Xerecard

Na metade do mês de fevereiro, veja só, o vereador de Fortaleza Wellington Sabóia (PMB) chegou à tribuna para exigir medidas cabíveis a motoristas de aplicativos que entraram na onda da música “Xerecard” e estamparam em seus carros (centenas deles) a revelação de um Ceará misógino.

Se você estiver ainda perdido, vou fazer um resumo aqui. Conversei com algumas pessoas antes de escrever esse texto, daqui de BH, e elas não fazem a menor ideia do que está acontecendo, então acho pertinente dar alguns detalhes.

Capa do clipe oficial “Xerecard”.

Há alguns meses, os artistas Jeff Costa e Mc Danny lançaram o sucesso “Xerecard”, pela gravadora Love Funk (SP). Uma música super dançante, com um clipe bonito, com gente diversa (pretos, brancos, gordos, magros, etc.) se divertindo, o ritmo é envolvente. Tá, até aí nada demais pra ninguém. A música toca direto nos carros de sons pelo Ceará, com a seguinte letra (e é aqui onde a discussão começa): 

“O meu bonde tá passando 

Novinha presta atenção 

Nois vai te patrocinar 

Mas tem que dá o Xerecão

Lá no camarote

Eu tô bebendo à vontade

Traz a maquininha

Que hoje eu passo xerecard”

O adesivo em questão, que estaria constrangendo mulheres nos carros de motoristas de aplicativos, tem a seguinte mensagem: “Aceito Xerecard”, fazendo menção à música. Uma sugestão dos prestadores de serviço para que a usuárias paguem as corridas com sexo, prostituição mesmo e afins.

Quando o Jornal O POVO divulgou essa matéria, uma internauta comentou: “gente, meu marido é dono de gráfica, vocês não tem ideia do absurdo, são dezenas de homens que chegam todos os dias pedindo para imprimir esses adesivos”. Outras centenas de mulheres comentam que a ideia é “machista”, “misógina” e “constrangedora”. É fácil achar todas essas manifestações lá no instagram do veículo. 

Anúncio no Mercado Livre de adesivo “Aceitamos Xerecard”, com mais de 500 vendas.

Você pode estar agora com ódio “desse tipo de música”, tudo é passível de crítica. Ou, como vi, algumas pessoas podem rir da situação e até sair correndo para imprimir seu adesivo – não me espanta. Mas precisamos tomar cuidado com o pensamento de censura da arte, como também vi acontecer nesse caso.

O intuito da música talvez tenha sido o de revelar uma fantasia ou feitiche que muitos homens e mulheres podem ter, não há nenhum problema nisso. A grande questão é quando passamos a violentar ou constranger os outros que não tem nenhuma relação consensual nisso. Não há nenhuma contradição em rebolar ou ouvir “esse tipo de música”, por exemplo, e querer ter seu corpo respeitado. As fantasias são permitidas e devem continuar, assim como a arte. Não percamos esse pensamento.

É triste e sim, no mínimo, constrangedor o que os homens estão fazendo com esses adesivos em seus carros de aplicativo. Corridas devem ser pagas com dinheiro, assim está na lei. Devemos reprimir essa atitude, através de boicotes e de quaisquer maneiras legais. Ao invés de, mais uma vez, culpabilizar os artistas. Ou pior, a mulheres e quem mais quiser se expressar livremente sem ser violentada ou violentado.

PS: A expressão “xerecard” não foi cunhada pelos artistas. Ela já existia e era utilizada de maneira velada pela população.

Sobre o Autor:

Sou Adonai Elias, Produtor Cultural e Redator Publicitário. Escrevo e converso sobre música na “Lugar Artevistas” e na itaperidiscos.com. Para dialogar melhor comigo, basta dar um pulo no meu instagram: adonaielias.m

Até a próxima! 🙂

One thought on “Xerecard

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