Davi Kopenawa: A queda do céu (2)

“Antigamente, os brancos não existiam. Foi o que me ensinaram os nossos antigos, quando eu era criança. Omama vivia então na floresta, com seu irmão Yoasi e sua esposa, Thuëyoma, que os xamãs também chamam de Paonakare. Seu sogro, Tëpërësiki, morava numa casa no fundo das águas. Não havia mais ninguém. Assim era. Omama deu-nos a vida muito antes de criar os brancos, e era também ele que, antes deles, possuía o metal. As primeiras peças de ferro utilizadas por nossos ancestrais foram as que Omama deixou para trás na flo­resta, quando fugiu para longe, a jusante de todos os rios” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Continuo a resumir e comentar trechos do riquíssimo relato do xamã Yanomami Davi Kopenawa ao antropólogo francês Bruce Albert. Em sua longa e poética narrativa, Kopenawa delineia a cosmologia mítica Yanomami, rememora as relações que ele e outros membros de seu povo estabeleceram com os brancos e associa os mitos apocalípticos de sua cultura à destruição da floresta amazônica e de seu povo. Considerando que o livro é enorme, resolvi abordar, desta vez, a segunda parte do livro, “A fumaça do metal”, composta por oito capítulos, e deixar o comentário à terceira, “A queda do céu”, para o próximo mês.

“Os nossos passam muito tempo ansiosos em obter mercadorias: facões, machados, anzóis, panelas, redes, roupas, espingardas e munição. Os jovens passam o tempo todo jogando futebol na praça central da casa, enquanto os xamãs estão trabalhando ali ao lado. Eles não prendem mais o pênis com um barbante de algodão amarrado em torno da cintura, como os nossos maiores faziam. Usam bermudas, querem escutar rádio e acham que podem virar brancos. Esforçam-se muito para balbuciar a língua de fantasma deles e às vezes até pensam em deixar a floresta. Mas não sabem nada a respei­to do que os brancos realmente são. O pensamento desses jovens ainda está obstruído. Por mais que tentem imitar os forasteiros que encontram, isso nun­ca vai dar nada de bom. Se continuarem nesse caminho escuro, vão acabar só bebendo cachaça e se tornando tão ignorantes quanto eles” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O contato com os brancos remonta a acontecimentos ocorridos antes do nascimento de Kopenawa, contados a ele por outros Yanomami. Foram relações habitualmente marcadas por autoritarismos, exigências e tratamento injustos, sem contar epidemias (metaforizadas como “fumaças” mortíferas) a manipulação étnica sob a forma de catequese cristã, a devastação de áreas extensas, povoadas, devido à obsessão pelo ouro. Doenças como o sarampo ou a tuberculose matavam dezenas, centenas de índios de etnias diversas. Ainda criança, Kopenawa se viu apartado de seus parentes consanguíneos, mortos pelo sarampo, tendo que ser criado pelo padrasto e outras pessoas.

“Vimos os brancos espalharem suas epidemias e nos matarem com suas espingardas. Vimo-los destruírem a floresta e os rios. Sabemos que podem ser avarentos e maus e que seu pensamento costuma ser cheio de escuridão. Esqueceram que Omama os criou. Perderam as palavras de seus maiores. Esqueceram o que eram no primeiro tempo, quando eles também tinham cultura. Omama depositou a espuma com a qual criou os antigos brancos muito longe de nossa floresta. Deu-lhes uma outra terra, distante, para nos proteger de sua falta de sabedoria. Mas eles copularam sem parar e tiveram mais e mais filhos. Então, foram tomados de euforia, fabricando um sem-número de mer­cadorias e máquinas. E acabaram achando sua própria terra apertada” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Kopenawa trabalhou com os brancos realizando diversos tipos de serviços: atuou como intérprete, realizou atividades braçais na floresta, afazeres domésticos em escritórios da Funai e até prestou cuidados de saúde que aprendera. Tudo isso, tanto em Manaus, no meio da zoada e do clarão urbanos, bem como no verde-escuro dourado do murmúrio amazônico. Observava as camisas, as calças, os óculos e os relógios de pulso, e o fato de esses objetos esconderem o corpo ante o olhar lhe pareceu atraente. Sentiu e praticou, o quanto quis e conseguiu, uma vontade de ser branco, gradualmente decepcionada pela constatação de que nunca conseguiria fazer uma transformação completa.

“Aprendi a imitar o modo de falar deles. Mas isso não deu em nada de bom. Mesmo embrulhado dentro de uma bela camisa, dentro de mim eu continuava sendo um habitante da floresta! Por isso costumo repetir aos rapazes de nossa casa: ‘Talvez vocês estejam pensando em virar brancos um dia? Mas isso é pura mentira! Não fiquem achando que bas­ta se esconder nas roupas deles e exibir algumas de suas mercadorias para se tornar um deles! Acreditar nisso só vai confundir seus pensamentos. Vocês vão acabar preferindo a cachaça às palavras da floresta. Suas mentes vão se obscu­recer e, no final, vocês vão morrer por isso!’” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Floresta Amazônica: um lugar para visitar ao menos uma vez
Vista da Floresta Amazônica. imagem da internet

A cosmologia Yanomami absorve a cristã. O Iavé judaico-cristão, para eles, é Teosi, irmão de sua principal divindade, Omama. De caráter ambíguo, frequentemente hostil aos Yanomami, Teosi desperta neles uma natural desconfiança. Os missionários de Teosi, pai de “Sesusi” (isso, Jesus), falavam em bondade e salvação, mas frisavam mesmo era o pecado e a punição. Kopenawa, assim como outros de seu povo, aderiu ao cristianismo, sob os incentivos e a persuasão dos missionários. Porém testemunhando que as promessas de Teosi eram vagas e os maus-tratos de seus emissários brancos eram um fato cotidiano, ele se afasta gradualmente dos cultos evangélicos e retoma os caminhos do mundo de sonho xapiri da fé Yanomami.

“Após a morte, nosso fantasma não vai viver junto de Teosi, como dizem os missionários. Ele se separa de nossa pele e vai morar noutro lugar, longe dos brancos. Nossos defuntos moram nas costas do céu, onde a floresta é bela e rica em caça. Suas casas lá são muitas e suas festas reahu nunca param. Vivem felizes, sem dores nem doenças. Vistos de lá de cima, somos nós que causamos dó! Os mortos ficam tristes por nos terem abandonado na terra, sozinhos, com fome e ameaçados pelos seres maléficos. Por isso minha mágoa é um pouco aplacada quando penso que minha mãe vive feliz na floresta dos fantasmas, na companhia de todos os nossos parentes falecidos. É verdade. Somos nós, os poucos humanos que sobraram, que ficamos sofrendo na floresta, longe de nossos mortos” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

Na fala de Kopenawa, o xamanismo se fundamenta com importância política na luta por uma especificidade, pela diferença, pela irredutibilidade de um nós a um vocês-outros dominador. O xamã Yanomami, antes de reemaranhado em seu mundo de floresta, exercitou uma percepção atenta, estarrecida e frustrada das paisagens brancas para, finalmente, voltar a sua terra e entendê-la com outra nuance: a urgência de sobreviver, de se manter fio de coletividade. Longe do branco, mas ciente do provável destino tragicômico deste, o culto aos xapiri na floresta fantasma é a arma de um heroísmo em processo de silenciamento.

“Foi quando os garimpeiros chegaram até nós que realmente entendi de que eram capazes os napë [brancos]! Multidões desses forasteiros bravos surgiram de repente, de todos os lados, e cercaram em pouco tempo todas as nossas casas. Buscavam com frenesi uma coisa maléfica da qual jamais tínhamos ouvido falar e cujo nome repetiam sem parar: oru — ouro. Começa­ram a revirar a terra como bandos de queixadas. Sujaram os rios com lamas amareladas e os enfumaçaram com a epidemia xawara de seus maquinários. Então, meu peito voltou a se encher de raiva e de angústia, ao vê-los devastar as nascentes dos rios com voracidade de cães famintos. Tudo isso para encon­trar ouro, para os outros brancos poderem com ele fazer dentes e enfeites, ou só para esconder em suas casas! Naquela época, eu tinha acabado de aprender a defender os limites de nossa floresta. Ainda não estava acostumado à ideia de que precisava também defender suas árvores, seus animais, seus cursos d’água e seus peixes” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

O xamanismo, no caso dos Yanomami, é um tipo de visão de mundo dita mágica, estimulada pela interação do corpo humano com substâncias psicotrópicas, envolvendo experiências alucinatórias e um modo específico de se relacionar com elas. Nada importa se as vivências envolvidas nisso não seriam comprováveis de um ponto de vista lógico e experimental; elas são plenamente adequadas a um modo de vida integrado à floresta e incomparavelmente mais saudável (para o indivíduo, para a coletividade) que na cartilha urbanizada ocidental. Um xamã politicamente conscientizado e progressista tem, com toda a probabilidade, muitíssimo mais a oferecer que certa atitude logocêntrica, pseudointelectual, que se encontra de prontidão por aí.

“Se eu tivesse ficado só trabalhan­do para os brancos, se meu sogro não tivesse me chamado para perto dele, meu pensamento teria ficado curto demais. É por isso que agora quero que os brancos, por sua vez, ouçam estas palavras. Trata-se de coisas das quais nós, xamãs, falamos entre nós muitas vezes. Não queremos que extraiam os miné­rios que Omama escondeu debaixo da terra porque não queremos que as fu­maças de epidemia xawara se alastrem em nossa floresta. Assim, meu sogro costuma me dizer: ‘Você deve contar isso aos brancos! Eles têm de saber que por causa da fumaça maléfica dessas coisas que eles tiram da terra estamos morrendo todos, um atrás do outro!’. É o que agora estou tentando explicar aos brancos que se dispuserem a me escutar. Com isso, talvez fiquem mais sensatos? Porém, se continuarem seguindo esse mesmo caminho, é verdade, acabaremos todos morrendo. Isso já aconteceu com muitos outros habitantes da floresta nesta terra do Brasil, mas desta vez creio que nem mesmo os bran­cos vão sobreviver’” (Davi Kopenawa, A queda do céu).

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