Religiões e o budismo japonês de Nichiren Daishonin.


Antes de começar, recitemos três vezes o seguinte mantra: “Nam Myoho Renge Kyo”. Muitas vezes quando se escuta sobre o budismo, pensa-se imediatamente em certas práticas que estão bem disseminadas no imaginário coletivo: meditação, jejum, isolamento social, desmaterialização como forma de elevar a alma. Sem mencionar explicitamente aquilo que aparece à primeira vista (como as vestimentas, a rasura dos cabelos e o absenteísmo de valores ocidentais para quem se define como budista) é sabido que o ponto de comum entre todas as correntes é a perseguição da iluminação. O que o imaginário coletivo e popular dessa expressão expressa, no entanto, é aquilo que em outra medida aparece como contraditório para quem conhece a história do famoso buda Sakyamuni.
Longe de ter passado a totalidade de sua vida preso em monastérios, no alto de uma montanha ou em cavernas, comendo raízes e vivendo como um eremita, Sakyamuni encontrou por volta dos seus 35 anos o caminho do meio. No intuito de conhecer as quatro etapas de sofrimento universais do homem (o nascimento, o envelhecer, a doença e a morte) que seus pais lhe esconderam quando criança, esse ex-príncipe indiano decidiu procurar a verdade adotando as práticas de isolamento e
meditação dos eremitas de sua época. O budismo já existia. Após atingir a iluminação debaixo de uma figueira, teria então chegado ao Nirvana, um estágio de sabedoria e paz que lhe forneceu autoridade para ser capaz de disseminar esses ensinamentos para uma pleura de seguidores. Cada um destes discípulos então escreveu aquilo que conseguiu interpretar, dando origem a um número ainda mais sem fim de tratados, os sutras.
E daí fica a pergunta: será que para atingir a “iluminação” teremos todos de nos isolar e trilhar o mesmo caminho dessa referência espiritual? Perseguir os opostos e então encontrar o famigerado “caminho do meio”? Eu sempre tive dúvidas quanto ao radicalismo dessa e outras práticas religiosas. Claro que meu lugar de fala, de quem nasceu imerso em valores judaico-cristãos e na periferia do Ocidente vai guiar meu julgamento. O que fazemos quando sofremos? O que fazemos quando somos
acometidos por injustiças que não parecem ter reparação? O que resta para aqueles que são derrotados por forças invisíveis? Procuramos a soberania do Estado e do dinheiro para resolver algumas dessas questões, quando não somos religiosos, e de Deus quando o somos, correto?
Eu sei que em meio a uma sociedade que estimula valores como competição, vaidade, medo, avareza e ignorância, muitas vezes se abster da vida em sociedade parece a melhor escolha. Eu mesmo acredito que em vidas passadas devo ter sido um desses eremitas que viviam em montes e vales, à espera de almas perdidas que procuravam se encontrar e que voltavam livres porque meus conselhos e histórias lhes remetiam novamente ao encontro de si mesmo. Nesta vida, porém, o meu lugar de vivência tem me mostrado que o verdadeiro caminho é o de “estar junto”, o de “sofrer junto”, o da “empatia” e de estender a mão, porque ela alimenta mais do que a boca que reza. Eu acredito que na vida somos às vezes como o vento, a água, a rocha e o fogo. Nós variamos de estado. Nada é para sempre. Por isso quando alguém está passando por um profundo sofrimento eu prefiro dizer: “Aguenta que vai passar, lá na frente você vai ver porque teve de enfrentar essa situação”. Eu prefiro o enfrentamento mais que o isolamento, compreende? O que não me impede de fugir de vez em quando dessa loucura que são as cidades superpopulosas.
Mas então, o que isso tem a ver com o budismo japonês? Tem a ver que esse budismo é muito parecido com a minha maneira religiosa de pensar: estar junto, viver numa comunidade de afeto, onde erros possam ser superados e acertos celebrados. Quando ouvi falar pela primeira vez dele e seu princípio norteador imaginei que fosse algo meio charlatão, dessas místicas que prometem mundos e fundos. Porém, quando vi o tamanho da organização e quão profundamente tocava a alma das pessoas comuns, percebi que era valorosa. Não é o momento para falar da prática e de todos os
princípios dessa religião, até mesmo porque não sou o mais fervoroso dos adeptos e existem pessoas em grau de qualificação muito maior para uma ampla explicação. Entretanto, é por ter uma filosofia que segue uma linha de raciocínio comum, verdadeira e poderosa, que me sinto capaz de esboçar essas linhas gerais sobre essa crença.
O “Nam Myoho Renge Kyo” que advém do sutra de Lótus é o mantra que contém o princípio de causa e efeito imanente da vida. Ele foi defendido como a essência de todo o budismo no século XIII pelo monge Nichiren Daishonin, em meio à uma situação deplorável no Japão do ponto de vista moral, econômico e político. A flor de lótus se tornaria o símbolo por excelência da superação dos sofrimentos da vida, pois apesar de estar na lama só ela seria capaz de florescer com tal exuberância. Esse ensinamento acredita que a simples recitação torna o indivíduo suficientemente forte para enfrentar os obstáculos, tomando e se responsabilizando por suas próprias decisões. Afinal, o efeito é somente a causa de algo que foi decidido. Essa lei geral clássica da física de Newton corrobora com a ideia da sua contraparte quântica (talvez também mística) de que o bater das asas de uma borboleta em um lugar pode fazer um furacão no outro lado do mundo.

Flor de Lótus (Imagem: divulgação/internet)


A partir de Nichiren, que a trouxe da China, no Japão ela fez sua história. Existe a versão mais ortodoxa e a versão secular. As duas vivem em disputa. A primeira preza por uma forte hierarquia e a submissão de autoridades monasteriais. A segunda, laica e muito mais popular, tem adeptos em todo o mundo e é sustentado pelos líderes da Soka Gakai Internacional. E pode ter certeza que na sua cidade deve haver uma sede.
Aqui no Rio de Janeiro ela é muito popular e já a encontrei mesmo em Fortaleza. E o que mais tem de interessante nela? Bem, como é definida pela recitação de um mantra capaz de incorporar o ritmo do universo de “causa e efeito mística” convém que ela seja aceita em inúmeros países pois é independente de normas, costumes e morais. Isso a torna extremamente poderosa, e fica um tanto quanto irresistível quando se importa em alcançar o “Kosen Rufu” ou o estabelecimento da paz em todos os povos. Isso porém traz consequências de um ponto de vista crítico. Desde a filosofia de Immanuel Kant – sim, sou profundamente moderno – sabemos que o choque das civilizações advém sempre de um valor particular com pretensão universal, gerando os conflitos e guerras com outros particulares supostamente universais. É assim que os movimentos que se direcionam para a paz universal têm fracassado, à exemplo do cristianismo (conversão forçada e tribunais de inquisição), as ideias seculares do iluminismo de “liberté, egalité et fraternité” que as distribuem somente para os brancos europeus privilegiados, e a “missão civilizadora” que serviu como base para a colonização de povos na África, Ásia e América. A história se repete como farsa e às vezes como tragédia. É assim que as melhores intenções se tornam às vezes corrompidas.
E, finalmente, uma questão que percorre o budismo: “Onde está Deus?”, perguntamos. E a resposta é que não há. A concepção de Deus para o budismo é a de que tudo é Deus. É complexo definir em poucas linhas. Mas eu continuaria ensaiando a dizer que tem a ver com a ideia de que tudo se transforma e está em mutação. Uma nuvem pode estar comunicando um “adeusinho” do seu animal de estimação que morreu há poucos dias. Eu particularmente acho muito bonito, levanta minhas esperanças e me dá entendimento do todo. Afinal, em DEUS sem o D e o S, há apenas o EU.
Porém, se colocarmos a questão mais profundamente, sem negacionismos (atitude ignorante dos nossos dias), é significativo perceber que não é a existência da verdade que nos torna humanos, mas a vontade de buscá-la. Isso me nos dá o direito de questionar. De questionar os dogmas, as doutrinas, o “establishement” de quem diz que é assim ou assado.
A verdade mais pura da vida é que nós sempre vamos procurar a origem de todas as coisas, da criação e da diferença entre as criaturas. Afinal, nós não temos a resposta absoluta ainda, ou temos? Se o Budismo não acredita em um Criador por achar que é simplesmente o homem quem fala por Ele (pois na História o que vemos prevalecer é a outorga de autoridade do homem de dominar outros homens), tomando para si a responsabilidade da sua própria vida, é louvável e está no caminho da “verdadeira iluminação”. Mas resta aquela coceirinha atrás da orelha que diz que se o livre-arbítrio foi concessão de Deus, como poderia ele tomá-la? Ele se arrependeu de nos deixar livres para decidir? Deus se arrependeu de ter feito o homem ou será que fomos nós que nos arrependemos de querer buscá-lo, de querer encontrá-Lo como faria um jovem em busca de seu verdadeiro amor? Antes do Novo Testamento tomar as rédeas de controle do que define como “Deus”, esse Deus amoroso, que é só perdão e busca a paz, o que prevalecia antes era a honestidade, transparência e o pacto do Antigo Testamento que sem contradição alguma falava dos sofrimentos e da existência da guerra como condição de sobrevivência. Não havia o “dê a Deus o que é de Deus, a César o que é de César”. Era também severo porque precisava impor uma moral, regras, instituir o que é o certo e o que é errado. Ou vamos continuar acreditando que o relativismo cultural (primo do
dístico igualdade, liberdade e fraternidade) de comer animais proibidos e manter relações proibidas não nos afetará? Cedo ou tarde, aquilo que foi causa aparecerá como efeito. Essa é sem dúvida uma lei universal. Não importa o credo ou a origem do país, nós seres humanos, estamos submetidos a leis invisíveis. E aquele que quiser enxergar melhor pode comprar um par de óculos: o óculos do amor e da restrição, da compaixão e da orientação, do beijo e da vara, ou se você quiser, a visão do Caminho do Meio.

Gustavo Xavier é ator, capoeirista e historiador. Licenciado pela UFC em Historia Social, mestrado pela PUC-Rio em Relações Internacionais.

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