Mariana

Por Saulo Lemos.

Desde quando comecei a dar aulas, conversava muito com a Mariana sobre esse
trabalho. Estava mais empolgado que em quase todos os momentos da vida antes e depois. Contava, e ela já sabia, que lia muitíssimo, obcecado praticamente, trocava horas de sono pelos livros, não conseguia evitar, assim como não tinha jeito de evitar a chateação por não conseguir levar 30 ou 40% do que lia para as salas de aula, já que nem os hábitos dos alunos, nem o próprio modelo de escola tão comum nessa cidade ou país dava conta disso. Mas os papos com a Mariana se tornavam parte do prazer de ensinar (ou acreditar que estava ensinando) e discutir isso. Um dia, eu falava com ela sobre como isso que se chama literatura, na aparente homogeneidade prometida pela palavra, era um campo de guerra, de desentendimentos e de necessidade de posicionamentos.
Tantos livros publicados até hoje por tanta gente no mundo e na história. Coisas suficientes para agradar gostos bem variados. As escolhas habituais de parte dos estudiosos daquele campo de guerra lá (a literatura) privilegiam alguns jeitos de dizer e pensar. Escritas que evitar ser espelho de preconceitos, da preguiça existencial, da tentação cotidiana de anestesia. Que não levem a sério quando alguém dá a caminhos alheios o nome de “verdade” (embora a gente, na fragilidade nossa de cada dia, insista em concordar tantas vezes que valeria de algo o caminho que outras pessoas ou entidades improváveis apontam). O romantismo nas artes, que tremeu a terra nas mentes do século XIX, com seus hábitos, práticas, falas e sentimentos, inventou como bem comum a vontade de ter uma voz que ninguém mais tenha. Todos esses fatos e prosas eram falas da Mariana misturadas com as minhas. De conversas anteriores e daquele dia também. Num certo instante, ela puxou a frase e não devolveu, não precisava, eu escutava, adorava escutá-la. Ela dizia: a literatura moderna, mais para o fim do século XIX e varando o século XX adentro, pega a fé na originalidade do eu romântico (no fundo, uma ilusão, mesmo que uma ilusão gostosa), e faz dela uma busca heroica e maníaca por maneiras individuais de dizer literatura. Uma literatura que se alimentava dos modos cotidianos de escrever e falar, que bagunçava a palavra até colher jeitos estranhos, diferentes, arejados, intensos, vitais, de falar e pensar: Virginia Woolf, Marcel Proust, Franz Kafka, James Joyce, Vladmir Maiakowski, Oswald de Andrade. Etc.! Um batalhão de escritas que reavaliava o mundo e seus mundos, a linguagem e seus ecos, de jeitos inéditos, trazendo para a frente do palco, mais ainda que o romantismo, pobres, mulheres, índios, negros, desajustados e tanta gente mais, aliás sem o figurino de preconceitos cientificoides, racistas, misóginos, aburguesados e eurocêntricos da segunda metade do século XIX. A literatura moderna do começo do século XX foi fazendo muitos acertos de contas com quem não costumava ter voz nem na sociedade, nem na arte, nem na ciência, nem na filosofia, nem em porra de lugar nenhum.
O embaraçoso aí é que esses acertos de contas ainda eram um gesto de não dar voz àqueles povos todos, mesmo que involuntariamente. Os diversos modernismos, as vanguardas artísticas históricas, sem dúvida mais abertas à mulher e a outros costumeiros excluídos das artes até então, ainda eram manifestações mobilizadas a partir de condições econômicas favoráveis. Concordo, Saulo, com quem disser que a desigualdade econômica, que só piorou ao longo do século XX, não invalida a energia pulsante das obras daquele tempo, mas não deixo de sentir, diante disso, um mal-estar.  A literatura que falava em sair dos casulos de prosperidade era feita dentro deles e falava de mundos dos quais não participava. Tem algo de melancólico nisso. E no final das contas esse panorama se associou e muito a todo o aspecto monumental, midiático e comercial que tão frequentemente acaba existindo mesmo em torno daquelas obras que parecem mais inconformistas, iconoclastas, transgressoras, anticomerciais.
Por muito tempo foi inimaginável que as gentes das margens pusessem em ato uma voz literária. Ultimamente isso tem mudado. As mulheres, os pobres, os outros do defasadíssimo olhar branco-hétero-burguês-liberal-europeoide, têm escrito suas escritas, com todas as contribuições do que a experiência traz ou procura. Em vez de terem porta-vozes, decidiram ter voz, o que por si já é muito foda. Apesar de que é difícil ter voz própria nesse mundo que tem donos escrotos e escravos de montão, muita escritora e escritor tão tentando isso. Daí que vai ficando disponível a eles, talvez, um poder de decisão sobre a permanência do que você e eu gostamos na literatura. Talvez essa inquietação por falar e pensar diferente do comum, do conveniente, talvez o direito ou mesmo a vontade de divergir, de não precisar ser parecido, percam intensidade. O mercado e as grandes mídias comerciais seduzem muito. Talvez essa gente que começa a falar e ganha gosto nisso não queira mais produzir pensamento e/ou linguagem deslocadas, não queiram ir além de contar suas dores e suas exigências de um jeito conciso, o que não é recriminável, de modo nenhum, dizia. Por exemplo, escrever um livro para denunciar maus-tratos de um macho escroto, e dizerem: pronto, eis a literatura, sem que haja necessariamente preocupação em levar a linguagem ou a fronteira entre o eu e o outro ao limite. Cada grupo vai dizer o que é literatura, mesmo que isso esteja longe das minhas escolhas ou das suas. Como alguém poderia legislar que a literatura deve ser assim ou assado? Ela será o que fizerem dela. Quanto menos normativismos, melhor.
O que não significa, continuava Mariana, que eu preciso gostar do que não quiser.
Me interessa uma literatura produzida por vozes dissonantes, mas que também, como o pessoal das modernidades sucessivas ao longo do século XX e já no XXI, não recuse bagunçar a linguagem e as formas de ser corpo e mente. Que não recuse os impasses, os problemas, as crises, os sentimentos extremos, as perturbações. Que consiga atravessá- los, experimentá-los. Que veja ou sinta a beleza que pode haver na nessa falta de resposta chamada “vida que segue”. Gosto muito da Carolina Maria de Jesus, tanto porque ela é um exemplo admirável, empolgante, como porque, na escrita dela, ela tenta às vezes fabricar um tom formal que depois perde, talvez involuntariamente, e é aí que esse texto ganha força para dar a pensar o humano e os poderes loucos de suas palavras e gestos. Carolina bota a si mesma e aos outros pelo avesso, diz aquilo que talvez ela não gostaria de dizer, mas que a torna tão complexa e viva; a mesma coisa com seus vizinhos de favela, que ela às vezes quer descrever como incômodos, mas que são, por isso mesmo, tão atraentes, convidativos. Enfim, o que vai aí são minhas fascinações de leitora, porque da vida fodida na favela, por exemplo, eu não sei nada. Livro pode ser bom, quem sabe, para que a gente saia dele e comece a reclamar mais, a gritar alto, a jogar pedra na cara de pau do governo, da iniciativa privada, do caralho de asa. Bora ser black blocs!
Adorava o jeito de Mariana. A gente se conhecia há alguns anos. Durante uma época, passávamos boa parte do nosso tempo livro juntos. Era terapêutico para os dois.
Éramos uma comunidade, uma cidade. Minicidade, que seja. Espíritos livres (já que, por exemplo, não levávamos nem Nietzsche, nem ninguém ao pé da letra). Mariana usava óculos, tinha o cabelo bem enrolado, comprido, e era obesa. Rosto lindo, conforme a gramática normativa da beleza em uso nessa nossa sociedadezinha. Olhava para todos os lados o tempo todo, falava de todos os assuntos que conseguia. Às vezes, se calava e ficava longos minutos distraída, olhando para lugar nenhum ou com um contorno de tristeza no olhar apontado para baixo, rosto levemente contraído. Há alguns anos, antes da obesidade, namorara uma garota que ainda amava. Uma mulher bonita, esperta, audaz, dizia. Parece que a via como alguém infalível, absurdamente admirável, a tal amada conseguia lhe injetar essa imagem, mas não a amava, ao contrário de Mariana, em que o sentimento era extremo, ignição de uma dependência sofrida, constrangedora.
Ela teve que se livrar da namorada manipuladora, de algum jeito que não chegou a comentar, e assim ia levando a vida. Nossa amizade não era à maneira inglesa, sem confidências, como entre Jorge Luis Borges e Bioy Casares. Ela me falava às vezes de sua princesa mofada, e eu, de que até os 30 não me relacionara com ninguém, já que nem saía de casa (um dia eu conto como foi isso). Nos cinco anos seguintes, tive só desencontros: só amava quem não me amava ou quando não me amavam. Depois, não tivera praticamente mais nada. A última garota que amei, Tália, hoje namorava outro, e eu ainda pensava nela todo dia, como se isso fosse uma previsão favorável do futuro. E Mariana com isso? Ela ria, debochava, mas de um jeito que não conseguia irritar ou chatear mais: dê seu jeito, safado. Te vira! Eu ria também. As gargalhadas eram um refrão das conversas.
O humor de Mariana combinava com o meu. Irônico, debochado, sarcástico. Os dois antifofos. Humor do tipo que, se outros escutassem, diriam: “ai, credo! Que horror!”, o que só o tornava mais engraçado para nós. Nada de zombar da fragilidade alheia, era mais uma falta de solenidade com a vida, com a morte, com a alegria, com tudo o que era dor e gozo. Era a melhor definição de leveza que eu podia conceber, mas que precisava, que nem ela dizia, de couro grosso. Quando eu reclamava de algo, ela respondia, com um ar de deboche disfarçado que eu adorava: se preocupa não, quando morrer, passa. Não éramos muito o tipo de pessoas que encontrava semelhantes onde chegasse. Sabíamos que éramos fora da receita, e nisso tinha um caroço de incômodo: cadê mais gente que nem nós? Dois desempregados, ou vivendo de empregos desvalorizados, como professor temporário ou auxiliar de biblioteca. Não que fôssemos únicos, originais: a turma dos excluídos de qualquer tipo é a maior panela que existe.
Ela falava muitos palavrões. Soavam elegantes em sua boca. Às vezes sumia por dias, não atendia a ligações, mensagens. E reaparecia, o mesmo jeito ágil, a mesma dureza gaiata, os mesmos farelos de tristeza na imagem que dava de si. Eu a chamava às vezes de minha mestra ou minha mentora, principalmente quando ela parecia estar pensando em coisas que a roubavam do passo. A réplica me fazia bem, e acho que a ela também: deixe de ser besta, mané. Ou: crie jeito de gente, seu café-com-leite.
A anarquia podia reinar, tomar conta de tudo, só porque existia por algumas horas num recinto ou durante um passeio a pé por algum trecho transitável da cidade, pelo bairro de terrenos baldios. Mariana precisava caminhar, e eu temia que fosse para longe sem voltar. Parece que os medos preveem o futuro. Implacável, sempre com uma resposta engraçada, áspera e suave no bolso da fala, Mariana parecia ter um tipo de fragilidade que transparecia no cuidado ao caminhar, no jeito de olhar a rua antes de botar o pé além da porta. Ela precisava ir. Éramos uma comunidade, um povo, um povo mínimo. As melhores coisas às vezes são mínimas. Quem precisa ir, acaba indo, e isso quer dizer que consegue ousar, virar o jogo, botar pra quebrar, chutar o balde, meter o louco. Eu tinha uma fantasia eventual ou consolatória de ir embora num navio, fazer qualquer trabalho e usar as lembranças das aulinhas do curso de inglês para se fazer útil a bordo. Pois a espertinha furtou minha ideia e lá foi ela. Na despedida, a gente foi prum bar, tomamos todas, cantamos músicas de dor de cotovelo. Quem disse que a gente não se dava o direito sublime de ser clichê? Um dia ela não estava mais à vista. Estava agora em todo lugar? Mariana é quem escreve esse texto, ou uma voz anônima que, enquanto escreve, toma corpo de pessoa, de multidão. Eu sou personagem dela e o meu nome de autorzinho é uma ficção que não cabe no nome de Mariana. Eu sou um tipo um heterônimo dela, que me disse por fim: tu tá vivo, acha uma rota, que o rumo cego também é teu. Mariana marcou um trecho disso que posso chamar de juventude, isso que está acabando e dando lugar a outra coisa que precisa vir.

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