Carnal

Como se eu fosse deus, eu me criei a mim mesma, com o poder da imaginação.

Levei um tempo reconhecendo o corpo antes do primeiro toque.

“Sexo é na cabeça e é solitário, boy”.

Jamais esqueci Uma Flor de Dama, um texto do Caio Fernando Abreu, interpretado por Silvero Pereira, num monólogo brutal.

Mas mesmo deus, vestido de poder e glória, deseja beber o leite que escorre da carne.

Tudo isso é simples e natural.

É a vida acontecendo, escorrendo pelas pernas.

É com presença que se goza. E só se pode fazê-lo estando viva.

Faço do meu gozo um ato de resistência. Estou viva, logo gozo.

Me investigo, exercitando os sentidos. Toco com a ponta dos dedos o clitóris, sinto o gosto, o odor. Sinto, e o sentir é de quem está viva.

Há muitos dias isolada, o desejo cresce, pulsa entre os dedos.

Normal.

Sou carnal. Tenho fome.

 

Coisas de Tempo e Vento por Marcelina Acácio.

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