A pandemia mobilizou o amor? Ou Como virar poeira cósmica?

Por Natália Coehl

Cinco dias de quarentena, nesse pouco tempo a quantidade de vezes que disse e escutei “Eu te amo” aumentou consideravelmente. Tenho me comunicado com muitas pessoas, cada uma exprime, a sua maneira, as formas que desenvolveram para viver tudo isso com certa “segurança”. Pessoas que sempre tive receio de me comunicar, por causa dos jogos humanos, ficaram mais próximas, outras, sem conseguir lidar com a ansiedade, buscam obter e distribuir informações. Pelo meu corpo, passou ansiedade, plenitude, medo, visão de um futuro diferente, amor, raiva… enfim… acho que me relacionei com diversos sentimentos nesses últimos cinco dias. O medo do incognoscível, coloca-nos em estado de vulnerabilidade, o corpo se desestrutura, pois perde a noção de superfície e territorialidade. Artaud chama isso de experienciar um corpo sem órgãos, mas o que seria tudo isso?
O corpo é a nossa maior e mais tecnológica ferramenta de vida, será que com ele podemos criar tudo?
Que tal paramos, já que temos tempo agora, para observar: o que de fato a nossa mente tem produzido? O que vocês escutam lá dentro? Nesse caminho proponho a reflexão sobre o nosso inconsciente coletivo: o que você acha que temos criado coletivamente? Como os nossos corpos se movimentam neste espaço-tempo? Quais são os nossos hábitos e por que os realizamos diariamente? Qual a verdadeira necessidade desses hábitos e para que (quem) o reproduzimos? É por nós mesmos? Ou pela sobrevivência? É algo que você não pode deixar de fazer porque está preso a isso? Como e por que essa prisão foi criada? É possível sair dela? Você quer sair dela? Como você conduz o seu entorno, como você defende o seu território? Você é um privilegiado? O que você deixa que te atravesse e o que você atravessa? Será que você tem invadido territórios alheios? Ou será que estão invadindo o seu território? Talvez as duas coisas? Será que quero que o meu entorno funcione apenas do meu jeito, ou será que crio diálogos para criar ações coletivas? Será que preciso gritar para ser ouvido ou será que sou sarcástico ou indiferente com aquilo que o outro está dizendo? Doeu? Dói em mim também.
Imagine agora, você pertence a uma aldeia indígena, de repente, chegam pessoas truculentas em grandes barcos, dizendo o que você deve fazer ou não, te espalham doenças, as quais você nunca viu na vida, vê seu povo morrendo, sendo estuprado, como você se sente? Esta fácil sentir isso agora, né? Já que estamos em situação vulnerável. Por que só nos damos conta disso quando algo catastrófico acontece? Será porque a morte está próxima? A morte é necessária. Mas, o que precisa morrer? Um corpo colonizador, colonizado, padronizado, insensível, arrogante, um corpo duro e enrijecido, que acredita que a única maneira de se viver é esta que está dada. Fecha os olhos, tenta perceber a multiplicidade que a existência pode nos dá. Ah… dá vertigem, né? Será o medo de viver o novo? É exatamente aqui, que volto a falar sobre um corpo sem órgãos, e também sobre o sentimento de não saber o que pode acontecer nas nossas vidas daqui a um segundo. Este é o estado de impermanência…
Mas como virar poeira cósmica?
Fecha os olhos e pensa que toda a tua estrutura se dissolve em um piscar de olhos, ao sentir as porosidades do teu corpo. Toda a tua matéria é composta por átomos. Toda a tua matéria é repleta de espaços vazios. O teu osso é vazado, o teu músculo também. Caiu no abismo? Tem onde agarrar as mãos? De repente a sensação é a de estar flutuando no espaço, apenas indo, sem rumo, para um lugar desconhecido. Consegue agora enxergar o teu vazio? Consegue se perceber sem bordas, sem território? O que você sente? Como o teu corpo vibra?
Foi descoberta, na física quântica, a matéria escura. Segundo os físicos, o universo está em expansão, porém eles descobriram que existe uma força gravitacional, a qual ninguém vê, que diminui a velocidade desse movimento, ela se chama matéria escura. Ela não interage com nenhuma matéria e nem com ela mesma, mas exerce uma força gravitacional que atrai a expansão para si, mas sem impedir que este movimento aconteça. Pensando sobre isso, podemos supor que o espaço vazio do universo está preenchido por uma força que ninguém vê. Trazendo esta descoberta para nossa dimensão, por meio da lei universal da correspondência, “o que está em cima é como o que está em baixo, o que está em baixo é como o que está em cima” (Caibalion), me pergunto: será que o nosso espaço vazio não é preenchido por uma força que ninguém vê? Que força é essa que precisamos enxergar? Fecha os olhos e vê?
O nosso movimento aqui na terra não pode ser somente expansão, devastamento, invasão conquista do território do outro, escravização de corpos, isso se chama força patriarcal. Uma ação que age egocentricamente, sem pensar, sem dialogar. Já chega dela! Fecha os olhos e enxerga como o teu movimento aqui neste espaço-tempo está se criando? O vetor de ação é tanto pra dentro como pra fora. Em um mundo patriarcalizado, pergunto: Por que estamos sendo obrigados a parar? O que acontece com o mundo quando paramos? Vírus no sistema.
É impressionante ver a capacidade da natureza de se regenerar. Na Itália e na China, por causa da quarentena Corona Vírus, o índice de poluição do ar diminuiu drasticamente com a parada das indústrias, dos carros, com a parada do humano. Os golfinhos reapareceram pelos rios de Veneza. O que o movimento do capitalismo faz com as nossas vidas? Eu não duvido da possibilidade desse vírus também ser uma arma biológica, mais uma estratégia utilizada por potências econômicas para controlar o crescimento de outras potências. Como essa briga de poder nos afeta?
Para encerrar este pensamento, cito as palavras de Stefano Macuso em seu livro A Revolução das plantas:
“Assim, enquanto os animais reagem com movimentos às transformações do ambiente que os rodeiam, evitando mudanças, as plantas respondem a um contexto em MUTAÇÃO (grifo meu) contínua com a adaptação.”
A palavra mutação tem origem do latim “mutatĭo,ōnis” e significa ação de mudar, mudança. Aprendo com as plantas a não fugir e a ressignificar o meu corpo de forma tão profunda, para que essa mudança possa atingir o meu DNA, metamorfoseando assim, a minha forma de se movimentar nesse mundo. Como uma dança que compartilha, dialoga e sente, não só as minhas necessidades, mas também as do ambiente (seres humanos, vegetais, animais, minerais, elementais e o que surgir mais). É urgente a necessidade de criação de hábitos não colonizadores, é um ato artístico! Um corpo sem órgãos, que só se apresenta como forma neste espaço-tempo no segundo presente do aqui agora. É na respiração que crio, é agora! Essa é a magia!

Deixo aqui um poema meu:

A coragem de quebrar a casca protetora da semente
me dá força para germinar esse ser frágil e suscetível.
Vulnerável, pelos caminhos vou crescendo forte.
Meu tronco só engrossa.

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