Alarme para quem?

Por Rebeca Raso.

Espanha está em estado de alarme. Que significa isso?  Ou melhor, o que significa o estado de alarme para determinados grupos e coletivos sociais como as pessoas sem casa, as pessoas sem recursos e desempregadas, as vendedoras ambulantes, autônomas, as mulheres e crianças vítimas de violência de gênero que seguem a viver com o seu agressor, as pessoas com pouca mobilidade, idosas, que vivem sozinhas, mães solteiras?? Enfim, todas essas pessoas que sem o estado de alarme já faziam malabarismos para viver. O que significará tudo isto para nós? 

19.03 ninguén sen coidados

Ainda não está nada claro. Nesses 2 primeiros dias, o que vemos é o isolamento das pessoas nas suas casas. Só podem sair à rua para ir à farmácia, comprar alimentos, passear cães, atender a uma pessoas dependente, ir ao centro de saúde, hospitais ou ao trabalho. Sim, ao trabalho!!! 

Parece que o estado de alarme só funciona para umas pessoas. As grandes empresas seguem com bastante normalidade. Os chefes estão nas suas casas, “isolados” enquanto suas e seus empregadxs seguem tendo que ir a trabalhar e em condições normais, ou seja, sem as medidas de segurança necessárias para este momento de pandemia. E você se pergunta: mas e as medidas de proteção, proximidade, luvas, máscaras…. Pois é… nem todas as empresas estão tomando essas medidas. A situação não está fácil para as que trabalham nestas grandes empresas. Seguem em situações de risco, e a opção de teletrabalho, trabalhar desde casa, é apenas orientativa. Não todas as empresas estão facilitando.

Bem, estamos falando de grandes empresas e com trabalhadorxs com contratos, tá! Bem, estas também estão a sofrer com uma ameaça constante de despedimentos massivos. Trabalhadorxs que são mandadxs para casa gastando as férias. Os conflitos trabalhadorxs X chefes estão estalando a cada minuto. Mas nada disso aparece na televisão. 

Ao final o coronavirus fez com que as grandes contradições sociais do capitalismo e  os conflitos de classe, gênero e raça apareçam por todos os lados. Isso pode ser bom para que identifiquemos quem é quem. Mas não sejamos ingênuas, nessa crise do capital, as contas sempre têm que dar certo. 

Ninguém fala nem lembra das pessoas que trabalham nas casas, como empregadas domésticas, cuidadoras de crianças, de idosos… pessoas que trabalham pela sua conta ou sem contrato que pelo fato de não poderem exercer o seu trabalho em condições estão sendo demitidas, sem nenhum tipo de prestação que lhes apoie economicamente neste momento. Ou simplesmente não podem ir a trabalhar, logo, não recebem. Como vou/vão pagar as minhas/suas contas? Estou a me perguntar.

Nesta conjuntura, o vírus com alto poder de contágio chegou num momento maravilhoso de recessão económica, precarização das vida das pessoas (empobrecimento da população), mobilizações sociais, desmantelamento do sistema público de saúde, etc, etc…. E onde o discurso da ultradireita tem se fortalecido bastante.  Um cenário idóneo para colocar as pessoas em casa (as que tenham) e a polícia na rua. 

Esses corpos de segurança se concentram “curiosamente” na periferia das cidades, no centro das cidades e nas estações de transporte público como metros. Habitualmente onde as pessoas racializadas, pobres, migrantes costumam frequentar. O mesmo parece que está a acontecer no Estado Espanhol, na França, na Itália, na Alemanha, na Inglaterra. Aqui no Estado Espanhol, as multas por estar na rua sem uma justificativa plausível é de no mínimo 100€ a penas de prisão! Quem avalia isso? Deixamos a pergunta no ar.

Enquanto isso, os eventos desportivo internacionais ainda não foram completamente cancelados. O que implica etapas nacionais de classificação… É .. talvez o vírus não goste de desporto. Mas as fronteiras estão a se fechar para as pessoas comuns. Uma justificativa ótima para seguir a negar a entrada das pessoas do sul global que buscam refúgio. A seguir aplicando esta lei de estrangeiraria assassina. 

Estas barreiras fronteiriças não existem para as mercadorias. Estas sim podem e devem circular  de um país a outro sem nenhum questionamento. São até incentivadas pelos Estados com ajudas económicas. Alternativas viáveis e sustentáveis como o mercado de cercania, sem aglomerações, com produtos ecológicos não são tidos em conta, senão, todo o contrário. A consequência é que xs pequenxs agricultorxs, comerciantes entram em falência pouco a pouco. Asfixiadas numa competição desigual.

 A onda é mesmo expropriar as pessoas. Expropriar-nos de tudo, até da memória. 

Quero deixar bem claro que as pessoas profissionais do sistema público de saúde  e da limpeza estão trabalhando em condições terríveis, com algo grau de contaminação pela falta de equipamentos básicos e de profissionais. É vergonhoso colocar a culpa da contaminação nas pessoas.

É estou com raiva, estamos com muita raiva de ver tanta injustiça e repressão entrando nas nossas vidas e sendo percebidas como normais. “há, não se preocupe, são só 15 dias, 30 dias…” Mas não é verdade. Esse esquema está se cimentando no quotidiano das pessoas. 

Para quem ainda não sabe ou não se ligou, Europa não é dos Direitos Humanos. 

Há que seguir resistindo. Agindo desde abaixo, pessoa a pessoa, criando comunidade. Que a esperança não morra.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s