Identidade (ancestralidade III)

Há duas semanas iniciei um papo sobre ancestralidade e feminismo. Para começar, trouxe a memória forte e doce de minha avó materna, Dona Terezinha, a Mãezinha. Uma mulher que muito me orgulha, no presente, porque mesmo não estando mais nesse plano, sua história é contada por nós e fortalecida pelos valores deixados por ela. Falei ainda sobre a diversidade de nós mulheres nas construções diárias das lutas, conquistas, dos amores, dos medos e das dores. Trouxe um pouco do sentimento após a leitura do livro Identidade e força ancestral – Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo, inclusive, o responsável por estas minhas escritas e outras leituras sobre o tema. Escrevi sobre ser grata às tantas histórias incríveis de mulheres que vieram antes de mim, da nossa geração, que nos garantiram lugar de fala, existência, de vida. Trouxe também a minha gratidão pela resiliência das mulheres da minha família e pela minha história que está em curso. Percebi a importância, ainda mais, do feminismo em todos esses lugares e na vida de nós mulheres. Que bom que existe diversidade para acreditar e viver.

Hoje, para fechar esse nosso papo e acender o espírito de inquietação sobre nossas histórias, sobre a pluralidade de construir o feminismo vou falar sobre identidade. Quem somos nós mulheres? Quem é você, mulher? Quais histórias foram vividas antes do hoje para chegarmos até aqui. A nossa identidade nos faz livres? Quais os fatores, lugares, abraços, dores nos trouxeram até aqui? Como construímos o nosso ser?

Em busca rápida no Google, identidade vem “do latim identitas, a qualidade do que é idêntico (o que é o mesmo). É um conjunto de características essenciais do que diferenciam coisas, indivíduos ou grupos sociais; características próprias do indivíduo ou de uma comunidade; consciência que uma pessoa tem de si mesma e que a diferencia das outras”.

Banco de imagens

Na sociologia, além do conceito de identidade também é estudado a alteridade, de forma resumida, ela representa o grupo do outro, a dor do outro, o lugar de existência do outro. É reconhecer que, muito além da sua existência e crenças, também existem outras culturas, outras formas de pensamentos e que, acima de tudo, é preciso respeitar e conviver de forma civilizada com toda essa pluralidade.

Eu sou uma mulher negra de pele clara. Fruto de uma mulher branca com um homem negro. Esse reconhecimento é recente. Resultado de leituras, aprofundamento na minha própria história, dos processos de desconstrução como mulher, ser humano e intelectual. O estudo sobre o feminismo é um caminho que me ajudou muito a entender e reconhecer minha identidade. Ser uma mulher feminista também é recente. 

Me sentia completamente perdida em relação à minha identidade quando mais nova. Olhava para minha pele clara, meu cabelo crespo e me perguntava quem eu era. Não era reconhecida por pessoas brancas como uma menina branca, porque meu cabelo “não era adequado para essa cor da pele”, motivos de violências que pratiquei comigo como queimar por várias vezes meu couro cabeludo (tenho cicatrizes até hoje) e usar produtos químicos fortíssimos, como formol, para deixar meu cabelo liso e assim “pertencer”. Não era negra, porque a cor da minha pele nunca me tirou nenhuma oportunidade na minha vida, nem me fez ser vigiada nos lugares por onde andava ou qualquer outra violência sofrida por quem tem a pele escura. O conflito sempre foi reforçado pela minha família que, assim como muitas famílias, não conhecem e nem reconhecem suas origens. Não os culpo. 

Ainda no terror da chamada adolescência, eu também não era vista como uma mulher. “Masculina demais, só gosta de coisas de homens, não é feminina, só anda com macho, joga bola, não toma jeito de moça” e tantas outras frases machistas me acertavam. Na rebeldia nata da idade eu me apropriava cada vez mais desse lugar, considerado de masculino, à medida que as violências aumentavam. Levou muito tempo, muitas cicatrizes foram deixadas, dores provocadas para que eu finalmente pudesse entender que a  construção da identidade é um processo e que leva tempo.

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Trouxe essa clássica frase de Simone de Beauvoir no primeiro texto sobre ancestralidade e feminismo. E agora, quando falo sobre identidade, o uso dela se faz muito necessário. Diferente do modelo tradicional do patriarcado, que exerce forte influência sobre a construção das sociedades determinando funções sociais para homens e mulheres desde antes de seus nascimentos, a construção da identidade do indivíduo parte pela diversidade de processos que ele vai passar. No que diz respeito à nós mulheres e, as perspectivas do movimento feminista, é processo constante de desconstrução para a formação daquilo que nos representa, nos define, nos torna livres e iguais (no que diz respeito a direitos e deveres), iguais. 

Ser mulher é uma construção. A identidade é uma construção. É um longo caminho que pega um pouco de nossas heranças emocionais, espirituais, de carne, de convívio, do que absorvemos do mundo e damos de volta para nos caracterizar. Assim como a digital, a identidade é única, porém, ninguém nasce com ela definida. “Você tem que criar a sua própria identidade. Você não a herda,” Zygmunt Bauman sobre a definição de identidade pessoal. 

Ainda, de acordo com Bauman, a identidade é um projeto de vida. Talvez não na atualidade, visto a velocidade com que recebemos as informações, assim como as tantas certezas são fluídas. Mas ela deve ser um projeto construído e modificado ao longo da vida. 


Zygmunt Bauman – Identidade pessoal

Antes me tornar uma adulta, nunca havia falado ou ouvido sobre feminismo. Apesar de ele ter sido um dos pilares mais fortes das mulheres de minha família, mesmo elas não se considerando feministas, nos muitos anos minha mãe, minhas avós e minhas tias eram resistência e reinvenção na arte de ser mães, mulheres, escritoras de suas histórias. Aliás, até hoje são. Todo o meu respeito às mulheres que vivem a maternidade. É um projeto de vida que admiro muito. 

“Mesmo sem ter conhecimento sobre movimentos teóricos e militantes, mesmo sem ter ideia de como mudar um status quo de opressão, fica entendido por nós, que em momentos singelos, toda e qualquer mulher já se questionou de vivermos como vivemos. Partilhamos não só uma força ancestral e uma vontade de mudança, como também dores e indagações que permeiam nossa individualidade, ainda que de forma subjetiva.” (pg.63), trecho do livro Identidade e força ancestral – Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

Quem é você?

A pergunta mais demorada para ser respondida nos anos de análise. E muitas vezes, as respostas não ficam claras. Somos nós; o que trazemos de casa; das relações com os outros e com mundo; os medos; as dores. Somos o nosso olhar sobre nós, os olhares dos outros sobre nós, o lugar onde estamos. Somos nossas crenças, incertezas, os traumas que trazemos, as feridas abertas e curadas da vida. Não cabemos em uma linha do tempo que segue uma ordem cronológica. Somos a necessidade de se adaptar, na grande maioria das vezes sob uma perspectiva de violência, para caber e pertencer. 

No livro “Quem tem medo do feminismo negro” da Djamila Ribeiro, a autora conta sua história de silenciamento e das diversas tentativas de tentar caber para pertencer, um processo clássico do patriarcado. Ela revela esses lugares confusos e perversos que é a negação, especialmente por crianças negras, das suas raízes e, consequentemente, da sua existência. “Acostumada a querer agradar as pessoas para que fossem minhas amigas, patinei, sem saber o que estava fazendo . Por um tempo, já adulta, quando me lembrava dessa cena, me culpava por julgar que não havia respeitado minha avó. Tempos depois me dei conta de que teria achado graça”, Djamila, trecho do livro “Quem tem medo do feminismo negro?”.

O feminismo negro: entrevista com Djamila Ribeiro

Você se reconhece nesse lugar? Quantas vezes você desrespeitou suas raízes para entrar no padrão? Negou as lutas de suas ancestrais para não criar conflitos? Repito, a construção da identidade é um processo. Entender e se apropriar do movimento feminista é um caminho, especialmente para nós mulheres, para o fortalecimento dessa identidade. 

Eu sou uma mulher feminista. Sou negra. Sou uma mulher que sonha, chora, luta, resiste. Eu sou plural na minha individualidade. Eu sou uma das bisnetas de Maria Raimunda da Conceição da Silva Vitorino Souza Tomaz Gomes, mulher preta que nasceu como propriedade de alguém e recebeu na pele essa marca. Uma mulher analfabeta, que da vida tinha muito conhecimento, mesmo tendo sido privada de estudar da maneira tradicional. Eu sou a neta da agricultura Terezinha Gonçalves de Carvalho, semi-analfabeta que investiu todo o suor do seu trabalho na educação dos filhos. Eu sou filha de Antônia Anizia Gonçalves Moreira, mulher, professora que sob os ensinamentos de Paulo Freire aprendeu e nos ensinou que “a educação faz sentido porque as mulheres e homens aprendem que através da aprendizagem podem fazerem-se e refazerem-se, porque mulheres e homens são capazes de assumirem a responsabilidade sobre si mesmos como seres capazes de conhecerem”, Paulo Freire.

A identidade é um projeto de vida adequada a cada novo momento vivido ou espaço ocupado. “A identidade é uma construção social”, como defende a antropóloga Lilia Schwarcz. Analisando a formação da identidade do lugar Brasil, Schwarcz avalia o processo de construção da identidade como, “um fenômeno contrastivo, eu crio a minha identidade por contraste a alguém. Não é essencial. E ela é alterativa. Eu posso mudar de identidade dependendo do local. Num local eu sou professora. Num local eu sou mãe. Em outro lugar, ainda, eu sou amiga. Enfim, nós construímos várias identidades. No fim, identidade é uma resposta política a um contexto político”

Ser brasileiro: Qual a minha identidade?| Lilia Moritz Schwarcz

P.S.

Parabéns ao aniversário de um ano da Lei nº16.946, comemorado ontem 30 de julho, que assegura o direito de uso do nome social para travestis e pessoas trans em serviços públicos e privados no Ceará. O nome social deve ser reconhecido em registros, cadastros, correspondências e nos sistemas de informação de serviços de ensino, saúde, previdência social e de relação de consumo, dando maior segurança jurídica a pessoas trans e travestis.

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