Pane no Sistema ou Suspensão do Tempo

Por Marcelina Acácio.

Com essa suspensão do Tempo eu perdi a noção dos dias.

Eu ia começar a ler uma matéria com os impactos da pandemia sobre as mulheres, no Nexo Jornal, quando me dei conta de que hoje era quarta-feira, dia em que escrevo para o blog Lugar ArteVistas.

(Clarice escrevia aos sábados para um periódico, sei disso porque estou finalizando a leitura de “Aprendendo a Viver”, onde ela diz dos processos de alguns textos).

Naturalmente, é impossível fugir ao tema do momento: o coronavírus.

Mas não há nada de novo que eu possa dizer-lhes.

A não ser, como tenho atravessado, já que minha escrita é excessivamente pessoal, e desculpem aos que esperam uma novidade, eu só sei falar sobre mim.

(Minha cota de assuntos não-pessoais)

Se por um lado há uma pandemia que mata avassaladoramente, por outro há uma endemia que é uma realidade no Brasil: a fome. Estamos diante de um estado de calamidade pública que é a pandemia da covid-19, no entanto, para o principal chefe de estado do Brasil, bem como para boa parte do empresariado, a endemia da fome não parece ser tão grave, quando o mesmo lança, para atender aos interesses desse empresariado, uma medida provisória que permite que empresas suspendam contratos de trabalhos por até 04 meses sem salário. O Brasil flerta com a fome e com a morte. Mas, salvemos a economia!

A MP após receber inúmeras críticas foi revogada.

Na contramão do Mundo, o Brasil sofre não apenas com o vírus, mas nas mãos de um chefe de estado incapaz, que tem usado sua fala em pronunciamentos irresponsáveis, minimizando e omitindo a gravidade da situação.

Pausa no texto para a embriaguez.

Volto a escrever depois de haver bebido, vomitado e dormido à tarde inteira.

Aqui em casa estamos em cinco, escolhemos passar juntos esse período. Os primeiros dias foram difíceis, por não sabermos como se dariam os dias vindouros. Ansiedade de um lado, pânico do outro. E muitos jogos de quebra-cabeça. Escolhi encerrar-me no quarto e escrever. Escrevi e usei as redes sociais compulsoriamente, por pura ansiedade.

Passados alguns dias desde o início do distanciamento social, sinto-me lúcida, embora não pareça. Busco por informações só as que me são necessárias, como a evolução do vírus, a quantidade de casos no Brasil e mais precisamente no Ceará, e as medidas de prevenção e contenção. Mas não tenho fugido de ler os impactos sociais que a pandemia tem causado e causará. Isto porque sou demasiada humana.

Pausa para o panelaço contra o chefe de estado incapaz.

Estou finalizando o artigo sobre violência doméstica na comunidade onde eu nasci e cresci, interior do sertão cearense. Quanto mais escrevo, mas há coisas para serem ditas.

As mulheres de minha família foram por demais silenciadas, e sinto-me na obrigação de romper com este silêncio.

Tenho recebido mensagens e ligações de amigas, mulheres que eu admiro, em agradecimento por eu tê-las instigado a escrever, o que tem me deixado feliz e me faz sentir útil no planeta.

Na mesma proporção, amigos têm me ligado para compartilhar o pânico.

Confesso que não sei como lidar, e em nada posso ajudar. Então compartilho o que tem funcionado pra mim. E curiosamente, eu estou bem.

Boa alimentação. Temos preparado umas comidas ótimas, saudáveis, e de baixo custo. E tem sido especial, porque temos cozinhado juntas. Reaproveitamos desde o bagaço da beterraba para geleia às sementes de abóbora para uma farofa.

Incontáveis banhos.

Alongamentos matinais.

Boas noites de sono e sonhos.

Masturbação em dia.

Sucos com vegetais, legumes e frutas, que contenham ferro, e vitamina C.

Água, sempre.

Boas leituras. Ler nunca foi tão urgente, sobretudo, ler com qualidade.

Escritas urgentes. Escrever pode nos tornar loucas, mas também pode nos salvar da loucura.

Por fim, estou saturada das lives e curtindo ficar em casa. Não há tempo suficiente para o que eu preciso fazer. Então, estou aproveitando-o da melhor maneira que posso.

Ah, e como pensava que o mundo ia se acabar, e ainda não acabou, enviei uma mensagem para o D., ele está em Portugal, e eu tenho sonhado com ele nos últimos dias. Ele não respondeu, concluí que talvez ele me ame (risinhos) , porque silêncio também pode ser amor.

Cuidemo-nos!

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