Não é aconselhável escrever a realidade

Quando minha amiga Roberta me convidou para participar deste blog, a proposta era que eu escrevesse sobre literatura. Meio desobediente desde criança, sugeri, em contrapartida, que minhas contribuições mensais abrangessem não só textos dentro do que se entende por crítica literária, mas que passeassem livremente pelas fronteiras cansadas entre o que é ficção e não-ficção, narrativa e ensaio. E que, principalmente, abrissem mão de ter assunto definido, não como expressão do aleatório, mas como um modo pensado, refletido, de tentar misturar a escrita e seus entornos de mundo. Já havia comentado esses direcionamentos aqui, antes. Roberta, Robertinha, amável e anticonvencional, aceitou a ideia de imediato. Meses depois, pela primeira vez, vou procurar de fato cumprir o pedido que me foi feito incialmente e apresentar um exercício crítico para um livro que completa em 2020 seus 60 anos de publicação: Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

Uma leve zapeada pela internet logo dá encontro a várias discussões quanto à importância dessa obra para o movimento negro, para os feminismos e para uma discussão sobre a pobreza no Brasil, assuntos os quais eu só poderia, hoje, discutir de modo superficial, embora atento. Seja como for, tomando essas questões como companhia de percurso, gostaria de debater um pouco a escrita da autora em relação a suas experiências e percepções. Isso, na perspectiva de atravessar o extremo da diferença em relação ao pobre universo do mim-mesmo, gesto que tem me interessado muitíssimo; buscar, na obra, não mais, como quando muito jovem, o que se parecia comigo, mas o que é intensamente outro, tentativa incerta de escutar o desconhecido.

Com datas-jornadas reunidas em diário, como informa o subtítulo, Quarto de despejo contém o relato cotidiano de uma moradora negra da extinta favela Canindé, na cidade de São Paulo, entre 1955 e o começo de 1960, com um salto que exclui o ano de 1957. Na ausência de marido ou coisa descartável desse tipo, a narradora trata da vida naquela comunidade; basicamente, a cumplicidade com os três filhos e as relações meio tumultuadas, meio festivas, entre os que viviam lá. Miséria, violência, alcoolismo e espontaneidade amistosa, contíguos como os barracos dos residentes. Tratando desses fatos, a dicção da narradora tenta parecer pomposa, talvez por acreditar que isso seria necessariamente digno para uma pessoa financeiramente pobre. Contudo, sem se dar conta, aquela dicção ganha força e beleza na medida em que tal busca se precariza, multiplicando-se os desvios à norma padrão da língua (que são condenáveis apenas para desinformados e preconceituosos em geral, visto que, conforme Manuel Bandeira ou a linguística contemporânea, em nada impedem à comunicação do que interessa: ideias e afetos). A escrita de Carolina é rica e crítica exatamente do jeito que se apresenta.

Quarto de despejo se entrega como um realismo descritivo em que a liberdade da digressão é, felizmente, uma das poucas normas. A lição realista ocidental, dentre tantos nomes como Fiódor Dostoiévski ou Graciliano Ramos, assume, nesse caso, um tom de voz para si e para o que se percebe por perto. A palavra “realismo”, nessa obra, aliás, não cai na gaveta convencional da ânsia por transformar paisagens em fotos de alta definição, como se isso fosse requisito para denunciar, reclamar, gritar, expor o mal íntimo da privação nossa de cada dia. Realismo, nesse espaço, está próximo daquilo que em Machado de Assis ou no Neo-realismo cinematográfico italiano é a essência sem essência da realidade: sua larga fluidez, a ambiguidade, a mistura rasgada entre luz e sombra, o espaço indefinido entre práticas distintas e inconciliáveis de subjetividade; aquilo, enfim, que nenhum olhar ou letra explica por completo. Não há, em geral, uma preocupação em contextualizar detalhadamente a personalidade ou a biografia dos vizinhos, como foi ou seria a vida de antes ou depois do período descrito, ou em criar artifícios para “prender o leitor” (estratégia tão triste e corriqueira no mercado da leitura, como se ler tivesse de ser resultado de uma trapaça pregada no consumidor de livros). A materialidade cotidiana em que Carolina escreve dá um teor não convencional a sua escrita, com saltos coesivos que não explicam tudo, mas, por isso mesmo, criam um movimento próprio, pura e bela vontade de lutar contra a morte a cada instante, apesar da eventual fragilidade: “Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser considerado herói”. O que importa está aí, mesmo que você prefira se preocupar com miudezas adiáveis.

Quer dizer, um dado nítido trazido pela narrativa é o prazer do texto, prazer de criar uma realidade afetiva (afetos alegres, mas também inevitavelmente tristes), mais que a necessidade de gerar uma realidade objetiva com ele. E é esse feitio que aproxima a escrita da mineira, paulistana de adoção, àquilo que me parece ser o aspecto mais importante dessa estranha instituição chamada literatura, por alguns, ou escritura, por outros: uma mistura necessária de busca de uma linguagem própria e a preocupação política de desengatar os entraves de hierarquia e exclusão no mundo contemporâneo. O livro e a favela se constroem, como linguagem e política, no ato da escrita. Inevitável, parece-me também, enfatizar nisso a importância política da linguagem como algo que não simplesmente espelha práticas, mas se posiciona criticamente diante delas, que escolhe dados delas para confrontá-las.

De casa nova: Carolina Maria de Jesus na Companhia das Letras | PublishNews
Carolina Maria de Jesus. Foto da internet

No mundo-favela, ser escritor é ser exceção. A maioria dos que estão ali é analfabeta. Mesmo assim, um corpo escuta e anota frases simultaneamente. Com frequência, são mencionados momentos em que a narradora escreve seu diário ou simplesmente redige algo, em intervalos de urgências contínuas. Uma outra favela, em relação à Canindé fora-texto, passa a existir no durante que a faz verbo, e isso, de um modo especial: ela ecoa sem fim no presente incessante da página, como se a leitura independesse de alguém lendo em tal momento e, estando o livro fechado, apenas esperasse, paciente, um novo leitor para retomar o que ecoa livre do silêncio. A escrita de Carolina é uma escuta da multiplicidade circundante, mas também o ato de fundá-la, fazê-la existir. “O José Carlos ouviu a Florenciana dizer que eu pareço louca. Que escrevo e não ganho nada”. Por que escrever? Para quê? Essas perguntas, enunciada eventualmente por alguns dos personagens e nunca respondida pontualmente, têm sua resposta disseminada da primeira à última linha do diário-livro.

Na favela, não é apenas a escrita que é tida como supérflua, mas tudo ao redor: gente, coisas, moradias, utensílios. Por isso, a metáfora do título: a favela é o quarto de despejo, recinto de cacarecos como parte da casa que é a cidade. A imagem do cubículo de despejo é retomada ao longo do livro conforme a desvantagem hierárquica imposta pela sala de estar, pelos quartos dos donos, ou seja, pela exuberância das áreas paulistanas de classe média, captadas pelo olhar sensível da narradora, mas que fecham seus olhos ao quadradinho escondido nos fundos. O quarto de despejo é depósito de inutilidades, mas também serve à casa: quando massa de manobra eleitoral, por exemplo, como apontado com frequência no livro, ou, de modo mais geral, quando os negros têm alguma “utilidade” para o bem-estar branco. Ao passo que viver na favela é ter a experiência mais aguda da exclusão, da vida num país de exclusão, o olhar da narrativa, sempre no limiar entre a favela e o resto da casa, é antropófago: absorve, aprende, sobretudo com leituras e conversas com pessoas e opiniões que alimentam a visão crítica da narradora. Olhar que tem sede e está sempre morrendo de fome.

Aliás, a preocupação recorrente de Carolina é conseguir alimentos a cada dia para si e para as crianças. A fome é, pensando com Maurice Blanchot, a pergunta que nenhuma resposta desfaz, é o dado mais concreto, mais concreta que a fruta inalcançável, como no Cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto (1920-1999). A fome e a frágil saciedade alimentar que mal a eufemiza são os condutores constantes da matéria de vida possível naquele lugar. “Eu não quero enfraquecer e não posso comprar. E tenho um apetite de leão. Então recorro ao lixo”. Disso decorre, creio, a insistência em escrever, escrever para enganar a fome, escrever tanto, até que escrever se torne meio para enfrentá-la. A arte de recolher do lixo aquilo que pousa na débil soleira entre sobrevivência e morte é como um suplemento à escrita: escolha, inscrição do alimento podre no próprio corpo que o cata. Catador e lixo, duas texturas do despejo, se confundem, alças de um mesmo metabolismo.

O livro de Carolina Maria, que pode ser lido também como romance, é uma espécie de palco teatral, voz que se desdobra de si mesma e se veste de ficção; ficção que não mente, mas escancara o gritante no habitualmente invisível. Do quarto-favela, comparece o que é favela ao extremo; a “mentira” do que é, em mais de um sentido, dramatizado (como dor sentida, como dor expressa), é a única verdade que resta: verdade como mais um item do despejo. Porém, a performance, o gesto cênico da escrita do despejo não é melodramático. Não apela a sentimentalismos: diz mesmo é o que há ou, mais precisamente, o que falta. A força, apesar de tudo, está no que falta, porque a vida, a falta e mesmo a alegria possível se confundem: “Achei o dia bonito e alegre. Fui catando papel”. Aqui, provavelmente, perde sentido a questão de se uma escrita é artística ou não, se assume algum lado na binaridade bestinha texto literário X texto não-literário, ficção e realidade, porque o acontecido e a palavra se tornam inseparáveis, mesmo que distintos. Escrita, experiência, invenção: o sonho ancestral de que o olhar se torne parte da paisagem, mesmo que no efêmero.

“Não é aconselhável escrever a realidade” diz um sapateiro à narradora. No entanto, Quarto de despejo é uma grande desobediência a esse “conselho”. Não é aconselhável escrever a realidade, por diversos motivos: por exemplo, porque a censura é como um vírus, ora inativo, ora disseminado; ou porque uma vez iniciada essa escrita, é quase inevitável a descoberta de que será preciso continuá-la enquanto o próprio corpo estiver vivo, e depois em outros corpos, interminavelmente: começar a escrita sabendo que ela não poderá, não deverá, não quererá ser interrompida, mesmo que o seja por tempo indefinido. E quem sabe, com isso, lembremos de desobedecer certos conselhos lamentáveis, por prazer, por favor, sem favor, já que o que vocês e eu mais fazemos é obedecer, decepcionantes que somos. Entretanto, ainda vivos, talvez. Afinal, mesmo o título de um texto pode muito bem ser desobedecido. “Os favelados zombam dos conselhos”.

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