Direito de existir

Por Indyra Gonçalves.

Na bula social existe uma lista imensa de nãos recomendados. Existir como você se reconhece, ser como deseja, amar a quem te faz feliz, usar o que te deixa livre são alguns dos itens não recomendados da sociedade que idolatra um discurso de ódio, de medo, que marginaliza a existência de milhares de pessoas por causa da cor da pele, orientação sexual, religião, por ser mulher, dentre outros diversos lugares de existência. Nas regras sociais a aparência define a qual lugar você pertence, define se você tem um nome ou se é apenas mais um número na lista de mais um. As regras sociais dizem quem é você pelo tamanho da sua conta bancária, quanto maior, melhor. Dinheiro nos torna iguais da maneira mais hipócrita que se pode existir.

Não recomendados – Não recomendado l Clipe oficial:

Sob esta sensação constante de incômodo e ainda com o corpo e a alma imersos nas reflexões propostas no texto da última sexta, Carne viva, sigo na exposição e no questionamento de feridas, traços perversos e desiguais que seguem abertos e latentes nesse nosso contexto social padronizado e que vive num processo constante de selecionar as pessoas.

No último domingo, 17, foi celebrado o dia Internacional da Luta contra a Homofobia, também conhecida como LGBTFOBIA. A data marca, esse ano, 30 anos que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID), considerada por muitos anos como doença mental. No Brasil, a conquista aconteceu em 1985, cinco anos antes da data registrada pela OMS.

A homossexualidade, especialmente na Idade Média da cultura Ocidental, era vista como um pecado grave. Qualquer semelhança com os dias atuais é mera coincidência (contém doses de ironia). Não demorou muito e a relação entre duas pessoas do mesmo sexo passou a ser punida com as pessoas sendo queimadas nas fogueiras das inquisições. Logo depois se transformou em crime. Entre 1553 e 1967, no Reino Unido, por exemplo, a homossexualidade foi criminalizada. A perseguição às pessoas seguiu ainda por muitos anos, visto que o hábito de considerar crime permanecia na formação cultural da maioria da sociedade. O passo seguinte na história da homossexualidade foi quando a OMS a considerou como doença, retirada da CID em 1990. Hoje, trinta anos após esse importante avanço ainda há uma parte da população que busca “curar” pessoas LGBTQI+. Não há cura para o que não é doença.

Imagem I

Banco de imagem

A jovem e importante conquista para a comunidade LGBTQI+, assim como para uma sociedade que deseja se estruturar na base do respeito e da igualdade pelo direito de existir do outro, é celebrada nos mais diversos âmbitos sociais e políticos. É um momento de denúncia sobre os trágicos números que mostram a vida de milhares de pessoas sendo tiradas pela intolerância e cobrança do Estado para a ampliação de políticas de proteção, sociais e econômica das pessoas LGBTQI+. A vida é um direito universal, que deve ser garantido a qualquer pessoa. Esse direito está, inclusive, seguro na Constituição Federal de 1988, no artigo 5º, caput, define que todos os brasileiros e os estrangeiros que residam no Brasil tem o direito à vida.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade[…]. (: BRASIL, 1988)

Imagem II

Banco de imagem

Ao contrário do que está garantido na lei, o Brasil é um país homofóbico e que também está no topo dos países que mais mata LBGTQI+ no mundo. Num relatório apresentado em 17 de maio do ano passado, pelo Grupo Gay da Bahia, foi constatado que, em média, uma pessoa LBGTQI+ morreu a cada 23 horas. Totalizando 141 mortes de janeiro a 15 de maio de 2019, desses, 126 homicídios e 15 suicídios. O estado com os piores números foi São Paulo, com 22 mortes. Em seguida veio a Bahia (14), Pará (11) e Rio de Janeiro (9).

O Brasil é um país perigoso para LBGTQI+. É perigoso também para mulheres, negros, indígenas, para crianças, para pessoas. A intolerância, o desrespeito, o ódio estão encarnados numa parte da sociedade brasileira que se veste de falso moralismo dos mais diversos e justifica a violência que reveste o preconceito que a alimenta. Eles humilham. Desmoralizam. Buscam em suas crenças em Deus justificativa para violentar. O Brasil não sabe cuidar dos seus filhos. Ele é um pai ausente. Jovem demais para assumir a responsabilidade de criar educar, dar amor, ensinar sobre respeito aquele por quem também é responsável. O Brasil é um homem abusivo e machista: a melhor pessoa no espaço social/midiático, mas na verdade é um violentador que desrespeita quem diz amar nos espaços de intimidade. Vivemos em dias brancos, héteros e com o poder concentrado em poucas mãos. É preciso estarmos unidos. Resistir. Como bem canta Gal Costa em Divino Maravilhoso “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”.

Divino Maravilhoso_Gal Costa (Gal Costa 1969):

Os efeitos que esse lugar de opressão traz às vidas das pessoas é de medo e também de resistência. Esses lugares são conhecidos de Jão, artista visual, bicha e “bem afeminadinha” como se descreve ao falar do seu sentimento de existência como homem gay no Brasil. “O medo está sempre ao nosso lado, principalmente, porque o acesso à vida e ao afeto sempre foi algo proibido pra gente. Já que sempre foi um problema pro outro. Então, a gente sempre teve que pensar nas nossas maneiras de agir e de viver”, lembra.

Jão traz ainda amargas lembranças da violência sofrida em seu corpo devido estar usando roupas que socialmente são colocadas para mulheres. “Lembro que há alguns anos eu fui agredido na rua pelo simples fato de estar usando trajes de cunho feminino. Porque eu, como uma bicha afeminada, eu não podia ter esses trejeitos. Eu sempre tinha que me comportar da maneira como a sociedade esperava e não da maneira que eu queria me comportar. Isso fez com que eu tivesse alguns traumas e crescesse com esses traumas. Então, eu sempre pensei duas vezes antes de fazer as coisas que eu quisesse fazer”, desabafa.

Confira o papo completo com Jão:

A homofobia mata. O ódio também. Há morte por todos os lados. Uma sociedade que não atua pelo respeito, pela igualdade, pelo direito de escolha e de expressão do desejo do outro está fadada a falhar e enterrar pessoas, cada vez mais. Todas as vidas importam. Todas as vidas e existências precisam ser respeitadas. Haverá luta e resistência. Os silêncios serão quebrados. Jão é resistência. Ele resiste através de sua voz, da forma como se veste, sendo afeminada, com arte. Jão resiste no seu projeto Coisas de viado – Cartografia de corpos que resistem. No projeto, Jão traz ilustrações e pinturas que retratam os traumas vividos por ele e que também faz parte da vida de milhares de LGBTQI+ e, infelizmente, resulta na morte das pessoas diariamente. “Eu como homem gay sigo nessa luta e nessa resistência através da minha existência. É mais como um esporro, mais um grito de que as pessoas parem de nos matar. Porque essas palavras, elas têm poder”, reforça Jão.

Imagem III

Coisas de viado – Cartografia de corpos que resistem – João

“Eu vejo a vida e o desejo de viver como o maior símbolo de resistência pra gente que é LGBTQI+. Porque nós estamos sempre nas margens. Então, quanto mais a gente ocupar mais espaços, quanto mais a gente colocar a nossa cara a tapa, mais a gente se torna uma resistência. E eu, como sou artista, eu tento transpor isso nos meus trabalhos também. Porque eu acredito que quanto mais bicha, quanto mais LGBTQI+ tiver trabalhos, tiver expondo esses trabalhos, vai ser um trabalho político. Porque a nossa existência é política”, enfatiza.

Imagem IV

Coisas de viado – Cartografia de corpos que resistem – João

 

Imagem V

Coisas de viado – Cartografia de corpos que resistem – João

 O sentimento de Jão é partilhado pelo artista Diego Moraes, que faz parte do grupo Não recomendados ao lado de Caio Prado e Daniel Chaudon. Em dezembro de 2016, a revista Lugar Artevistas conversou com Diego em São Paulo, sobre esse lugar de homem gay. Muito além da vida adulta, o papo trouxe um desabafo de Diego sobre o ódio recebido desde a infância, também vivido por Jão, quando já se via como “uma criança viada”, lembra. Não apenas o preconceito pela sua orientação sexual, mas Diego lembra ainda que essa violência era agravada por causa do racismo que sofreu.

“Eu sempre fui um cara que, desde criança, sempre sofreu muito preconceito a respeito de ser uma criança viada, a respeito de ter black power. Ser um dos primeiros black power numa cidade absolutamente provinciana como Piracicaba. E, supostamente, usar roupas diferentes, involuntariamente e as pessoas gritarem xingamentos gratuitos. As pessoas baixam os vidros dos carros e gritam: viado! Vai cortar esse cabelo!”, lembra Diego.

O artista afirma ainda que esta é uma violência que o acompanha por toda a sua vida “eu vivo assim até hoje. A minha vida inteira foi assim”. A homofobia, muito além da disseminação de ódio, é também uma manifestação arbitrária que qualifica o outro como contrário, inferior ou anormal. Confira o papo completo com Diego Moraes na Lugar Artevistas:

Diego Moraes_Beco do Batman_Lugar Artevistas:

O papo sobre existência e resistência da comunidade LBTQI+ segue na próxima sexta-feira, 29. Trarei outras histórias, lutas e lugares de fala reforçando a importante conquista do 17 de maio, dia Internacional da Luta contra a LGBTFOBIA. Além de dicas de filmes, livros e projetos urbanos que reforçam a luta LGBTQI+. Fiquem em casa. Deixo aqui o meu muito obrigada à Marcelina Acácio, Júnior Barreira e Jão pela colaboração na construção do vídeo com o depoimento de Jão. Cuidem de vocês, dos seus e dos outros. Sejamos resistência nesses dias brancos.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s