Dois nascimentos

Por Mari Trotta.

Minha filha nasceu dia 24 de junho de 2015 pela primeira vez. Dia de São João, tarde fria. Eu não soube do seu nascimento.

Senti que ela nasceu, escrevi no mesmo dia no meu diário de gravidez invisível, aonde eu registrava as sensações da espera, enquanto aguardava na fila da adoção, um devaneio: “Não sei se meu bebê já nasceu. Com os olhos fechados vi uma pequena passarinha. É você, Alice? Meu corpo piou.”

Começou uma nova história paralela enquanto eu piava.

Era uma vez uma menina que teve dois nascimentos. Um nascimento, desses de barriga, que todo mundo tem. Outro, que só as pessoas que precisam fazer novos nascimentos têm. Quando se nasce duas vezes, duplica-se a existência.

No primeiro nascimento da menina, o de todo mundo, espera-se que a criança, recém-nascida, chore. Chorar é estar viva e saudável. Depois de chorar, recebe um nome para ser indivíduo, alguém diferente de qualquer outra pessoa, mesmo tendo elas todas o primeiro nascimento.

Não dá para não nascer, nascer é o primeiro ato de chegar no mundo, de colocar o corpo para fora da mãe e ser único. Assim foi: a menina nasceu, chorou, recebeu um nome e tornou-se única. 

O segundo nascimento é bem diferente, há quem não tenha. Nascer de novo pode ser uma escolha ou não. Nascer de novo é sempre um grande acontecimento, um alívio, uma revolução. Uma determinante metáfora. Quando se nasce de novo não se chora, se ri. Pensando melhor, às vezes se chora, de tamanha emoção, um chorar rindo.

Foi com um sorriso de olho e uma leve extensão na boca, esticando os lábios, que minha filha nasceu pela segunda vez. No segundo nascimento, eu estava lá: gestei, pari e dei a ela um nome. Quase o mesmo nome do primeiro nascimento.

Quando engravidei sem barriga, tudo que estava a minha volta também engravidou: as palavras, os poemas, a lua, os sonhos, a dança e as pessoas ao meu redor. Todo mundo grávido!!! Esperando comigo. Comecei com os poemas e devaneios da espera ansiosa “Será Alice ou Valentim?”, sobre o tempo que não passava, sobre a vontade de estar junto. Preparando quartinho, colando nuvens na parede. “Quando a barriga é no coração, a gestação não se conta por semanas. Contam-se os batimentos cardíacos. Os meus andam a mil por hora. Nos meus batimentos, a pressa. Passo o dia a gerar o coração. Pulso. Pulsa. Palpita. Devaneios do coração.”

Minha gestação começou no coração, surgiu um embrião na cavidade interna, chegou pelas artérias e foi crescendo até não ter mais espaço, subiu para a cabeça, ativou neurônios e tomou o corpo todo e depois de uma grande explosão: duplicou minha existência. Nasci de novo junto com ela no dia 19 de dezembro de 2015. Tatuei nosso nascimento.

Com imensa alegria anunciei para o mundo o nascimento da minha filha Alice! Pisei em São Paulo, meu irmão me buscou, fomos pegar meu pai no metrô, era dia 18 de dezembro, sexta-feira à noite, quando: BUM!!! A bolsa estourou!!! Me ligaram da Vara da Infância. Peguei o primeiro voo de volta para o Rio. Foram 14 horas de contrações no corpo… Fui para o abrigo no dia 19 de manhã, sem dormir nada, muito ansiosa para conhecer a Alice. Vesti minha melhor roupa. Olhamos uma para a outra e profundamente nos reconhecemos. A minha pequena, inclusive, já se chamava mesmo Alice!!! E era a cara do pai!

Dia em que a Alice foi para casa (23/12/2015)

Fotografia Anderson Lins (o pai)

Quando se fala de adoção utilizam a expressão “mãe de coração”, ela não me representa. Sou mãe de corpo inteiro. Acordo e vou dormir mãe. Embora eu, certamente, não me chamo mãe. Não fui rebatizada. Mariana é mãe, professora, coreógrafa, amante do samba, militante. As enumerações são infindas. Gosto de me ver plural. As Marianas que me habitam conversam muito com as Alices sobre ter coragem de nascer sempre que for preciso. Mas muito melhor é nascer de mãos dadas.

Fotografia Anderson Lins (o pai)

No país das maravilhas a gente fica minúsculo, depois cresce. Descobre as sensações de sermos tantos e até antagônicos. As duas Alices, que tanto amo, conversam, brincam, choram, comemoram seus dois aniversários. E lá estou eu em todas as celebrações das suas existências, piando e preparando a festa.

Mariana Trotta é coreógrafa, bailarina, videomaker e escritora. Autora do livro “O discurso da Dança: uma perspectiva semiótica” (Editora CRV). Mãe da Alice. Escreve às segundas-feiras para o blog Lugar ArteVistas no Lugar a mãe que sou.

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