Força ancestral: diferenças e compartilhamentos (ancestralidade II)

Na última sexta, começamos um papo sobre ancestralidade e feminismo. Hoje vou continuar o papo da ancestralidade a partir da perspectiva da pluralidade do feminismo. Quero me referir também à trajetória de mulheres, que mesmo negando explicitamente a importância do movimento feminista, acabaram por afirmá-lo nas conquistas de suas vidas. Acima de tudo, entender que nas histórias de nós mulheres há muitos caminhos e formas de lutas, o que, na maioria das vezes, não cabe dentro de um conceito abstrato. Cada mulher tem um universo, um cotidiano, várias experiências e particularidades. Especialmente, porque nós mulheres ocupamos lugares diferentes que têm a opressão ampliada, de acordo com a cor da pele, da classe e da orientação e da identidade sexual. 

“Quem nasce na periferia tem que construir uma força extra para lutar por seus direitos e espaços diariamente. Dentro desse contexto, a mulher parece deter um estímulo ancestral, enraizado, ainda que ela não tenha descoberto ou admitido”, trecho do livro Identidade e força ancestral –  Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

Todo o meu respeito às lutas, conquistas, aos lutos e às reinvenções das minhas avós, da minha mãe, da minha irmã e das minhas primas. Todo respeito à minha história. Todo respeito à coragem de lutar, mudar, perder e vencer de tantas mulheres. Nesse sentimento de conexão e nas leituras desses dias encontrei o livro “Identidade e força ancestral –  Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo”, resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Brenda Torres e Sabrina Nascimento, em Jornalismo pela FIAM FAAM – FMU, em 2016. A obra reúne o desejo de ambas em reaver suas histórias partindo do ponto de vista de estudar o feminismo por meio das narrativas das vidas de sete mulheres moradoras de diferentes periferias de São Paulo.

Pensar feminismo dentro da periferia de São Paulo é enxergar as diferentes vivências que se misturam e se fortalecem numa junção do individual com o coletivo. Essa caminhada é de longa data, desde nossas ancestrais, avós, tias e tantas outras mulheres com quem convivemos”, 4ª capa, livro Identidade e força ancestral –  Histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo.

As histórias das vidas de Tula, Ana Paula, Marilu, Aline, Jéssica, Giovana e Bea, personagens do livro, de acordo com as autoras, são vistas a partir do feminismo interseccional, pois tratam de questões de gênero, raça e classe. Inclusive, vou continuar esse assunto em outro post de forma mais aprofundada. Por enquanto, deixo uma curta entrevista da Djamila Ribeiro para a compreensão inicial do que significa essa temática:

O que é feminismo interseccional? – Djamila Ribeiro

Na imersão das histórias de todas essas mulheres, “que buscam construir suas identidades a partir de incômodos com a estrutura do nosso sistema. Além disso, alimentam a sede por mudanças por meio do resgate da ancestralidade, a fim de olhar para o passado e projetar a construção de um futuro melhor” (pg.91) surgiu a necessidade/vontade de escrever sobre ancestralidade com fortes e importantes doses de feminismos, no plural, na diversidade que esse movimento deve ser. Sob a construção desse olhar busco, assim como estou, inquietar vocês (mulheres, especialmente, e homens) para falarmos sobre essas diferenças e compartilhamentos das nossas histórias, que envolvem medos, lutas, abismos, encontros e reencontros. 

Você é feminista?

Toda mulher tem que ser assumidamente feminista e levantar bandeiras? A mulher que hoje eu me tornei responde sim sem nem pensar. Especialmente, porque me considero salva pelo movimento feminista, pois ele é um forte influenciador pelo que me tornei como mulher e pessoa. É também resultado dos meus estudos e das minhas vivências pelo feminismo a maneira como me olho e olho o mundo. Para minha alegria, para alegria das nossas lutas e dos gritos por igualdade entre os gêneros de várias e várias gerações de mulheres o número de mulheres que se declaram feministas está crescendo.

A constatação é resultado de uma pesquisa realizada nos Estados Unidos e Reino Unido, pelo Instituto YouGov, de 2018 e divulgada no ano passado, que aponta que uma em cada cinco mulheres, questionada sobre ser feminista, diz que é. O resultado desse crescimento é reflexo de muitos anos de lutas, da força de mulheres unidas contra as tantas violências, por direitos iguais, por lugar de fala. É o não silenciar. É pelo crescente apoio de mulheres públicas e com um gigantesco número de seguidores ao movimento feminista. É resultado de debates, de trazer o assunto o tempo todo e por uma rede de encorajamento de mulheres que também já foram ou são vítimas de diversas violências para outras mulheres.

A mesma pesquisa traz ainda que o movimento feminista não encanta mulheres mais jovens. Algumas mulheres, não apenas as jovens, optam por não se afirmarem como feministas pelos estereótipos que, historicamente foram e são dados por meio de conceitos machistas e desrespeitosos ao que o movimento representa. 

A partir do livro Feminists Don’t Wear Pink and Other Lies (Feministas Não Usam Rosa e Outras Mentiras), de Scarlett Curtis, a autora fala sobre esses estereótipos, tais como o de que feministas são mulheres que odeiam homens, não gostam de maquiagem, não se depilam, não tomam banho (lugar  que se propõe a depreciar as mulheres e o movimento) como pontos que afastam mulheres do feminismo. Para a socióloga Christina Scharff, que ensina Cultura, Mídia e Indústria Criativa na universidade King’s College, em Londres, esses pontos são “cruciais”, a partir de pesquisa sobre o tema, que são apresentados por mulheres que rejeitam o feminismo.

O mundo não precisa do feminismo? | Isabella Trevisani | Mude Minha Ideia | Quebrando o Tabu

O feminismo, pelo contrário, na raiz do que seu significado se propõe, é definido como a luta por igualdade entre os gêneros. De forma mais intensa, o feminismo é liberdade. É o direito de escolha. É a quebra dos padrões. É um grito pela diversidade. É o direito de ser princesa, guerreira, careca, cabeluda, gorda, magra. O que desejar ser.  É fogo no patriarcado (adoooro)!

Em um outra pesquisa, também de 2018, realizada Grã Bretanha, uma em cada três mulheres de classe alta se diz feminista. Já em classes mais baixas, uma em cada cinco assume o movimento. As mulheres de classes diferentes concordam que homens e mulheres devem ter os mesmo direitos. Do ponto de vista racial, para mulheres americanas, 12% das mulheres latinas se identificam como feministas, mas que o índice sobe para mulheres negras (21% se consideram feministas), asiáticas (23%) e brancas (26%).

Um ponto importante da pesquisa coloca que 3/4 das entrevistadas apontam que as conquistas do movimento feminista fez “muito” ou “algo”  para melhorar a vidas de mulheres brancas. Esse cenário é descrito no ensaio autobiográfico da Djamila Ribeiro, no livro “Quem tem medo do feminismo negro?”, onde ele recupera suas memórias de infância e adolescência que a coloca em constante lugar de silenciamento até o fortalecimento e orgulho de suas raízes por meio da construção do feminismo como pluralidade. Inclusive, esse é um outro papo que também quero trazer para o nosso debate. 

Existe ainda, por parte de muitas feministas brancas, uma resistência muito grande em perceber que, apesar do gênero nos unir, há outras especificidades que nos separam e afastam. Enquanto feministas brancas tratarem a questão racial como birra e disputa, em vez de reconhecer seus privilégios, o movimento não vai avançar, só reproduzir as velhas e conhecidas lógicas de opressão”, trecho do livro Quem tem medo do feminismo negro?

Tendo em vista que uma das dificuldades da expansão do movimento feminista são os estereótipos, tais como o que apresentei nas análises anteriores, é necessário refletirmos sobre como podemos democratizar e aproximar as mulheres do feminismo, respeitando suas individualidades e pluralidades de existência. Então, deixo essa questão com vocês: como é possível melhorar a imagem do feminismo?

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