Eu vou escrever

Bárbara Leite Matias

Eu vou escrever, e não se trata de escrever palavras gramaticais aeiou porque não tenho nome e não sou dona das palavras, nunca fui dona de nada, eu carrego sequestrado no meu amago gritos, uivos, ecos, sorrisos, olhares e salivas escorregando entre arvores, céus e a terra.  E tu resolves chamar de palavras. Eu germino minha dor, meu suor, gozo e alegria e dá nessa tal de palavra filha de escrever. Tudo bem, que chame de palavras escritas, se quiser. De toda forma, eu vou escrever. Confesso que minhas letras não precisam ser batizadas, deixem elas demonizadamente livres, carregantes de si feito andorinhas. Eu vou escrever inventando letras em folhas sem linhas, desenharei as vozes que carrego na cabeça. Eu vou escrever no meu corpo palavras que nunca aparecerão no papel, nas paredes, nos muros e nem nos computadores. Eu escrevo enquanto queimam minha casa, uso fogo como tinta nas minhas memórias evocando berros que carrego nas células. Palavras rebeldes e teimosas voam da minha janela sem permissão, desfilam entre dedos e desejos de corpos de almas selvagens feito minhas letras linguarudas.

Não me diga não escreva. Que queimem os papéis, acabem com as tintas. Eu sei como fabricá-las e, ainda assim, não se trata disso porque quem escreve sabe das quantas que riscam quando dão vidas às letrinhas que respiram.

Mãe, avó. Do meu barco furado vamos escrever.

Sem papel e caneta escreverei palavras racializadas como nós.

Me afogaram aos seis anos de idade, com mochilas nas costas carrego os quilos da minha submersa memória. Ainda que a coluna se quebre ao meio. Eu vou escrever.

Submersa na água vou escrever.  Com dedos quebrados, vou escrever.

Sendo peixes, vou escrever com o corpo inteiro.

Com os olhos, vou escrever, e se tu souberes ler, talvez, tu me escutes feito um grito na madrugada de domingo pra segunda.

Se tu me escutares, talvez, somente assim.

Saberá o que relato no livro corpo alma, que é ser memória de muitas que se arrastam comigo enquanto tentam queimar nossas existências.

Bárbara Leite é atriz, performer, professora de teatro e escreve para a cena. Também escreve no blog às quintas-feiras, em “qual é o seu Lugar de fala?”

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