Não Consigo Respirar!

Nas últimas semanas a sociedade brasileira viu boquiaberta e com algo parecido com revolta o caso de Jorge Floyd nos Estados Unidos, e se emocionou enquanto um policial branco lhe tirava a vida com seu joelho esmagando a traqueia de um homem que não reagia, impedindo o mesmo de respirar e aliado a problemas respiratório temos mais um assassinato de um homem preto, por um homem branco representante do estado.
As redes sociais, sobretudo a comunidade negra mundial se revolta e repercute esse caso de Minneapolis para o mundo, o que vimos foram imensos protestos de pessoas negras, dizendo que vidas negras importam, que se seguiu por um número cada vez maior de países e um número grande de pessoas brancas antirracistas, clamando por justiça social e racial.

No Brasil pela primeira vez presenciei âncoras sabidamente racistas, narrando as manchetes e racionalizando o assassino de Floyd, e se seguiu uma série de coberturas internacionais e nacionais sobre a morte de pessoas negras pelas forças policiais de diversos países e de forma mais discreta falando dos nossos casos de racismo e assassinatos por parte da força policial do estado brasileiro.
Na sequência as redes foram ocupadas com avatares #antifascistas, e por fim a onda passou, deixamos de segurar essa pauta e esfriou, esse breve relato dos movimentos das redes e das pessoas foram aqui exposto de forma meio desordenada, mas que serve para falar que nada mudou, porque nada existiu para a sociedade branca brasileira e rica, habitantes das torres das áreas ditas nobres, nem mesmo quando um garoto, uma criança cai do 9º andar de um prédio, Miguel Otávio Santana da Silva, tinha 5 anos, morreu; esse roteiro criado pela crueldade do destino acontece, tendo como personagens centrais o menino Miguel, negro de periferia, uma Mãe, negra de periferia, que devia estar em casa se protegendo de uma pandemia e protegendo seu filho, a mãe se chama Mirtes, não tem marido, luta para criar seu filho, mas uma pandemia e o fato de ter que comer, e morar lhe tira de casa, da periferia de Recife, até às torres gêmeas onde mora uma patroa branca, loira, primeira dama de uma cidade qualquer na qual ela não mora, que leva o pomposo sobrenome de Corte Real, que teve pela imprensa seu nome e imagem preservada, e que com R$20 mil reais pagou pelo corpo morto de Miguel e teve sua liberdade e direito de ir para uma das Torres Gêmeas em Recife para terminar sua manicure; R$20 mil reais, agora sabemos o valor de um corpo negro morto caído do 9º andar.
Aqui fica evidente um enredo trágico de como a sociedade brasileira entende a população negra, incluindo os anti-racistas pseudo estadunidenses, que só conseguiram por uns dias falar sobre racismo, e nem falo dos extremistas, falo do cara e da mulher instruídos, bons cidadãos que votaram em Haddad para presidente, que importam discursos raciais, que não viram o racismo estrutural nesse enredo macabro que continua, com uma criança de 5 anos indo para o trabalho da mãe no meio de uma pandemia, porque não tinha com quem ficar, a mãe que teve que se submeter às demandas de uma patroa cansada de ficar em casa, e que num rompante de benevolência fala, pode trazer o menino com você, afinal ela tinha manicure, não poderia borrar suas unhas… e que não conseguia descer de sua torre para que seu pet desse uma cagada aristocrática pelos jardins das Torres Gêmeas… e essa mesma sociedade que mostrou algum tipo de reação com a morte de Floyd penalizou a mãe por ter levado seu filho de 5 anos para o trabalho e que portanto a culpa seria dela, não viram o ato como mais um ato de violência contra um corpo negro, viram apenas uma mãe descuidada, irresponsável, muitos desses comentários aliás feito por mulheres.
E assim vamos levando, sufocados por joelhos ideológico, estrutural, conceitual, estético e míope, vemos pessoas pretas seguidamente sufocadas, vocês negam nossa existência e dor, negam nossa cultura, negam nossa vida, negam a vida, e nesse estado de negação vamos sufocando a cada dia um pouco mais, e segue difícil respirar, com as mortes físicas como visto nas estatísticas, e a morte social, seguimos tentando respirar e nos manter aqui para o desespero de vocês, seguimos falando sobre racismo estrutural, sobre racismo recreativo, falando que sim vocês têm privilégios e que por vezes seus privilégios nos encerram em presídios lotados, em hospitais sem estrutura, em casas de palafita, sem saneamento básico, comida, conforto para coisas básicas, não conseguindo dormir por que temos que pensar em como matar o dragão de amanhã… amanhã estaremos tentando respirar em sinais de trânsito da cidade, vamos continuar tentando respirar, abrindo seus portões, subindo silenciosos em elevadores de serviço, limpando seu chão, colhendo seu lixo, cozinhando sua comida, estaremos tentando respirar no rosto e corpo da matriarca vendendo pano de prato nas ruas de Fortaleza, caquética, esquálida pela fome, com olhos fundos, ou sentados nas ruas sobre colchões sujos com nossas crianças o futuro morto desse país, e também vamos tentando respirar te afrontando, dizendo que sim você é racista, ocupando espaços mesmo quando no auge da tua hipocrisia tu sorri para mim.
Caro amigo branco, eu continuarei a tentar respirar, mesmo que às vezes não tenha sucesso, encarando todos os dias a hipocrisia branca, em não debater comigo e com os pretos desses país, eu vou continuar tentando respirar, mesmo quando um jovem preto tem no seu pescoço o joelho de um PM, e isso não ser relevante para o debate que você diz ser anti racista, eu continuarei tentando mesmo quando você me perguntar se …ele não era envolvido?… Mesmo quando você me matar eu continuarei tentando respirar, porque a nossa ancestralidade é isso, continuarei respirando nas minhas pessoas, nos que vêm depois de mim e criarei condições para que a respiração deles seja mais longa, e não cessarei de respirar, mesmo que o seu mundo acabe.


Kiko Alves, Narrativas do Fim do Mundo
Fortaleza – 25 de Junho de 2020

Foto: Kiko Alves | Título: Buscando Sonhos.

Kiko Alves

Coletivo Afrofuture

Jornalista, Pesquisador das questões raciais e condição social das periferias do brasil. Realizador, Professor e Produtor Audiovisual. Especialista em Antropologia da Imagem – UFC.  Mestrando em Sociologia – Pós – UECE ( CE) –  linhas de pesquisa: Cultura, Diferença e Desigualdade. Escreve para o blog às quintas-feiras, em “Qual é o seu Lugar de fala?”

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