O amor é um ato político

No último capítulo do livro Memórias da Plantação Episódios de Racismo Cotidiano, que Grada Kilomba nomeia Descolonizando o Eu, a lisboeta com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, radicada em Berlim (GER), define o trauma segundo a psicanalise e nos escreve como o trauma colonial é vivenciado por mulheres negras e homens negros, e fundamentalmente, como é possível transgredi-lo, “descolonizando o eu”.

Grada inicia conceituando o trauma

“O conceito de trauma refere-se a qualquer dano em que a pele é rompida como consequência de violência externa. Analiticamente, o trauma é caracterizado por um evento violento na vida do sujeito “definido por sua intensidade, pela incapacidade do sujeito de responder adequadamente a ele e pelos efeitos perturbadores e duradouros que ele traz à organização psíquica” (Laplanche e Pontalis, 1988, p.465).

(Kilomba, 2019, p. 214)

E continua

 “Nesse sentido, vincularei o “trauma colonial” ao “trauma individual” e explorarei as diferentes categorias de trauma dentro do racismo cotidiano: (1) choque violento, (2) separação e (3) atemporalidade”.

(Kilomba, 2019, p. 216)

No trauma colonial, a escravização de mulheres negras e homens negros é revisitada por esses sujeitos cotidianamente através dos eventos racistas.

É importante que eu fale, também escreva, como uma mulher de pele clara, no entanto, sou uma mulher de pele clara nordestina e sertaneja, o que me coloca em uma outra posição. Minhas derivas sobre este assunto, se assim posso chamar esta coisa que desponta intuitiva e urgente parte de minhas experiências com a violência de gênero e como ela recai sobre o meu corpo nordestino, sertanejo, não padrão, acobertado de pelos. O que quero dizer é que o trauma que vivencio passa por outros lugares que não são o de uma mulher negra, mas que encontra semelhanças no “trauma colonial”.

Usarei algumas definições de Grada, pois elas servem muito além ao meu contexto, mas longe de querer dar um outro sentido.

Contextualizando as categorias do trauma colonial e individual

(1) choque violento

“Essa é a primeira característica do trauma clássico, qualquer experiência totalmente inesperada que o sujeito é incapaz de assimilar e à qual a resposta imediata é o choque (Bouson, 2000,; Laplanche e Pontalis, 1988)”. (Kilomba, 2019, p. 218)

No contexto de mulheres negras e homens negros “o choque violento, portanto, resulta não somente da agressão racista, mas também da agressão de ser colocada (de volta) no cenário colonial”. (Kilomba, 2019, p. 218)

No meu contexto, este choque violento resulta da violência que tem sido performada por homens brancos e mulheres brancas, de classe social distinta, tanto acerca do estereótipo da mulher sertaneja, forte, corajosa, resistente, como da exótica, tanto em relação aos pelos, ou ao que faço com o meu corpo, como do envolvimento em relações abusivas, o que me tem feito reviver o abandono paternal e as violências sexuais.

(2) separação

Quero me deter especialmente sobre esta categoria: separação.

“” É como se eu tivesse de cortar isso de mim, cortar minha personalidade como uma esquizofrênica. Como se algumas partes de mim não existissem””.

(Kilomba, 2019, p. 220)

“A metáfora de “cortar” ou “cortar sua personalidade” expressa o segundo elemento do trauma clássico: o sentimento de ruptura, corte e perda causada pela violência do racismo cotidiano, um choque inesperado que priva o sujeito de suas conexões com a sociedade”.

(Kilomba, 2019, p. 220)

A ruptura aqui significa sobretudo um afastamento do sujeito da presença, segundo Frantz Fanon, citado por Grada:

““(…) eu me levei longe da minha presença, para bem longe, de fato, e me fiz um objeto””

(Kilomba, 2019, p. 221)

É também um afastamento da identidade, da comunidade e do elo familiar e cultural do sujeito. Ao ler Grada compreendemos de que forma se deu o processo de escravização dos povos negros, e como o aniquilamento de suas identidades (nome, sobrenome, raízes ancestrais) faz parte do processo de dominação e opressão do sujeito negro. Para citar o exemplo de Anastácia:

“Sem história oficial, alguns dizem que Anastácia era filha de uma família real Kimbundo, nascida em Angola, sequestrada e levada para a Bahia e escravizada por uma família portuguesa. Após o retorno dessa família para Portugal, ela teria sido vendida a um dono de uma plantação de cana-de-açúcar. Outros alegam que ela teria sido uma princesa Nagô/Yorubá antes de ter sido capturada por europeus traficantes de pessoas e trazida ao Brasil na condição de escravizada. Enquanto outros ainda contam que a Bahia foi seu local de nascimento. Seu nome africano é desconhecido”.

(Kilomba, 2019, p. 35)

No contexto da violência de gênero, que afeta principalmente corpos femininos negros (interseccionalidade (racismo x sexismo)), esta separação é ainda mais brutal.

Mulheres têm sido separadas de suas subjetividades, complexidades, lançadas para longe de suas histórias, de seus pais, irmãs /os, filhas /os, ancestrais, aldeias, etnias, tornando-se objetos. “Uma história centrada no drama da desunião, da separação e do isolamento”.

(Kilomba, 2019, p. 221)

No contexto da separação Grada cita bell hooks em All About Love: New Visions (2000) e Salvation: Black People and Love (2001), a escritora aponta para o amor como um projeto político a fim de promover a união e a retomada das subjetividades do sujeito.

Mas de que tipo de amor bell hooks fala?

Novas visões são visões diferentes das que conhecemos. No que diz respeito às relações afetivas, a forma de amor a qual fomos ensinadas/os e experienciamos compreende ao meu ver um grande equívoco, pois está associada à dor, à posse e à opressão. A violência neste sentido tem sido confundida com o amor, e assim temos sido silenciadas/os.

Numa rápida busca na internet encontrei um artigo sobre All About Love: uma nova perspectiva sobre o amor, onde bell hooks questiona as construções equivocadas do amor, e já que não o sabemos, tampouco saberemos o que é amar e ser amada/o.

O amor romântico tem sido o grande vilão da vida das mulheres. Assim como a ideia de amor paternal, maternal, familiar, ao meu ver, muitas vezes constitui outras formas de aprisionamento e opressão à mulher.

Tudo o que você pode fazer por uma mulher é ensiná-la a ser só.

Para bell hooks o amor é uma ação, muito mais que um sentimento.

Eu acredito que só podemos amar quando estamos sendo, agindo como sujeito. É urgente revermos as relações nas quais não somos sujeito, elas compreendem não ao amor, mas à opressão.

Tenho me questionado sobre o acolhimento feminino, nessa perspectiva do amor que se dá pelo cuidado, responsabilidade, comprometimento e escuta, como cita hooks, e não o vejo efetivamente entre mulheres, mas o percebo entre os homens. E em partes compreendo a partir de uma autoanálise, é demasiado cansativo, pois temos a todo instante de lidar com nossas próprias questões, e trazendo Grada novamente “a sororidade feminina é uma ilusão”, aqui ela se refere ao feminismo branco que ignora a interseccionalidade, que é a intersecção de opressões diversas contra a mulher negra.

Minha pergunta é de que forma podemos vivenciar este tipo de amor, se nossos corpos têm sido marcados pela violência, se nem ao menos sabemos o que é o amor?

“Não importa a ternura da conexão, ela foi, muitas vezes ofuscada pelo trauma do abandono e da perda”.

(Kilomba, 2019, p.221)

(3) atemporalidade

o passado e o presente

“Essa sensação de imediatismo e presença é o terceiro elemento do trauma clássico. Um evento que ocorreu em algum momento do passado é vivenciado como se estivesse ocorrendo no presente e vice-versa: o evento que ocorre no presente é vivenciado como se se estivesse no passado”.

(Kilomba, 2019, p.223)

Desta maneira, mulheres negras e homens negros têm tido de conviver com os espectros do passado colonial, que os aterroriza através do racismo cotidiano.

Assim como toda violência e opressão é revivida pelo sujeito que a vivenciou toda vez que ele se depara com um novo choque violento.

As questões que Grada traz são densas e profundas, me detive a estas porque elas me trouxeram a mim e me são urgentes. É preciso falar sobre o trauma.

Para finalizar, Grada apresenta uma questão que pode ser disparadora do sujeito para a conquista de sua autonomia:

“O que o racismo fez com você?”

(Kilomba, 2019, p.226)

“A questão “O que o racismo fez com você?” não tem nada a ver com vitimização; tem a ver com o empoderamento, pois precede o momento no qual alguém se torna o sujeito falante, falando de sua própria realidade”.

(Kilomba, 2019, p.227)

Grada Kilomba é artista interdisciplinar, escritora e teórica.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s