Fitas pretas

No funeral do meu avô, meu pai alfinetou uma fita preta na lapela, símbolo de luto pela perda do ente querido.

A cena fixou-se na minha jovem retina, por ter sido talvez o meu primeiro contato com a morte de um familiar. Meu pai permaneceu com seu adereço de pesar por um longo período. À época, apenas as mulheres enlutadas trajavam-se completamente de preto. As crianças, de modo geral, eram liberadas da convenção.

Essa lembrança afetiva emergiu após me deparar dias atrás com a imagem de fitas pretas amarradas à tela de proteção da varanda de uma amiga virtual – status que em nada invalida a minha concreta admiração por seus posicionamentos.

Tratava-se de um manifesto de luto coletivo diante da assustadora marca de trezentas mil vidas brasileiras perdidas para a COVID-19 em doze meses. Trezentos mil pares de olhos que não mais piscarão à luz do sol, trezentos mil corações que não mais se inspirarão sob a lua cheia, trezentos mil pares de mãos que não mais afagarão rostos amados, trezentas mil bocas que não mais sorrirão ou beijarão, trezendas mil pessoas que não abraçarão mais os pais, avós, filhos, netos, irmãos, sobrinhos e amigos.

A triste alegoria da fitinha preta na lapela agiganta-se na tragédia que ora vivemos. Dizer que a morte é natural não conforta quem perdeu um, dois, três ou mais parentes para a terrível doença. É, antes, de uma monstruosidade sem limites e total falta de empatia, atitude própria de mentes doentias. É desesperador ver dezenas de milhares chorando familiares que poderiam estar vivos se tivesse havido, por parte das autoridades competentes, controle imediato e rígido ao uso de equipamentos de proteção, celeridade na aquisição de vacinas para imunização em massa da população e ajuda financeira contínua aos mais vulneráveis, como muitos países o fizeram e ainda fazem.

Na ausência de vacinas para todos e de auxílio emergencial suficiente, só nos resta a autorreclusão e doses de solidariedade. O que mais precisa acontecer para entendermos que a “vida normal” anterior à pandemia do novo coronavírus – encontros com amigos, viagens, farturas e megacelebrações – não combina com esse momento de dor coletiva? Chega de falsos discursos de compaixão e pseudodilemas entre salvar empresas ou vidas. É preciso dar um basta aos que estimulam desobediência civil ao confinamento obrigatório responsável, aglomerações e brindes macabros à morte de brasileiros dos grupos prioritários, principalmente.

Em vez de perdermos tempo rebatendo provocações, vamos exigir do poder público federal providências emergenciais para tentar salvar o emprego de trabalhadores e livrar da fome os mais necessitados. E também reverter erros e omissões de 2020, como o atraso na compra de vacinas, a inexistência de um plano nacional de imunização e a incitação a manifestações de rua que proliferaram o vírus exterminador.

Enquanto toda a população não for vacinada, a prioridade continua sendo salvar pessoas. Economia de nenhum país sobrevive a quase quatro mil mortes diárias somente por Covid-19, entre trabalhadores e consumidores em geral, incluídos operários, professores, médicos, estudantes, enfermeiros, advogados, artistas, informais, desempregados, aposentados, profissionais liberais, empresários, comerciantes e políticos.

Precisamos assumir que estamos em guerra contra um único inimigo: o vírus, que, se não for combatido, vai continuar matando pessoas e eliminando empregos dos [ainda] vivos. Ficar um ano – ou mais – confinado – total ou parcialmente – é ético, é obrigatório, é dever de todos. Caso contrário, não haverá amanhã.

Vamos refletir e rever nossos atos, antes que o futuro reivindique a nossa responsabilidade. A cobrança pode vir de um filho, filha, sobrinho, sobrinha, aluno, aluna, neto ou neta: “Como você contribuiu para salvar vidas na pandemia de 2020 e 2021”? Ninguém vai perguntar se salvamos empresas.

Qualquer ação é válida. Até amarrar uma fitinha preta na tela da varanda para demonstrar que a gente se importa com a dor do outro e que as vítimas não serão esquecidas.

*

Imagem: Regina Dalcastagnè

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