110 anos do Theatro José de Alencar

Sob o olhar de uma habitante do Curso Princípios Básicos de Teatro

Mar menino! Quer dizer que em junho de 2020 o Theatro José de Alencar completa 110 anos? Mas é tempo, né?!

Eu sou Juliana Veras, atriz, diretora, arte-educadora, artista da cena e do pensamento no teatro e na música aqui de Fortaleza, Ceará. Eu sou ex-aluna e professora do Curso Princípios Básicos de Teatro, o CPBT, esse projeto tão lindo sediado no Theatro José de Alencar, nosso TJA. E trabalho junto à Companhia Crisálida, ao coletivo Manada e alguns grupos de teatro do Ceará, com artistas que têm todos um vínculo afetivo muito forte com o TJA, nossa segunda casa.

Para áudio-descrição: Enquanto escrevo, estou sentada no meu lugar de estudo e trabalho, meu quarto, com meus livros, roteiro de espetáculo que estou escrevendo e objetos de inspiração para a criação. Estou usando uma blusa de estampa florida que tem as cores dos vitrais do TJA, que são também as cores da logo do CPBT: preto, azul, verde, amarelo, vermelho, branco.

Estou aqui para falar do CPBT e para isso convido vocês a voltar no tempo e imaginar o ano de 1991. Naquela data, o hoje centenário Theatro José de Alencar, depois de dois anos fechado para restauração, deixou de ser apenas uma casa de espetáculos para se tornar também um centro de formação e pesquisa em artes cênicas. No prédio anexo, onde antes funcionava o curso de odontologia da UFC, a então secretária da cultura Violeta Arraes e sua equipe de colaboradores, idealizaram e instalaram o CENA – Centro de Formação e Pesquisa em Artes Cênicas. Lá foram construídas salas destinadas a oficinas, cursos, residências, intercâmbios, estudos e experimentos artísticos dos estudantes, educadores, artistas e pesquisadores das diversas linguagens cênicas, ou seja, música, canto, dança, circo, palhaçaria e teatro.

Foi nesse contexto, em 1991, que os professores Joca Andrade e Paulo Ess, na companhia de outros colaboradores, iniciaram as atividades artísticas e educativas que deram origem ao CPBT, que, ano que vem, 2021, completa 30 anos de atividades ininterruptas. O Curso tem sobrevivido a todo esse tempo devido ao empenho dos professores, coordenadores, dos funcionários do Theatro, do interesse e importância que a comunidade fortalezense tem dado a esse projeto que foi incentivado por todos os gestores que passaram pela direção do TJA ao longo desses invernos e verões todos.

Joca Andrade, Neidinha Castelo Branco e Juliana Veras no CENA – TJA, 2020.

Atualmente o CPBT atende a três turmas, nos períodos manhã, tarde e noite. A equipe de coordenadores e professores é formada por Neidinha Castelo Branco, que ministra aulas no horário noturno, Joca Andrade, no turno tarde e eu, Juliana Veras, pela manhã.

Meu primeiro contato com o CPBT foi no ano de 2006, quando fui aluna de Joca Andrade e o Curso completava seus 15 anos. Na época, minha turma concluiu com a montagem de um espetáculo, Curingas.

Elenco do espetáculo CURINGAS, CPBT 2006 (Direção: Joca Andrade).

Cantávamos assim:

SENHORAS E SENHORES (Letra: Germana Cavalcante. / Música: Juliana Veras.)

Senhoras e senhores, boa noite!

Com sua licença vamos nos apresentar

O espetáculo Curingas é um jogo

E desse jogo, você vai participar

A sua sorte agora vai entrar em cena

Pois essa peça é você quem vai montar

A sua cena vai abrir uma janela

E essa janela, outra vida revelar

Luiz Otávio Queiroz e Juliana Veras no espetáculo CURINGAS, CPBT 2006 (Direção: Joca Andrade).

Eu tinha alguns anos de experiência no teatro. Comecei como muitos de nossos alunos hoje, reunindo pessoas de interesse em comum e arriscando comunicar a poesia para o mundo. Mas foi meu contato com o CPBT que abriu em mim portas para muitos questionamentos humanos. O projeto pedagógico do Curso é pautado no incentivo da relação do artista-criador com a cidade e o mundo para o qual ele cria. E para mim, saber direcionar o foco da minha vontade de compartilhar arte era o tempero que faltava.

Algum tempo depois ingressei como professora. Minha primeira turma montou o espetáculo Um Gole Divino, que está comemorando dez anos em 2020. Nós ainda nos encontramos, mas cada pessoa da turma já guiou sua vida para lugares bem distintos, afinal, dez anos são alguma coisa.

Elenco do espetáculo UM GOLE DIVINO, CPBT 2010 (Direção: Juliana Veras).

E no Gole, a gente canta assim:

NINHO DA UVA (Letra e música: Juliana Veras.)

Ele fez o vinho da uva

Foi criado no ninho da uva

Ele nos trouxe o cultivo da uva, a uva, a uva

E o mel que adoça os seus lábios que adoçam os meus

(…)

Amanda Alves e Anitta Muratori no espetáculo UM GOLE DIVINO, CPBT 2010 (Direção: Juliana Veras).

O espetáculo é uma ode a Dioniso, deus do teatro, e foi montado para comemorar o centenário do Theatro José de Alencar. De lá para cá, cada ano tem sido uma experiência de constante renovação para mim. Muitos são os depoimentos de nossos alunos e ex-alunos sobre a importância que o Curso tem em suas vidas. E isso reverbera profundamente em nós que mediamos a formação. Estar em contato com cada época, motivando jovens e adultos a pensarmos juntos a criação, em conexão com as urgências de cada época, reforça para mim o sentido de ser artista.

Hoje, em tempos de recolhimento pela pandemia do novo coronavírus, nossa programação se volta ao diálogo com os alunos em suas casas por meio virtual. Investimos na discussão teórica dos assuntos que cada módulo do Curso contempla, afim de compreender melhor nosso contexto e nos preparar para a forma como a arte virá a ser fruída em tempos vindouros.

Enquanto alimentamos em nós a esperança de dias melhores, desejamos que a gente possa, sobretudo, sair deste momento difícil um pouco mais humanos.

Viva o CPBT, o Theatro José de Alencar em seus 110 anos; viva a arte, o encontro e a vida!

Juliana Veras e as Feras

Colaboração: Joca Andrade

Outras imagens do espetáculo CURINGAS, direção de Joca Andrade, 2006:

Nina Castro Brasil (in memoriam).
Elenco e direção.
Luiz Otávio Queiroz e Nina Castro Brasil (in memoriam).
Emerson Lúzbio, Adriana Coelho, Juliana Veras e Germana Cavalcante: Equipe de Sonoplastia.

Outras imagens do espetáculo UM GOLE DIVINO, direção de Juliana Veras, 2010:

As mulheres.
Gleyson Lýsios e Elaine Cristina.
Anitta Muratori.
O elenco.
Evoé!

Juliana Veras é atriz, diretora, escritora, compositora, filósofa e pesquisadora de teatro e música. Escreve aos domingos para o blog Lugar ArteVistas.

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