre todos os outros valores civilizatórios africanos e, consecutivamente, os afrodiaspóricos. 

Enquanto fomos – e ainda somos – condicionados a pensar em ancestralidade enquanto referência exclusiva aos nossos antepassados e tradições familiares, os povos africanos tinham Ananse (cultura Akan), a aranha, que com sua habilidade e sabedoria, ampliava esse pensamento em uma teia de relações. Quando subiu aos céus usando suas teias, Ananse pediu ao Deus Supremo o baú com as histórias dos seus antepassados para que fatos e mitos pudessem ser contados aos homens garantissem a manutenção e felicidade da sociedade. Sendo assim, aos olhos de África, todo aquele que direta ou indiretamente marcam e influenciam a nossa existência são nossos ancestrais, dessa mesma forma, nós somos potencialmente ancestrais de todos aqueles que vêm durante e após a nossa existência.

Ananse – Simbolo Adinkra

A partir do momento em que rompemos com essa ideia de ancestralidade enquanto um caráter consanguíneo tomamos para nós a consciência de que somos o resultado não apenas de nossas escolhas, mas de tantas outras que foram realizadas antes de sonharmos existir, por outro lado assumimos a responsabilidade sobre conduzir nossas potências de forma a impactar positivamente o máximo de pessoas ao nosso redor, sabendo que certamente, nossas intencionalidades ecoarão anos a fio.

A Profª. Drª. Leda Maria Martins ao apresentar a teoria do tempo espiralar sintetiza maravilhosamente a ideia de ancestralidade para a filosofia africana. Ela suscita a imagem de um tempo que não corre em linha reta e sim como uma espiral, enquanto transcorre ele retoma ao mesmo ponto, porém sempre em um tempo-espaço diferente.

Okotó – Simboliza o processo de crescimento, um cone que rola espiraladamente e que se abre a cada revolução.

O tempo é uma mola propulsora, e como reza a física básica, tem a capacidade de transformar energia potencial em cinética, ou seja, nós que estamos engatilhados nessa “mola-tempo” recebemos culturas, tradições, ciências e filosofias e temos como missão transmitir adiante e movimentar a vida rumo aos devires.

Para as africanidades a energia não se perde, apenas se transforma, é por isso que espíritos e viventes podem conviver em corporificações energéticas diferentes, assim como nossos pensamentos e sentimentos também são vistos como vibrações emanadas, dessa forma cada indivíduo carrega em seu íntimo o passado, presente e o futuro. Todo corpo é ancestral.

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