Sobre escrever dramaturgia

Por Juliana Veras.

Obs.: Esses meses de 2020 em quarentena me fizeram mais dramaturga. *risos* Não que eu não escrevesse antes. Apenas, agora decidi dar mais atenção ao ofício.

Escrever um texto dramatúrgico exige muita: dedicação, concentração, capacidade de trabalhar no escuro, cumplicidade com as pessoas que estão criando com e inspirando você; exige saúde, alguma alegria, música; alguma paz. Exige também a capacidade de desistir com velocidade de uma ideia que você achava genial, assim como para a direção também, tanto quanto a capacidade de investir numa ideia que você tem certeza de que é maravilhosa, apenas não se revelou completamente ainda. Como compor músicas. E eu faço essas coisas todas. Exige também uma capacidade imaginativa de antever como serão as cenas, ao menos ter um vislumbre mínimo de cenário, às vezes figurino, sonoridades… Muitas vezes eu só consigo sair de uma cena quando termino de compor a música atrelada à ela.

Pensar e desenvolver dramaturgia exige sanidade. Exige ter uma caixa interna pra guardar bruscamente e o mais rápido possível todos os seus demônios imediatistas do pensamento. Porque você precisa ter esses demônios ativos também para escrever dramaturgia. Eles precisam existir e poder destruir o mundo todo se você deixar. É a música da caixa onde confinamos nossos demônios do pensamento sendo esmurrada por eles de dentro para fora que inspira o fluxo do pensamento criativo das cenas sendo escritas. Como os Titãs presos no Tártaro após devorarem o deus Dioniso. Os gritos e urros deles são a música que faz o universo girar.

Escrever para teatro exige isolamento, imersão, residência, retiro. Exige visitar lugares importantes, lugares muito inspiradores, abismos reais no mundo terreno. E dar-se um tempo nesses lugares e, depois, nos lugares quartos-de-escrita, com objetos trazidos daqueles lugares para se inspirar.

Escrever exige piração. Tanto que está dentro da palavra inspiração. E expiração. Piração. Mas uma pira boa. Uma pira de fogo do juízo lapidado, roído e amolado até quase fragmentar, até atingir aquele microtamanho que possa penetrar preciso e certeiro no tecido do texto…. O tecido do texto tem sua textura. Suas entranhas. Como se ele já nascesse pronto e a gente precisasse apenas atingir algum ponto vital dele para fazê-lo formar-se sob nossos olhos. Escrever exige olhos.

Os olhos exigidos para escrever são isso: a capacidade de registrar cada pedaço de inspiração fulminante, no meio do dia, no estado de criação aberto às vezes por meses a fio ou mais tempo ainda, onde a nossa mente está antenada para a possibilidade de, em qualquer conversa trivial cotidiana, surgir uma cena incrível, genial e necessária.

Escrever exige memória. Lembrar com o corpo e a mente a voz e a postura da amiga na lanchonete, contando a história sobre batatas e a casa do caralho, anos antes de a escrita estar sendo desenvolvida, mas num tempo em que eu já sabia que um dia iria escrever. Escrever exige invocar a escrita por muito tempo antes de ela começar a acontecer; às vezes, anos antes.

Escrever exige compreensão das pessoas amadas com quem se convive, de que pode ser que precisemos estar um pouco mais ausentes do que de costume. Pode ser mesmo que nos ausentemos sem nem sequer percebermos. Escrever exige ser perdoada por estar com a mente ausente, psicografando a mensagem de personagens ficcionais extraídos direta e essencialmente de pessoas e situações reais que inspiram e apontam os caminhos do que escrever, de como e, principalmente, por que e para quem. Escrever exige conexão com uma verdade sólida, concreta e real, presente no tempo presente. Exige entender o agora que precisa se manifestar através da escrita, por mais que a imersão às vezes precise nos tirar do agora agoral.

Escrever exige uma capacidade de se conectar com o agora de todos os tempos, com as emoções primitivas e fundamentais do humano, as emoções primordiais. Como os dons mais elevados para o pensamento cristão, a fé, a esperança e a caridade. Escrever exige conexão com as emoções mais elevadas, os instintos humanos e os pensamentos humanos de todos os tempos e como eles reverberam no agora.

Escrever exige uma capacidade de se desconectar das importâncias triviais e efêmeras dos humanos, que não traduzem os sentimentos primordiais humanos. Exige saber anular as besteiras, mas exige também a capacidade de usar as besteiras do agora trivial para conectar os humanos com o agora transcendental ou primordial.

Escrever exige perdoar a si mesma por estar um pouco desconectada com as importâncias triviais humanas. E exige sobreviver à necessidade de sair da imersão para atividades como comer, dar aulas, ensaiar, dormir e outras coisas que desconectam da concentração absoluta de estar escrevendo. Mas em estado de criação da escrita, estamos sempre em algum grau conectadas com a escrita. As situações do dia a dia mais diversas, desde as quase mortes a tomar o café antes de esfriar, quando prestamos muita atenção, falam a nós exatamente as coisas que estávamos precisando ouvir para fechar ou desenvolver uma ideia.

Escrever exige desenvolver ideias bestas que serão cortadas. Escrever exige uma tremenda admiração por si mesma, pela sua inteligência e criação, para que alguma falta de confiança não distraia as ideias de se desenvolverem.

Escrever exige em algum momento estar pronta para dividir as ideias. Exige de vez em quando catar opiniões, emoções e relações das atrizes e o ator que estão criando comigo sobre os detalhes do que estou escrevendo. Porque está sendo escrito pra eles encenarem. Sem eles não fará sentido, não é outra literatura, é teatro, e temos um tempo para produzir tudo isso. Eles precisam ir se conectando logo. Pois quando estou com eles muita coisa é mudada, eu sei. Portanto, aqui, escrever significa desapegar-se de absolutamente quase tudo que estou criando, em detrimento do envolvimento absoluto dos atores que estão criando comigo o espetáculo. Aquilo com o que eles não se envolverem, não faz sentido e deverá ser cortado.

Escrever e dirigir exige de mim a capacidade de provocar os atores e fazê-los envolvidos com o que estamos criando. Exige muitas leituras antes de escrever para pensar além e poder propor inspirações assertivas. Escrever exige a capacidade de se inspirar. Mesmo que de vez em quando tenha que jogar as ideias mais incríveis fora, em algum momento.

Escrever exige a capacidade de jogar ideias incríveis fora no momento certo. Uma ideia incrível pode ser responsável por outras ideias incríveis, então, muitas vezes é importante que ela fique ali. Por muito tempo. Escrita. No canto de rodapé. Como um escólio. Escrever é coisa também de escoliasta.

E a história não tem fim.

Juliana Veras e as Feras,

Em construção da dramaturgia de espetáculo de teatro a partir do mito grego de Ariadne e a trajetória humana de desbravamentos, abandonos e resiliência, desenvolvido em processo colaborativo na Companhia Crisálida de Teatro por Elaine Cristina, Elô Temóteo, Jéssy Santos, Juliana Veras, Rafaely Santos, Ohana Sancho e Paulo de Souza, junto ao precioso apoio de Flávia Câmara, nossos familiares e amigos.

Evoé!!

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