Frestas do mundo dos outros

A luz cheia, caída do
sol sobre as folhas das
árvores que fazem do
terreno baldio um
remendo de floresta, folhas,
microtelas multidirecionais, filtros
verdes, a alguns metros acima das
crianças sentadas no chão em círculo assim
étrico. Há sapos-cururus dormindo por
ali, escondidos, invisíveis como aquelas
crianças quando elas caminham pelas
ruas, quer dizer, quase invisíveis, porque
as pessoas às vezes as veem e as
temem ou sentem seus territórios in
vadidos por elas, crianças como
cachorros ferais em forma
humana. Um homem (segredo: esse
cara sou eu) mora
numa biblioteca onde
só há livros e uísque, o que
pra ele não deixa de ser uma
situação de alguma sorte, já
que ele gosta dos livros e do
uísque. Sempre sozinho naquela
biblioteca, esquecido de desde
quando. Não tinha sobrado
ninguém além dele naquela
cidade. Muito longe do homem e
de sua biblioteca, as crianças do
terreno baldio não dispõem de livros nem
de uísque, mas sim de pequenos
cachimbos de lata de cerveja ou refrigerante
em que fumam um tipo de
farofa grossa com cara de
encardida. Essa é uma das
primeiras vezes em que
essas crianças se divertem desse
jeito: estão animadas e têm a
vaga sensação de estarem diante
de um monte de trilhas
atraentes, sem saber qual
escolher. Por um lon
go período, o homem da
biblioteca preferiu livros que
detalhassem personagens parecidos
com ele, caras distantes dos
outros porque queriam e porque não
queriam: Fausto, Brás Cubas, o
escritor sem nome do
porão de Dostoiévski, o
escritor com fome, de Knut Hamsun, o
animal sem nome na
toca que escavou, como
contou Kafka. As garotas e
garotos brincam eufóricos após
os cachimbos, o dia é de
luz atravessando todos os poros, mas
não está tão quente, talvez porque
ainda seja manhã. O homem
na biblioteca não tem
noção clara do tempo, ele
já nem tenta mais medir a
passagem do tempo, e,
falando em tempo, faz um
tempo que ele tem preferido
ler obras com personagens femininas
e bem diferentes dele: as
mulheres de Clarice, de Virginia, de Cassandra, de Marília Gabriela, de Orides, de
Maria Carolina, de Ana Cristina.
De dia, ele lê, de noite,
bebe uísque: homem rotineiro.
Em lugar de ler livros-espelho, de se buscar nas
páginas lidas, ele agora lê livros
com personagens que acolhe
como filhas, esposas, amigas, ou me
lhor, ele acolhe a ausência delas como
se fosse uma filha, uma esposa, uma
amiga. Simultaneamente, eu não sou
esse homem, nem estou
aqui. Convenceram você a
ver, às vezes, felicidades possíveis de
alguém apenas como tristeza e
pessimismo: isso, sim, é que é
triste, alguém poderá responder. Quem
sabe? Os sapos-cururus são
pequenos hipopótamos, porquinhos
provavelmente felizes em
seu aparente mau-humor. Pode
acontecer: quando alguém chega
perto
deles, eles viram as costas e
cagam e mijam da maneira mais
rude e sonora que conseguem, talvez
até não estejam sendo
sinceros, mas, quando fazem
isso, estão expressando uma
irritação repentina. Sapos-cururus se
parecem um pouco com ratos, caramujos,
tilápias, javalis, gatos, cachorros, coelhos, gente:
se adaptam a qualquer lugar e
vencem fácil a disputa pela vida que
houver com as espécies nativas. Se
bem que os sapos se limitam a
comer insetos: sua ambição é
modesta. Uma noite, depois de
um sexo intenso e gostoso, você
dormiu e sonhou que, por uma
infelicidade qualquer, os sa
pos-cururus simplesmente foram
extintos, fim, pra eles, da aventura
de viver. Não foi um sonho bom, foi
um sonho triste, mas logo
você acordou e constatou, aliviada,
que nenhuma má-notícia tinha
chegado e, portanto, os
cururus provavelmente continuam
seu próprio mundo nas
frestas, ou em torno, do
mundo dos outros

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