Heresia…

Por Natália Coehl.

O contexto histórico da palavra título deste texto se faz como algo tenebroso e que é melhor ser evitado. As marcas impregnadas no corpo, a partir de crenças fundamentalistas e ortodoxas, nos assombram até hoje, gerando bloqueios de possíveis novos movimentos. Porém, quero aqui trazer reflexão diante deste contexto histórico e buscar apresentar um pensamento perante o nosso momento atual.

Nossa civilização hoje traz o conceito de heresia da inquisição europeia, onde os cristãos caçaram e mataram qualquer cidadão que praticasse rituais e crenças (acreditando-se serem diabólicas), que não fossem as realizadas pela Igreja Católica. Muitas pessoas foram mortas, em sua maioria mulheres, pois eram tidas como bruxas. A religião e o estado se uniram para controlar a população, pois precisavam que os camponeses operassem em outro sistema, deixando o feudalismo e se encaminhando para o capitalismo. Silvia Federici, em seu livro Calibã e a Bruxa, explica muito bem como essa mudança foi obrigada e como tudo isso afetou as Américas. Basicamente, esses dois poderes precisavam de mão de obra para construir seu novo império sistêmico, para isso instituiu o pecado e a culpa como estratégia de controle dos corpos, designando a mulher como geradora dos futuros proletariados. A igreja então empregava assim suas convicções a partir de sua leitura patriarcal da Bíblia. Nós todos sabemos a quantidade de livros que foram queimados pela inquisição e os que ficaram foram os salvos pelos seus ateadores de fogo, restando apenas os que lhes eram convenientes, e talvez alguns a mais, escondidos em casas de alguns pagãos, que conseguiram resistir à inquisição, preservando assim outras filosofias antigas.

Para os gregos, heresia vem da palavra hairesis, que significa escolha, preferência, partido (religioso) e seita. Diante dessa reflexão, quem escolhesse filosofias diferentes da cultura local era considerado um herege. Existem vários registros de comunidades que foram dizimadas na inquisição, por realizarem rituais de adoração à Cristo de forma diferente da Igreja Católica. Esses rituais eram horizontais, onde mulheres e homens assumiam a guiança das seitas (Silvia Federici). Podemos, também, trazer para essa reflexão casos que aconteceram aqui no Brasil, como Canudos e a figura de Antônio Conselheiro (Bahia), e Caldeirão do Beato José Lourenço (Juazeiro do Norte-CE). Todas essas organizações sociais viviam de forma independente do governo e por isso foram atacadas por ele. O que doía (dói) para o estado e a igreja era a existência de pessoas, fora eles, com o poder de capturar muitas mentes, e que agiam em prol de sua comunidade, se organizando de forma DIFERENTE e INDEPENDENTE das operadas pelas ordens hegemônicas.

Então, se a mente for geradora de corpo e consequentemente de movimento deste: podemos supor – se, “digamos”, que nossas mentes foram capturadas pelo sistema hegemônico, é claro – que estamos produzindo corpo e movimento que não são nossos? Se sim, diante dessa louca esquizofrenia, posso perguntar: qual é a SUA heresia? Qual a sua filosofia? Quais são os seus valores?

Pergunto-me constantemente, como seria uma vida onde as hierarquias não existissem e as trocas pudessem ser realizadas de diferentes formas, em acordo com ambas as partes, sem sentimento de posse. Uma utopia que o filme “La Belle Verte” me fez sonhar.

Talvez estejamos parados hoje por cometer excessos, como diz Krenak, que a Mãe Terra nos deu um tapa na cara e nos colocou de castigo, para pensarmos sobre os nossos atos em existência. E disse ainda, que só iríamos poder sair de casa, vivos, se tivéssemos aprendido a lição.

Acima te questiono qual é a tua heresia. Dentro dessas questões, digo que é importante lembrar que existe a mente individual e a coletiva, e quando entramos em sintonia criamos uma energia fortíssima, por meio dos nossos hábitos, e a partir disso conseguimos a força da materialização. Parece magia? E é, pois magia é prática, é movimento. É verdade que fé move montanhas. Mas que montanhas são essas que estamos movendo? E se nos perguntarmos, o que pode acontecer ao movermos essa montanha? Até quando a fé cega irá nos mobilizar energia? Diante de tempos como esse, onde o governo tem desestabilizado mais ainda nossas estruturas diante da pandemia, só consigo pensar que essa montanha foi movida por uma grande potência coletiva gerando estragos ainda maiores neste momento, do que se tivéssemos uma mente coletiva que conseguisse dialogar entre suas diferenças. Porém a realidade é outra e estamos aqui recebemos o que criamos com a nossa mente coletiva.

Mas e qual é a estratégia agora? O que podemos fazer para não termos a mente capturada? O que devemos fazer para manter uma mente forte, porém herege?

Talvez seja entender que a unidade é parte do todo. Diante disso penso, em como vamos pular os muros tão bem construídos dos outros, ou como vamos receber os que pularam o nosso muro? Diante de uma sociedade que construiu sua individualidade como uma fortaleza, e a proteção dela é dada com guerra; diante de uma sociedade que construiu sua força invadido territórios alheios e dizimando tudo que lá existia, escravizando o que sobrava; pensemos, como conhecer, como respeitar, como dialogar… Cautela… Quem sabe assim conseguiremos nos conectar em rede, agindo de forma cíclica com a natureza e suas leis maiores, sem geração de resíduos e acúmulos amontoados, os quais a sociedade capitalista nos deu como resultado. Importante lembrar, que muitas dessas sociedades invadidas e dizimadas, poderiam estar tranquilas vivendo suas vidas em acordo com a natureza. Talvez possamos aprender com os que se mantém em resistência…

O jogo virou?

FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa. São Paulo, SP. Editora Elefante. 2017.

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