DE QUE AFETOS VOCÊ É CAPAZ?

Por Kiko Alves

Enquanto crescia, fui ensinado pelos livros de História brasileiros que nem África nem eu tínhamos história. Que eu era um selvagem, descendente de escravos e sobre o qual quanto menos se dissesse, melhor; histórias que contam que pessoas como eu, tinham sido salvos pela Europa e trazido para a América. E, claro, como toda criança negra da minha geração carentes de informação, de pertencimento, e de um afeto eu que julgava não ter, acreditei nisso.


Não tínhamos escolhas quanto a esse fato, o fato que, embora iguais dentro de uma sociologia acadêmica que não conhece nada do mundo e da realidade que estuda, ou conhece a partir de uma perspectiva mais simples talvez, apesar disso éramos, mesmo que iguais, diferentes e essas diferenças todos os dias eram contadas e recontadas, de modo a subjugar o sentido de pertença negra.


A colonização no Brasil, sem dúvidas é um projeto executado com extrema competência, foi e é feito a partir de uma ideia de igualdade, mas que na prática usa, o que de mais refinado se possa ter em termos de apagamento e nesse sentido, escolha nunca foi uma opção, podíamos apenas ser no presente, sem passado, sem futuro e com um presente sombrio, e podemos existir nessa área cinza, desde que a fala não seja uma perspectiva, desde que a memória não fosse reivindicada.


Quando nos damos conta que a educação ainda é usada como ferramenta do projeto genocida e racista nacional, quando entendemos que ainda é na escola que transformamos barbaridades em evento histórico, normalizamos a morte cognitiva de tudo que não seja branco, e afastamos do nosso campo de visão tudo que não seja claro, é então que entendemos que o projeto permanece eficiente.
Minha geração tinha extrema dificuldade de vê, e enxerga demais pretos de outras formas, afinal os livros de história falavam (e ainda falam), que éramos seres com pouca humanidade, e aqueles eram os únicos livros que existiam, ou ao menos eram os únicos livros que tínhamos acesso, nos rincões do Ceará, e do Brasil.


Nesse processo de apagamento, perdemos também o corpo, nossa alma embranqueceu, nossas tradições perderam sentido e criamos um demônio que apenas castiga negros, no processo de embranquecimento do pensamento negro, perdemos a mobilidade e as acepções da vida, e perdemos a alma, e fomos esquecidos ou esquecemos o Orun, estamos aqui apenas como casca vazias, esperando o fim do mundo branco cristão, e nesse processo onde todos parecem concordar perdemos a ligação desse corpo com a natureza, com os ciclos da terra, com a movimento ondulantes dos ventos do leste. No presente resta a luta por narrativas, e a ideia central de nossos ritos, Ilês e Congados, e permanecemos na luta diária contra uma avalanche de afetos tristes a que somos submetidos, todos os dias e os meios de comunicação, a língua e um número grande de pessoas sobretudo nesses tempos de radicalismos e da mercantilização da vida, estão extremamente comprometidos em nos comunicar afetos tristes, e a luta que não é apenas subjetiva passa por permanecer fortes, nesse sentido gerar e comunicar bons afetos, pode se tornar um excelente meio de existir aqui enquanto criamos um projeto negro de vida, diante disso a questão a que precisamos responder é; de que afetos você é capaz? Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes. A tristeza, os afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir. Os poderes estabelecidos têm necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos. O tirano, o padre, os tomadores de almas, têm necessidade de nos persuadir que a vida é dura e pesada. Os poderes têm menos necessidade de nos reprimir do que de nos angustiar, ou, como diz Virilio, de administrar e organizar nossos pequenos terrores íntimos. A longa lamentação universal sobre a vida: a falta-de-ser que é a vida…


É preciso entendermos que o racismo em todas as suas formas sutis ou hiper violentas, nos comunicam a morte, o fim de uma existência que não pode pertencer a lugar nenhum, as pessoas brancas se praticam ou usufruem historicamente dos frutos do racismos, mesmo quando não desejam, ainda assim comunicam os afetos que destroem aos poucos a felicidade de irmãos negros que não estão junto de sua comunidade, dentre esses existem, os doentes, tanto da alma quanto do corpo, que não largarão seus privilégios, vampiros, não aceiraram a condição de negros emancipados e tentarão, nos comunicar afetos triste, lutaram pela doença e desejo de nos comunicar sua neurose e sua angústia, sua castração be-amada, o ressentimento contra a vida, o imundo contágio, a dor.


Lutam contra o progresso do pensamento, desejam estancar a sangria, desejam podar a liberdade, mesmo quando juram perante crucifixos e temem o dia, que algum negro, ou uma massa negra, num lindo dia descobrir que foi enganada durante todos os anos da nossas vidas, e quando descobrirmos que nossa mães e nosso pais foram enganados também.


Temem o dia que eu descobri que, de fato, ainda que eu tenha sido criado, comprado e vendido como uma mula, eu nunca fui uma mula. Se eu descobrir que nunca fui realmente feliz a limpar, cuidar, abrir suas portas, e a escavar todas aquelas minas para fazer outras pessoas ricas. E se eu descobrir que todas aquelas cantigas que os negros cantavam e cantam, todas as loas, os xirès não eram só expressões inocentes de um povo primitivo, mas expressões extremamente sutis, e perigosas e trágicas de como era estar aprisionado. Então, pela presença de alguém ou, simplesmente, pela tentativa de andar daqui para ali, começarei a assustar o mundo branco.


Eles sempre souberam que eu não era uma mula. Eles sempre souberam que ninguém deseja ser um escravo. Eles sempre souberam que os os ônibus lotados, a fome, os presídios e as fábricas de têxteis e as metrópoles inteiras construídas com trabalho negro, não estavam a ser construídas pelos negros só por amor. Eles faziam-no debaixo do chicote, sob ameaça da arma e, de uma ainda mais desesperada e sutil ameaça, a da Bíblia e da justiça, quando enfim descobrirmos que eles sabiam e ainda assim, mantinham, seus privilégios e suas mesas fartas enquanto nas nossas falta comida, quando enfim soubemos que eles sabiam que nos matariam quando nos mandaram as ruas para cuidar de suas vidas, enquanto do auto de suas torres praticavam yoga e meditavam, quando soubermos que somos apenas algo a ser utilizados por eles, enfim nesse dia refundaremos um sentido da pertença negra, por que espero que nesse dia entendamos que eles não estão conosco.


Esse chamado silencioso é para que possamos pensar e encontrar um lugar onde a vida possa ser possível e não estou falando de um mundo místico, mas falo do início de um processo onde enfim algo parecido com uma casa possa então existir, onde o estado na forma do aparato policial não se apresse a puxar o gatilho para que os filhos amados dessa pátria possam então dormir em berço esplêndido e acordar para mais um dia te yoga e meditação enquanto olham o mundo do auto de suas torres.

Kiko Alves – Coletivo Afrofuture -Jornalista, Pesquisador das questões raciais e condição social das periferias do brasil. Realizador, Professor e Produtor Audiovisual. Especialista em Antropologia da Imagem – UFC.  Mestrando em Sociologia – Pós – UECE ( CE) –  linhas de pesquisa: Cultura, Diferença e Desigualdade. Escreve para o blog às quintas-feiras, em “Qual é o seu Lugar de fala?”

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