Memória: o assentamento de nossa identidade

Por Coletivo Abayomi

Quando falamos em memória e negritude precisamos nos atentar às diferentes camadas que compõem esta narrativa. A cultura ocidental nos faz associar, imediatamente, a memória ao conceito de história, que pode ser visto em uma linha reta, repleta de diálogos, correlações e transformações que ocorreram em um determinado lugar, durante um determinado tempo.

Porém, quando buscamos compreender a memória através do paradigma africano percebemos que a memória é algo que experienciamos no tempo/espaço do que se é vivido. Memória então, são as marcas das escolhas que fazemos todos dias, são os rastros daqueles que vieram antes de nós e que estão aqui para nos recordar do quanto já caminhamos, estabelecendo que passado e presente são parâmetros importantes para estabelecer a consciência que temos da nossa existência em relação com o outro no futuro.

Imagem: @poe_cole

Quando sequestrados de seus territórios nossos ancestrais deixaram ali parte palpável do que os colonizadores acreditavam ser possível apagar, obrigando os negros escravizados a circundarem a Árvore do Esquecimento, proibindo seus nomes de origem africana, assim como a manifestação dos valores compreendem sua cultura ao promover a ideia de superioridade da raça branca, ao que chamamos de eugenia.

Os Portais de não retorno e a Árvore do Esquecimento foram as primeiras mudas de um brutal apagamento promovido nas colônias das Américas, reverberando e ampliando até à contemporaneidade a dimensão intangível do valor da memória. Somos o que somos e chegamos onde estamos porque a memória é, antes de tudo, fator de resistência.

Imagem: Noma Osula – @noma.o

A memória é o elemento, dentre os valores civilizatórios afro-brasileiros, que sincretiza todos os demais. Assentamento de nossa identidade, assim como “a água sempre descobre um meio”, a cada canto, dança, ginga e a cada toque dos tambores nossos ancestrais teceram novas possibilidades para a transmissão dos saberes, transformando seus corpos em territórios fecundos da memória, instâncias fundamentais e habilidosas,  que sujeitos a contínuas reformulações, encontraram uma linha de fuga para o esquecimento e se fizeram presentes no constante processo de reelaborar o futuro, sempre espelhado na herança cultural dos antepassados.

Afinal, “aquele que aprende, ensina” e o que fica no corpo jamais se esquece.

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