Perspectiva

Cara amiga bruxa,

Agora, estou em um novo ponto de vista.

Passei duas lunações e meia na praia da baleia (Itapipoca-CE). Aprendi com a civilização maia, a contar tempo observando o movimento da natureza, uma lunação é o período que a lua leva para retornar a sua fase nova, dura aproximadamente 1 mês. Conseguir uma boa relação com a lua vem sendo uma pesquisa diária. Ao observar as suas fases, percebi a reverberação destas no meu corpo físico, emocional (astral) e energético (etérico). Para falar sobre eclipses, por exemplo, é preciso primeiro sentir a experiência de vivê-los com consciência. Comecei a treinar a expansão do meu campo intuitivo, por meio de meditação e calendário lunar, para observar as influências destes eventos em mim.

A ação gravitacional da lua me interessa. Imagina a força que esse astro opera sobre nós por meio de seus movimentos cósmicos? Penso que, assim como as marés, o nosso corpo liquidamente enche e seca, como o movimento de sístole e diástole respiratória, movendo nossas águas numa dança de correntes marítimas. O mar precisa de seis horas por dia para encher e mais seis para secar, refazendo seu ciclo sempre em horários diferentes. Na praia da baleia observei que nos períodos de lua nova ou cheia, a maré estava alta próxima ao horário em que o sol se punha ou nascia. Isso quer dizer, que neste mesmo período a maré estava baixa ao meio dia ou meia noite. Nesses momentos de oposição e conjunção entre sol e a lua, o mar aumenta a sua amplitude. Na baleia, por exemplo, existem pedras que só aparecem nessas fases da lunação, pois o recuo e o avanço da maré ficam maiores, revelando, por exemplo, o que estava escondido pelas águas nos momentos das fases crescente ou minguante. Daí te pergunto: o que tu tens revelado de si mesma na lua nova ou cheia, quando tua maré baixa te revela? Ou como tua ação avança nos períodos de maré alta?

Outro efeito gravitacional que a lua exerce sobre nós são os momentos de seu apogeu e perigeu, ou seja, quando ela está mais distante ou próxima da terra. No mapa astral, verificamos isso por meio da proximidade da lua com lilith. Quanto maior a proximidade entre elas, mais distante a lua está da terra, portanto está no seu apogeu. Quando a lua está mais próxima da terra, em seu perigeu, seu efeito sobre as águas é muito maior, aumentando a amplitude das marés, podendo até gerar ressacas no mar.

Porque então nós estaríamos de fora desse efeito gravitacional, já que nosso corpo é composto de 70% de água?

Tenho pesquisado textos antigos de ocultismo e esoterismo (se quiser, podemos trocar sobre isso), para descobrir mais sobre esses ensinamentos. Nossos antigos sábios já falavam que o elemento água simbolizava nossas emoções. No tarot, por exemplo, a leitura do naipe de copas (elemento regente: água) nos conduz para interpretar o corpo emocional do consulente. A lua na astrologia, como também a carta A Lua (arcano XVIII do tarot de marselha), traz muito sobre a forma como reverberamos nossas emoções, como nos relacionamos, ou como revelamos a nossa intuição. Hoje ela esta se aproximando de sua fase quarto crescente, saindo da fase nova, momento em que nos sentimos mais introspectivas (podendo também indicar começos de novos ciclos, ou plantio de sementes/ideias), para iniciar a força de ação. Nesta semana de eclipse em câncer mergulhei nas raízes da minha existência, voltando para fortaleza para adubar minha árvore genealógica. Quando abri a minha composteira, vi que o biofertilizante (líquido liberado pela decomposição de cascas de frutas e legumes, rico em nutrientes) estava seco. Resolvi o problema colocando um pouco de água no recipiente, para poder utilizar este líquido nas plantas que ficaram em casa. Adubar as relações, para fortalecê-las. Me preparando aqui para o eclipse lunar em capricórnio, local onde se posiciona a minha lua natal. Assunto o qual tenho com algumas amigas de mesma lua… mania temos de internalizar sentimentos profundos e de ser autossuficiente para resolver questões emocionais…rs…

Mudar a perspectiva do olhar para si enxergar internamente, tem me causado descobertas delicadas. Observar as minhas marés tem me proporcionado encontros com um desconhecido inconstante, fazendo-me percorrer por águas calmas, cristalinas, turvas ou turbulentas, levando meu corpo a um passeio por tsunamis ressaqueados, redemoinhos gigantes e leves marolas. Tudo ao mesmo tempo. Aprendo com isso a ser tormenta azul, kin do calendário maia, mais precisamente a ser o olho do furacão, que em seu centro a vacuidade do ar se presentifica, enquanto em suas extremidades tudo se transforma.

Minha amiga bruxa, a alquimia da vida está em como manipulamos os ingredientes energéticos. Abaixo segue um poema que escrevi em tempos de redemoinhos gigantes, é uma música também, espero um dia poder arranjá-la.

Olha,

Não é nada fácil

Se perceber em desconexão

Das próprias palavras emitidas em vão

Sei que o processo de desconstrução é lento

Pois o que passa dentro de mim

É muita carência

Por não saber lidar com o que está aqui

Dentro.

O lado de dentro de mim

Mora alguém que ainda não conheci

Eu sou algo indeterminado e em constante fluxo

A camada superficial do meu ser é apenas a beira do precipício

A profundidade se dá no percurso

MERGULHA

Tenho alegria de mergulhar em mim, tenho descoberto a minha criança perdida. Gosto de brincar com ela.

Te amo e saudades.

Um beijo de sua amiga bruxa.

Praia da Baleia, 2020.

Natália Coehl é mestranda em artes pela UFC e graduada em Licenciatura em Teatro pelo IFCE. Pesquisa técnicas de movimento, como: dança, mímica, artes marciais, meditação e derivas urbanas. Escreve aos sábados para o blog Lugar ArteVistas.

3 thoughts on “Perspectiva

  1. Amiga bruxa. Que lindo foi ti ver imersa no mar. Que saudades meu corpo tem dessa sensação de submersão. Os banhos de mangueira tem me aliviado na Quarentena. E tbm nesse período tenho me conectado mais com a lua e seus ciclos e meu ciclo, fazendo uso da mandala lunar.
    Adorei muito também a parte que falou da lua em Capri, tbm é a minha lua , e foi umas das partes do meu mapa que tive grande dificuldade de aceitar e confesso que sei pouco sobre ela. Mas tenho buscado me aceitar mais como sou, mergulhar mais em mim e brincar com a criança que vive dentro de mim.
    Obrigada pela partilha .

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  2. Querida amiga bruxa, as vezes brinco de submergir como um feto, ficando em apneia o máximo de tempo possível. Me sinto em gestação. Existem momentos em que abro os olhos e em outro os deixo fechados. São sensações diferentes, porem ambas tem a ver com visão. Ver o corpo em baixo d’água de olhos abertos talvez seja lidar com o campo emocional mais visível. De olhos fechado perco as bordas pra me encontrar com a imensidão do mar. Mas o momento que tenho mais arrepios são os em que meus olhos estão abertos e a água está turva… acontece… mesmo com medo continuei olhando para o fundo, sem vê-lo. Quando mergulhei, vi que conseguia enxergar o que existia lá em baixo só quando olhava de muito perto. Olhar de perto me assustou, porém com o tempo meu sentimento de medo foi desaparecendo. Lua em capricórnio sabe entrar na escuridão solitariamente. Coragem pra isso, talvez não nos falte, porém, para expressar o que viu é um longo processo. Preferimos nos comunicar telepaticamente…rsss… ou talvez por textos longos e sinceros. Também tenho descoberto a minha criança, mais precisamente a minha adolescente. Tem sido bem divertido. Brincar a vida também é meu caminho. Grata pela sua partilha. Sua amiga bruxa.

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  3. Pois é, a gente é muito acostumada a ver o corpo no espelho, medindo seus limites, julgando em base de padrões, um corpo físico, limitado e cansado de todas as opressões. Preciso brincar mais com esse corpo fluido, e com sua falta de limites. Talvez o mar seja um caminho para se expandir e se voltar para dentro de si, como um feto. Quando puder brincar com o mar de novo, quero lembrar da tua escrita e brincar com as possibilidades de ser.
    Ah essa lua em capricórnio, adoro tudo que me contas dela. Me faz ter vontade de ler um texto só sobre ela (fica a dica hahahah) Desse entrar na escuridão dos sentimentos, dessa autossuficiência, desse sair em textos longos e sinceros. Como tenho isso, as vezes falar o que se sente é está muito na superfície, desprotegida do outro; por isso prefiro ficar calada, dentro de mim e entender o que estou sentindo. Depois vem um transbordar em textos, fragmentos de mim. Acho que a gente é um pouco maré.
    Obrigada pela partilha, amiga bruxa.

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