Siririca

Por Indyra Gonçalves

Sextou e hoje o papo é quente, molhado e gostoso. É de deixar mente e corpo leves, soltos e felizes. É uma conversa sobre corpo, autoconhecimento e prazer. Um massagear de dedos, vários toques lentos ou acelerados, uma valsa para a felicidade por meio do clitóris. Então, sejam muito bem-vindas, mulheres, em especial, para um mergulho na masturbação feminina. Um lugar que está, cada vez mais, sendo descoberto e explorado por nós, mesmo que ainda encontre alguns tabus, medos, vergonha e desconhecimento. Acima de tudo, quero que possamos repensar o feminino, no caso, através da sexualidade.

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Foto: banco de imagens gratuitas

A escolha do tema para esta semana é resultado da leitura do livro “Coisa de menina? Uma conversa sobre gênero, sexualidade, maternidade e feminino” publicação de uma conversa entre os psicanalistas Maria Homem e Contardo Calligaris.

Quero ainda compartilhar com vocês a minha experiência como mulher nesse processo de conhecimento sobre o meu próprio corpo e a prática da masturbação. Mesmo sendo uma mulher feminista, falar da minha sexualidade, especialmente de forma tão aberta, é um desafio. Porém, é importante. A naturalização dos processos que temos com o nosso corpo precisa ser conversado, seja num blog, em um vídeo na rede social, em um podcast ou numa roda de conversa na universidade é fundamental que nós mulheres tenhamos um diálogo aberto e franco sobre este lugar.

O título para este post é resultado de um papo offline com outras mulheres em uma noite de risadas, cervejas e cigarros, onde debatemos várias questões sobre sexualidade da mulher e a siririca foi citada como o mais prazeroso e autêntico nome para a masturbação feminina. Então, em respeito a voz delas (a nossa) eis que vamos falar da deliciosa siririca.

Antes de iniciarmos o papo sobre as maravilhas para corpo e alma da masturbação na vida de nós mulheres, relembro aqui um pouco de alguns capítulos sem nenhum prazer sobre o tratamento perverso dado à masturbação feminina ao longo dos séculos. Por muitas e muitas gerações, infelizmente até hoje em alguns países, o nosso prazer foi e é severamente encarado pelas sociedades e pelas religiões como algo negativo e diabólico. No livro, Contardo detalha como a psiquiatria, no início do século XIX “curava” a masturbação feminina: “queimando com um ferro quente, um ferro vermelho, o clitóris das meninas de 10 ou 11 anos. E sem anestesia”. Para os garotos que praticavam a masturbação as mãos eram amarradas, “embora ninguém tenha pensado em queimar os pintos deles com um ferro quente”.

Um outro processo perverso citado pelos psicanalistas no livro é a clitoridectomia: circuncisão feminina, praticada até hoje. No início dessa década, Waris Dirie, modelo e ativista contra a mutilação genital feminina, lançou, em parceria com Cathleen Miller, o livro Flor do deserto. A obra conta a cruel, dolorosa e perversa realidade de Waris, que aos cinco anos foi circuncidada em um pequeno vilarejo na Somália, a sua fuga de um casamento com um homem bem mais velho aos 13 anos, os diversos abusos sexuais e físicos, a escravidão na Inglaterra, além da relação negativa que ela criou com o próprio corpo por muito tempo devido às brutais violências sofridas ao longo de sua vida. A modelo conta que teve dificuldade de mostrar seu corpo para ser fotografado e também de expor ao mundo que era vítima de mutilação feminina.

livro flor do deserto

Livro Flor do Deserto. Waris Dirie e Cathleen Miller

Não é possível nem imaginar o tamanho da dor, da humilhação, da falta de respeito e humanidade que todas essas mulheres passaram e passam em processos bárbaros de mutilação genital. Infelizmente, o sofrimento com essa violência ainda é uma realidade para cerca de 200 milhões de meninas e mulheres, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU),  principalmente na África e no Oriente Médio.

A masturbação feminina é, portanto, muito mais do que um caminho de prazer para nós mulheres. É um ato político, de coragem e de libertação. Tocar o próprio corpo, se ver no espelho é revolucionário. Ela representa a construção e desconstrução das várias mulheres que somos, que desejamos ser. É um caminho importante de autoconhecimento do nosso corpo. Aprendemos a decidir o que nos traz prazer e o que existe apenas para agradar o outro. 

Siririca faz muito bem à saúde. É um momento de conexão entre nós e o nosso corpo. Ela nos faz trilhar o caminho para o orgasmo, alivia tensões causadas pelo estresse, melhora o libido e, especialmente, libera a puta reprimida de nossas almas. A puta é a nossa liberdade sexual. A decisão de nós com os nossos corpos.

O primeiro passo, como cita Maria Homem em seu canal no YouTube (vídeo abaixo), onde fala sobre masturbação feminina, é o olhar para o corpo diante do espelho. É mapear, conhecer. É olhar para o nosso corpo e descobrir o que nos dá prazer, quem somos.

Vídeo: Sexualidade feminina – masturbação https://www.youtube.com/watch?v=ckRTD5km7nI 

Assim como numa dança, a masturbação é um passo a passo. Mesmo para quem não sabe dançar, aprende, se entrega à melodia. De repente, liberamos o “putão” eufórico que está dentro de nós. Daí, quando vemos, estamos dançando, em delírio, relaxamento, sentindo prazer. 

Dedos suaves que dançam no clitóris. Passos rápidos e leves. Sobe, desce. A música começou. É poesia, prazer, entrega. É você caminhando pelo seu corpo numa aventura cheia de conhecimento. É você sabendo a grandeza que tem. É liberdade. 

Coisa mais bonita – Flaira Ferro (https://www.youtube.com/watch?v=4W8Jo-4IqcQ

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