A Ilha Solitária

Por Marcelina Acácio.

Sábado, 11 de Janeiro de 2020.

Entrei num café na Ana Bilhar, e encontrei boa parte dos clientes escrevendo ou lendo alguma coisa, de modo que eu também quis fazê-lo. Saquei da bolsa caneta e caderno e pus-me a escrever.

Pedi um bolo de cenoura com calda de chocolate e um cappuccino com cobertura de chocolate e canela, o excesso se explica porque eu estou numa TPM infernal, e em crise.

Na verdade eu saíra de casa a fim de me reunir com duas amigas, para tratar dentre outras coisas de assuntos relacionados a trabalho. No entanto, não me senti bem e quis ficar sozinha.

Lembrei de uma vez na Praça do Ferreira, quando eu invadi o silêncio de um rapaz sentado num banco. Ele me disse não se sentir bem naquele dia, e que teria ido à praça para ficar sozinho, e mais, que era um hábito seu ir a locais de fluxo para estar consigo. Eu o entendi perfeitamente. Ocorre que, especialmente nas grandes capitais, não passamos de ilhas solitárias. E eu me sinto essa imensidão de areia branca e água salgada, isolada do resto do mundo.

Essa era a intenção quando decidi sair de um encontro a três, num sábado à tarde, para ir a um café, ficar sozinha.

E além do mais, eu não confio em quem não suporta a própria companhia, e não aprecia a solidão.

Dos momentos de plenitude que eu já vivi, e eu me lembro bem, eu estava sozinha, um deles foi em Jericoacoara, em 2016, quando fiz paragem de 10 meses na ilha do amor ou da perdição, para viver um estilo de vida diferente do que até então eu vivera. Eu morava só, numa casa subterrânea, cujas janelas davam para um imenso terreno, ao lado de enormes dunas brancas. Eu era feliz só em olhar através da janela. Armava a rede, e me punha a balançar. Quando não, ficava a observar o tempo, esperando um poema passar.

E um dia, enquanto exercitava o olhar e contemplava a beleza de tudo que ali estava, me dei conta de que o que eu precisava não estava no outro, ou no mundo, que a minha questão não era geográfica, como eu pensava, mas que tudo estava em mim, que o meu corpo era a minha casa no mundo, e eu me senti sublime. Foi irreversível porque eu sempre me lembrarei desse dia.

De volta ao café, aos poucos o ambiente foi se enchendo e já não me apetecia mais estar ali.

Os 30 minutos, aproximadamente, que eu passei lá, em que experimentei ficar numa ilha solitária, foram o suficiente para eu encontrar comigo naquela mesa, sem que tivéssemos marcado, como eu sempre faço. E foi o melhor que eu pude fazer por mim aquela tarde.

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