Violência que isola

Por Indyra Gonçalves

(Recomendo fazer a leitura desse texto ouvindo o álbum Mulher do fim do mundo, da Elza Soares)

 Começo a escrita desta semana pedindo desculpa pela ausência na última sexta-feira. O isolamento tem sido ainda mais sobrecarregado de tarefas, processos de readaptações, fortalecimento de rede de apoio e uma infinidade de ordem e desordem para esse momento tão novo e incerto. Tenho tentado também usar esses dias como aprendizado.

Nesses dias de contato extremo comigo a vida tem sido de muita reflexão e de descobertas. Estou tentando, muito além da presença da energia pesada provocada pelo vírus, olhar para dentro, mesmo que esse seja um lugar complicado e que exija paciência. Num primeiro momento há muitas surpresas entre o que já fomos e o que somos. Em outro momento surge também a questão de para onde iremos e quais meios serão os mais saudáveis para fazê-lo. Os medos e a insegurança estão em alta, mas sempre sob a perspectiva de que é preciso desacelerar. Há exaustão porque o corpo segue em movimento e a mente também. Mas sigo organizando e refazendo a caminhada para o novo momento. Estou aprendendo.

Entre as minhas leituras, ativação da mente e reflexões acompanhei um questionamento constante de outras mulheres, além de artigos e matérias sobre o isolamento social vivido por milhares de mulheres que estão em relacionamentos abusivos. A recomendação mais apropriada para que possamos enfrentar com menores danos possíveis à vida causados pela Covid-19 é o isolamento. Inclusive, é um momento importante para o reencontro conosco e com as relações de afeto e amor com quem amamos. Por outro lado, muitas mulheres que sofrem, bem antes de sabermos da existência do vírus, com a violência doméstica estão em casa com os seus agressores. Os dias que já estão difíceis porque não podemos sair e socializar, imaginem para que já sofre com esse isolamento muito antes e ainda sob ameaça à vida.

O isolamento social que mulheres com parceiros abusivos sofrem está ligado diretamente ao processo de enfraquecimento das redes de apoio delas por eles. As vítimas são impedidas ao longo do convívio com a outra pessoa de manter relações afetivas e sociais com familiares e amigos. A vida delas passa exclusivamente a ser dividida e orientada com o parceiro e sob a perspectiva dele. Além do distanciamento social, elas sofrem também com violências psicológica, sexual e patrimonial. Ainda pior, muitas delas são vítimas de feminicídio.

indy

(imagem da internet)

A violência contra as mulheres é considerada uma questão de saúde pública e violação dos direitos humanos, pois está relacionada a maus tratos físicos, psicológicos, sexuais, morais e patrimoniais. Dados levantados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que entre 15% e 71% das mais de 1,2 bilhões de mulheres ao redor do mundo já foram vítimas de abusos físicos, sexuais ou ambos, pelo parceiro íntimo em algum momento da sua vida.

Se pensarmos na realidade brasileira, de acordo com dados apresentados em 2019, a partir de números do Ministério da Saúde compilados pelo Atlas da Violência, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) foram registrados 4.936 assassinatos de mulheres em 2017, o que representa a morte de 13 mulheres por dia. Esses crimes se agravam ainda mais em mulheres negras, que são 66% das vítimas, mortas por armas de fogo e na maioria dos casos dentro das suas próprias casas. Esses são números assustadores, covardes e racistas.

Na semana passada, Djamila Ribeiro, mulher negra e ativista feminista, escreveu sobre o assunto em sua coluna na Folha de São Paulo. Além dela, a pauta tem sido colocada em debate e preocupação por outras redes de mulheres, declaradas feministas ou não, além de espaços de discussão jurídica. No texto da Djamila, ela traz um dado preocupante sobre a relação do Brasil com nós mulheres: somos um dos países mais violentos para mulheres viverem.

Cerca de 40% dos casos de homicídio de mulheres registrados no Brasil em 2017, a partir de dados do Altas da Violência, ocorreram dentro da casa das vítimas. Recentemente, em 2015, o país criou a Lei do Feminicídio (a conquista dela mostra como o lugar que estamos, especialmente dentro de casa, não é seguro para mulheres, mas é importante e necessária, porque os agressores precisam ser punidos de acordo com a lei), que enquadra homicídios cometidos contra mulheres, com penas de 12 a 30 anos de prisão.

Para esses dias de isolamento, especialmente para mulheres que vivem essa perversa e dolorosa realidade é preciso que a nossa sororidade seja reforçada. Estamos todos em casa. Deixemos os ouvidos atentos para ligar e denunciar pelo 180 (Central de Atendimento à Mulher). O isolamento nos impede, infelizmente, de termos contato físico, mas o cuidado umas com as outras deve continuar. Para aquelas que já sabemos que sofrem violência é importante o incentivo para que denuncie, que solicite uma medida protetiva para afastar o agressor. Esteja presente.

Ao longo da escrita de hoje fui acompanhada pela voz da maravilhosa Elza Soares, ouvindo o álbum Mulher do Fim do mundo (recomendo demais) que também teve em seu histórico a violência doméstica. Nas pesquisas que fiz sobre o assunto, achei um documentário chamado “Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180″: Elza Soares e a violência contra a mulher”. A peça faz parte de uma produção universitária, do curso de História, da Universidade de Santa Catarina. Vale o play pela voz e história de luta e resistência de Elza, assim como pelas vidas de tantas Marias, Dolores, Eugênias, Laras, Letícias, Augustas, Margaridas, Claúdias, Denises, Saras, Ingrids, Amandas, Natálias, Valentinas, Glórias, Selmas, Eloísas, Helenas, Neides, Raqueis.

Mantenham-se em casa. Enquanto isso, fortaleçam suas almas e seus corações com a arte. Escutem Elza Soares e denunciem a violência contra mulheres!

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