Quem sou EU e a matemática do -1 de D-EU-S

Fiz um teste de DNA autossômico. Estava curioso para saber minha composição genética. Nesses testes eles dividem o atlas em regiões mais ou menos clássicas. A minha composição relativa deu o seguinte resultado: Europa (65%), America (15%), Oriente Médio (13%) e África (7%). Em mais detalhes:

Tenho 49% de componente genético da Europa Central, 15% da Península Ibérica; Sou 10% ameríndio, da região da América Central e 4% dos Andes e Caribe. Do Oriente Médio 13% sendo desses 11% do Norte da África (Maghreb e Egito). Do continente africano herdei 7%, com 5% da Bacia do Congo. De todas estas regiões, alguns resquícios totalizam os 100% compostos de menos de 1% de Ameríndios da América do Norte; menos de 2% de Judeus Sefarditas; menos de 2% da região da África Ocidental (Ghana, Togo & Benin) e Chifre de África (Eritrea, Norte da Etiópia & Somalia) com menos de 1%; finalizando com – pasmem – Myanmar, também menos de 1%.

A questão da identidade permeia o humano. Talvez seja um traço singularmente humano. Saber quem se é. Desconheço qualquer indício dessa questão profundamente hamletiana em animais. Se bem que existem casos de cachorros e gatos que às vezes se acham humanos o suficiente para ocupar o lugar do seu dono. É uma questão intrincada. 

O “Ser ou não ser”, diz o solilóquio de Hamlet, revelando o primeiro princípio da lógica: o princípio da identidade. A identidade é única. Uma coisa é ou não é. E não pode ser uma terceira. Caso os atributos de uma pertençam a outra, então bate-se o martelo. Gêmeos apesar de idênticos, ainda são diferentes por temperamento. No tempo, porém, tudo fica mais difícil. Diz Hegel que a negação inerente do próprio ser lhe faz chegar à uma essência. Assunto difícil esse de falar de essência nos dias de hoje.

Tenho investigado a minha identidade. Sempre gostei de investigar essa questão intrínseca do ser humano. Justamente por não ser um cachorro e por agir com comportamentos os mais diversos – muitas vezes contraditórios – é que meu pensamento me leva a encarar essa questão de frente. Fico me perguntando, onde tudo isso começou? Aliás, quem foi o primeiro “maluco” a colocar essa questão? Sinto que tudo podia ser mais simples.

O estudo da cabala nos diz que o ser humano é composto de pensamento, fala e ação. No pensamento tudo ainda é muito interiorizado. É difícil saber de onde vêm as ideias, as intuições, os sentimentos e emoções. Depois há o mundo da fala e da ação, onde acontece a expressão, o colocar-se no mundo. Exteriorização. Começa aí a comunicação e o julgamento. Esse texto depois de publicado não ficará incólume. Opiniões divergirão. Julgamentos serão sentenciados. Então, se a palavra é capaz de fazer alterações incríveis no ambiente, o que dizer das ações. Se a língua fere, as ações significam morte ou vida.

No texto passado, eu falei um pouco sobre o comportamento dos cães. Em uma tentativa “humana, demasiada humana”, de fazer a analogia entre os diversos tipos de cães, chegamos à conclusão que os cães vira-latas merecem muitos elogios. Eles são vitoriosos quando passam por circunstâncias as mais adversas. São educados e comportados quando recebem oportunidades. São mais resistentes às doenças porque não carregam os maus genes de cães de raça. Ou seja, mais favorecidos pela competição evolutiva das espécies, conseguem incorporar alguns dos melhores resultados.

Mas voltemos a falar de seres humanos… Quem são eles? O que fazem de diferente quando comparado aos outros seres do planeta? Por que se comportam de modos absolutamente estranhos – cultura – uns em relação aos outros? Creio que a resposta está naquilo que sempre ouvimos falar mas pouco compreendemos. Ao tratar sobre o processo de criação do mundo, o narrador onisciente do livro de Gênese, nos diz que o homem foi feito “à imagem e semelhança” do seu Criador. O que significa isso? Sem mais delongas, não se trata de um espelho. Não se trata de uma leitura literal. Deus não é um homem de barba, velhinho com um cajado, comandando o mundo do seu trono à semelhança da fábrica do Papai Noel. Essa passagem revela aquilo que nos distingue de todos os outros seres. Ela revela que nós também temos razão, somos dotados de reflexão, sabemos medir, construir, comparar, estabelecer relações de causa e efeito. Conseguimos pensar. Embora, tantas vezes nos deixemos seduzir pelas emoções. É nosso dever não se deixar sucumbir por elas. Ou por aquilo que é da alçada do imaginário. Do que poderia ser mas não é. Do inalcançável e do impermanente. Nossos pensamentos, falas e ações têm o poder de redimir. Ou vocês realmente acreditam na história de que a serpente enganou o primeiro Homem? Se a tentação foi forte demais era porque Ele queria. O erro de Adam Kadmon não foi ter comido a maçã. Foi ter comido e gostado. Foi ter saboreado o prazer daquilo que viria a ser sua maior salvação: poder duvidar e percorrer um caminho para ter a certeza de que Ele existe. E de que ele mesmo É. Adam sentia inveja de Deus. Todos os homens sentem inveja de Deus. Sentem inveja de não poderem ser igualmente criadores. Adam e Hava inauguram aquilo que chamamos História.

Com a necessidade de se estabelecer nesse mundo, fabricamos a identidade. A identidade é racional. Ela tem o dever de nos manter seguros. Uma sensação de permanência e pertencimento encobre esse sentido único, de diferenciação e exclusão de um terceiro, porque “afinal, dois já é demais”. Vamos então analisar a maneira que respondemos à clássica pergunta: “Quem sou EU?”

Muitas vezes a resposta para esta pergunta se encontra na ponta da língua: um nome. “Sou fulano de tal”. Cuidado. Nem mesmo você escolheu este nome. Outras vezes, a resposta advém daquilo que se faz. A sua contribuição social. De preferência algo com bastante destaque social para poder se encher a boca ao dizer: “Sou médico”. Ninguém diz “sou puta/o”. Nas relações de identidade sociais e culturais, saber de onde se vem também é entendido como sinônimo de identidade. “Nasci em Roraima”. O que é bem diferente de ter nascido em Nova Iorque, claro. Em Roraima falta luz. Por tabela, os Estados – essa entidade abstrata que se acha invencível tal como os deuses – capturam os cidadãos com uma tal de “cultura nacional” para lhes restringir o movimento. O lugar dos cidadãos é dentro das fronteiras. Longe da anarquia que dizem haver no mundo. Se sou brasileiro, logo não posso ser português. Japonês não é russo e vice-versa. Os Estados cobram lealdade, serviços e tributos dos cidadãos, em troca de uma pretensa segurança contra ataques inimigos. O que não fazem, por outro lado, é conseguir deter o Capital com seu poder de desalojar, matar e viciar. E é fácil constatar que nessa guerra os Estados têm perdido vezes e mais vezes.

E quanto ao tempo? Como definir a identidade em relação ao tempo? Ao sermos cuspidos para o mundo parece que a negação nos acompanha continuamente. Sentimos fome, nos despedaçamos para ganhar uns trocados e nos alimentarmos; muitas vezes somos excluídos injustamente de um convívio social sem saber exatamente porquê; ou simplesmente sentimos que o “meu pai não me ama”. E tudo parece injusto, demasiado injusto. O que antes era um mar de rosas pode se tornar um lamaçal provindo do esgoto das grandes cidades. O “-1” nos acompanha. Não importa quanto de sinal positivo consigamos adquirir, 10, 30, 555, um milhão, a operação negativa do “-1” é parte constitutiva do ser humano. Fazer o quê? Foi assim que Deus quis. Conhecer a nossa história ultrapassa nosso limite físico, visto que se trata também de ancestralidade. Trata-se de outros corpos, de outras vidas, de outras culturas e de outras ideologias.

“O que antes era novo hoje é antigo”, diz a música do querido cantor filósofo Belchior. Testemunha de que a vida também não lhe tratou muito bem nos últimos tempos. Seu amigo John o ouviu dizer que o “tempo andou mexendo com a gente sim”. É assim que continuamos a nos guiar pela vida, identificando mais ou menos as etapas dos rastros que deixamos ao longo do caminho.

Para além das coordenadas do tempo e espaço, agora também as questões relativas ao gênero ganham importância. O que importa não é o biológico. Também não importa o quê ou quem dizem que somos. Papai e mamãe estavam errados. Importa, sim, aquilo que “eu” subjetivamente sou. Ou tendo a ser… ou estou em construção de ser. Trans-eu-nte. Sendo. Com pouco espaço para o preto ou o branco, alarga-se o “entre”. Sábios foram os ingleses que levaram o verbo “to be” pro mundo todo, economizando na gramática e também nas discussões do que se é ou não é. Diante de tanta confusão mental sinto que o mundo merece um novo Bob Marley: “Stop that train, I’m leavin’”. Na ausência dele, gosto de mandar um “Fuck” para toda essa baboseira de definição. É como eu digo: “se eu gostasse de dar o cú, já teria dado”. Não se mete com o que eu faço que não me meto na sua. Ser pan sexual é uma opção? Ser gay é outra opção? Ser “trans” imagina então. Meu filho, se é de teu desejo, toma aquilo que é teu. Mas arca com o poder dos teus desejos. Com as consequências. Gozar não combina com a Culpa. Nem rima. Errado foi Jesus Cristo que disse ter super poderes e morreu na cruz. Vai que não tinha tantos poderes mesmo.

Escuto Belchior. Diante de todas essas questões ainda se pode dizer que sou como “aquele jovem que desceu do norte e que ficou desnorteado”? A vontade é de dizer que sim. Mas eu não sou. Eu não sou como você! A transformação do “-1” se opera igual a todos nós quando passo fome. Mas a diferença nasce da maneira como escolhemos nossos caminhos. Como EU escolho o meu caminho. Livre arbítrio! Salve o livre arbítrio!!! Característica igualmente comum a todos nós. Infinitas possibilidades de escolha, configurando um modo completamente original de ser e estar no mundo.

Depois de comer a fruta do Bem e do Mal jamais estaremos novamente em casa. Fora do paraíso  e daquele estágio inicial da vida, estamos condenados na vida adulta a estarmos nus. O prazer ofertado pela cobra que seduziu Eva e depois Adão no jardim foi o de vivermos ao máximo as nossas escolhas. E é precisamente aonde chegamos, aqui e agora. Distinguir o Bem e o Mal só faz sentido quando podemos escolher. Somos a imagem e semelhança de Deus porque só aos seres humanos é facultada a possibilidade de restaurar a unidade Dele. Nesse ponto, a pergunta se transforma absolutamente. Não é mais em “quem sou EU” que devemos procurar respostas, mas em quem é D-EU-S. Sejamos menos egoístas, por favor!

One thought on “Quem sou EU e a matemática do -1 de D-EU-S

  1. ❤️🦋🙏🏾como te amo, ano ler-te. E aprender tanto assim. Muita grata por sonhar junto, por somar sonhos e por ser meu amigo. Por ser um ArteVistas! Te amo! Grata!

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