Par tida

Mariana Trotta

Abro uma cerveja. Puro malte. Ligo o computador e vejo que as letras estão partidas. Divididas numa lógica que exigem delas junções. Novas formações. Palavras de poucas letras ou frases extensas se esquecem de que o alfabeto é partido. Me vejo par tida. A par e em par de mim, tida como uma aproximação do “e” com o “u” fazendo o eu.

Sou eu quem estou partida. Até as palavras de uma letra só precisam de outras letras para serem vistas como palavras. Caso contrário, são apenas letras. Parto a pa lavra. Parto no sentido de parir e no sentido de lavrar, semear novas ressignificações. Também no sentido de partir, cortar ao meio e, ao mesmo tempo, partir, ir embora.

Minha mãe partiu muito cedo. Ela tinha 47 anos. Linda e cheia de vida. Foi. Partiu sem volta. Sem outra chance de junção. Partiu minha casa. Paro de escrever. Choro. Ainda choro muito depois de 24 anos sem ela.

Estou hoje há mais tempo sem ela do que com ela. Tenho poucas, pouquíssimas lembranças da minha infância. Talvez o trauma da separação ou por ter estado a infância toda com ela e doer demais não tê-la mais. Paro de novo. Molho o teclado. Não enxergo as letras. Lágrimas ofuscam a visão.

Voltei. Conseguia manter meu luto no esquecimento até o dia em que fui mãe. Projeto que adiei até os trinta e cinco anos. Depois de muita luta, provavelmente comigo mesma, pessoa partida, demorei para conseguir ser mãe. Após o mais triste revés de um parto, que foi ter uma perda gestacional avançada, fui mãe aos trinta e oito anos. Ganhei a luta que travei. E enfrento hoje as sombras da maternidade.

Iniciei um árduo caminho de tentar descobrir o que restava da minha mãe em mim. Ser mãe é também redescobrir a sua mãe. Processo lindo. Não quando se interrompe bruscamente. Muitas vezes me vejo agindo com a minha filha como agia a minha mãe. Também como agia a minha vó. Passei a entender que minhas referências eram fortes. Tentei recuperar minha infância.

Minhas melhores lembranças de infância são de viagens. Estar em outro ambiente faz com que possamos ver a nossa casa de longe. Tive uma casa feliz, acolhedora, cheia de cheiros e colo quente.

Veio a quarentena e minha maior preocupação, ao saber que o isolamento iria durar muito, foi pensar que as descobertas da minha filha estavam desprovidas da necessária distância de casa. Resolvemos nos deslocar. Partir. Sair para criar boas memórias desse período. Começamos a observar o casulo. Percebemos que ele está virado para baixo. Até o dia em que mudou de cor. Instante exato que em que virou borboleta. Partiu.

Na hora em que a borboleta voou para fora de casa, fiz um vídeo semente, que mostra uma pesquisa embrionária da criação de um espetáculo de dança, que estou criando com minhas alunas e alunos, utilizando as nossas memórias com a terra, que agora são junções das memórias da minha filha:

Imediatamente lembrei do meu casulo e do momento em que virei borboleta. Cheia de nós na garganta, choros descontrolados e lembranças chegando, fiz as pazes com a partida da minha mãe. 

Todas as memórias boas que estou criando com a minha filha nesse momento tão duro para a humanidade, e que muitas mães e avós estão partindo, me forçaram a pedir o colo da minha mãe de volta. Ele está quentinho. 

Todo o cafuné e o momento de afago na Alice reavivam minhas células e me fazem constatar com o coração que a minha mãe me deu muito, me deu demais. A vida que pulsa em mim com entusiasmo. A mãe que me tornei.  

Perdi o medo de me perder de mim.

Mariana Trotta é coreógrafa, bailarina, videomaker e escritora. Autora do livro “O discurso da Dança: uma perspectiva semiótica” (Editora CRV) e autora do blog “Na espera de um novo amor: sobre maternidade adoção e devaneios”. Professora Associada do Departamento de Arte Corporal da UFRJ e do Programa de Pós-graduação em Dança da UFRJ (PPGDan), coordena o Laboratório de Linguagens do Corpo (LALIC/UFRJ), pesquisa em criação em dança contemporânea e videodança, com enfoque no corpo político e ativista. Mãe da Alice. Escreve às segundas-feiras para o blog, no Lugar a mãe que sou.

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