Isolados

Por Indyra Gonçalves

Em tempos de isolamento social, estou acompanhada da arte, poesia e da magia que a voz da minha rainha Maria Bethânia proporciona. Não apenas dela, mas de Chico, Caetano, Gil, Alcione e outros vários queridos (assim, bem íntimo mesmo) da música popular brasileira, do mundo. A cultura é um lugar de diversidade, libertação e vida. Ela será agora, como nos momentos de aconchego nos braços e abraços quentes dos bons encontros, vital e salvação para esses dias de solidão. Ainda bem que há arte, luta e resistência para que a vida tenha tom, cor e som.

E para o nosso encontro semanal, em casa mais do que nunca, escuto e trago para o papo um pouco do sentimento desses dias, que ainda não sabemos se serão breves ou longos sem data para acabar, um trecho da música Gostoso Demais, que Bethânia interpreta incrivelmente bem (aliás, essa mulher cantando é um deslumbre de prazer, como um orgasmo que nos transborda de felicidade). Com certeza todos já ouviram ou cantaram em um karaokê, no transporte de um lugar para um ou outro lugar, em uma noite solitária de chuva de um sábado à noite. Ela fala de saudade, de desejo, de olhar carinhoso, abraço gostoso, de passear no teu céu. Fala daquilo que é bom demais, porque amor, chamego, prazer e calmaria que trazem as boas relações são remédios para tudo. E como será agora, nesse momento em que o mundo nos pede um tempo? Um tempo sem abraço, sem carinho, sem toque, sem presença.

Parto do lugar, bem ali antes da pandemia, quando não havia tempo para muito, apenas para pouco. Um dia desses falávamos e escrevíamos sobre o pouco tempo com os filhos (para quem os têm), da falta de encontros com os amigos de velhas datas, com a família que mora longe, com o nosso autocuidado. Não havia tempo, porque parar nunca foi uma opção. Aprendemos, faz tempo, a viver isolados. Trocamos, muito antes do vírus ganhar nome e notoriedade, os espaços sociais pelos virtuais. Compartilhamos lembranças, saudades, amor, afeto, mas sem tocar, estar, pertencer. Já tem um tempo que somos likes, compartilhamentos e engajamento. Muito mais para efeito de relatórios de performance, do que realmente para estarmos vivendo e aproveitando a vida. Hoje, o isolamento é real, necessário. Agora também a gente tem tempo, mas os encontros precisam esperar.

O planeta anda cansado. Oficialmente está sem ar. Que ironia, o vírus que vem matando a humanidade tem como um dos sintomas a falta de ar. Não dá para respirar. Ora, ora estamos deixando sem respirar, maltratando, envenenando o planeta faz é tempo. Ele agora precisa de um tempo para voltar a respirar. Os efeitos desse distanciamento da humanidade na saúde da mãe Terra são visíveis, ela está tentando recuperar o longo tempo de destruição que demos a ela. Em Veneza, norte da Itália (um dos países mais atingidos na Europa pelo coronavírus, inclusive com o número alto de mortos, chegando 650 por dia), as águas dos canais da cidade voltaram a ficar cristalinas. O ar está mais puro, segundo os moradores da cidade. Em tempos de grave crise para nós, o planeta tenta se recompor.

 Canais de Veneza. Foto: Marco Capovilla, via Veneza Pulita

O tom deste texto não é de bem feito para nós humanidade. Jamais. Mesmo que tenhamos semeado tantas pragas no planeta. Pelo contrário, estamos perdendo muitas vidas, as pessoas estão doentes, algumas já sem possibilidade de atendimento porque não tem estrutura para todos. Mas esse é um momento marcante, especialmente porque teremos tempo de refletir o conjunto, o que é de fato importante e uma nova e mais saudável relação nossa com o planeta, conosco e com os outros. Lembre-se: não há planeta b. O vírus está nos isolando. É possível que nos isole mais. Então, esse é um momento que precisamos reconstruir as nossas relações, os nossos hábitos, a forma como vivemos, como vemos o outro e as soluções para o coletivo. Agora, mais do que nunca, vamos precisamos cuidar da gente e cuidar dos outros. Cuidar do lugar, das pessoas, não apenas do que é particular e individual.

Estamos todos em um momento novo. Nem nas possibilidades de planejamento mais bem elaboradas imaginávamos que teríamos que viver tão intensamente em episódios de Black Mirror. Ou naqueles filmes que têm como roteiro o fim da humanidade, com tons de fortes de exagero. O vírus nos colocou em cheque. Mudou nossas rotinas de vida em casa, fora, no trabalho. Nos colocou mais tempos conosco e com os de casa. Nos fez encontrar tempo para ler os livros guardados, cozinhar as receitas de família, faxinar a casa para retirada do que não é mais útil. Ele não nos permite acumular. Em casa temos tempo para escrever, declarar o nosso amor, falar sobre os tantos vazios que deixamos no caminho, ficar vulneráveis, afinal, não estamos acostumados com tanto tempo.

O isolamento será uma terapia obrigatória. Vamos conviver conosco, ainda mais com os defeitos, os medos. Ele vai nos deixar longe do mundo que usamos máscara para que fiquemos nus diante do que realmente somos. Vai remexer em amores e ódios antigos. Vai nos colocar diante da sensível missão de nos questionar os nossos motivos e objetivos nessa caminhada que é a vida. Vai ter medo, desconforto, sonos colocados em dia. O isolamento nos colocará em silêncio profundo e também fala sem fim. De tudo um pouco, novo, desconhecido, disso estaremos vivendo. Haverá estranhamento, mesmo estando todos tão isolados do mundo e das relações com os avanços tecnológicos.

Tudo isso ainda é desconhecido para todos. Somos seres muito sociáveis. O isolamento não é um processo simples, imagine para quem o vive diariamente na solidão ainda mais desigual das ruas. Logo nós, humanidade que ama celebrar, estar junto, ser amada e paparicada será complicado. Tem quem ainda não entendeu o tamanho desse momento que estamos vivendo. Daqui ainda posso ouvir algumas reuniões de amigos, aniversários com poucas pessoas e pequenos momentos confraternização. Ainda estamos em aprendizado. Que todos possamos aprender a importância de nos afastar para que em breve possamos nos reaproximar, especialmente, aprender sobre o lugar do outro.

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