Mel e fel de respeitar

                                                                                                                       Por Indyra Gonçalves

Respeitar é uma prática difícil. É um exercício que exige olhar para si mesmo e olhar o outro. Leva tempo para aprender a respeitar, sem nunca chegar a perfeição (na minha opinião, ela não existe em nenhuma situação. Também é uma condição de opressão). É doloroso ao mesmo tempo em que é libertador.

Dos aprendizados e das vivências que a vida tem me dado, o respeito é o mais complicado de colocar em prática. Naturalmente, temos o instinto de querer moldar, determinar e achar que a nossa verdade é a verdade certa para viver a vida (será que que existe uma certa?). Grande engano. Aliás, um engano que nos coloca no lugar do opressor, porque assim como quem quer nos impor suas preferências, fazemos o mesmo com os outros quando impomos as nossas sobre eles. Com respeito criamos trocas. Construímos relações. Possibilitamos crescimento.

Lembro de ter lido um desabafo da atriz Taís Araújo, atuante na defesa dos direitos das mulheres e do povo negro, além de outras bandeiras das minorias, sobre a preferência de sua filha por bonecas e princesas. Ela descreveu como “parece piada” que a filha aja de maneira contrária ao que ela defende. Na fala da atriz foi possível sentir um pouco da sua falta de compreensão de tal prática e também um tanto de desespero pelas escolhas da filha.

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Tradução: silêncio e respeito​
Ao mesmo tempo em que a atriz se via naquela situação contrária ao que defende, ela também falou da importância de respeitar, aprender e ensinar com tudo aquilo. Eis a grande chave dessa nossa passagem por esse mundo, o respeito.

Amar e estar perto daquilo que parece com a gente é bom e fácil. Afinal, todos temos um pouco de Narciso, somos auto admiradores do que somos e temos, onde o espelho é o melhor e mais fiel companheiro. Respeitar entra como a quebra do espelho ou, pelo menos, um olhar mais amplo do que a própria imagem. É complicado. É difícil. Exige se reinventar.respeito 4

E é sobre esse processo de se reinventar que escrevo. Desejo colocar para fora esse sentimento de confusão entre teoria e prática do respeito, além de minha vontade de se reinventar. Na teoria, respeitar é algo simples. Você convive, fica perto do outro, mas sempre respeitando as escolhas dele. Sem julgamento, sem colocar a sua verdade como absoluta, respeita. Na prática, a vontade de moldar grita. E falar não é assim, mais sim, dessa maneira. De mostrar que alguém está errado e que você está certo. Daí, começa o duelo. Porque entender os desejos do outro é difícil. Porque antes de entender o outro, não nos permitimos nos entender, nos respeitar. Então nos perdemos.

Há sofrimento no processo de respeitar. Porque ele é doloroso. Seria incrível se a gente pudesse receber uma receita, como aquelas bem simples de bolo, dizendo a quantidade, o tempo de preparado e os ingredientes certos para respeitar os outros. Para nos respeitar. Mas não existe. Respeitar é como a maior parte de tudo que acontece na vida, você descobre vivendo. Observando. Testando. Admitindo.

“Mas eu o (a) amo”, “É difícil não falar minha opinião”, ”Eu sei que ele está escolhendo errado”. É difícil não reagir, não sofrer, não ficar desesperada. Mas respeitar tem dessas coisas, mesmo que você possa estar certo em alguns conselhos ou avaliações, respeitar é uma importante maneira de ganhar confiança e de também receber respeito.

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Sim, sofro para respeitar, mas o bom de construir respeito é que os laços e diálogos são fortalecidos. A partir desse lugar há uma relação de troca, uma abertura para conversar, uma comunicação que corre poucos riscos de ser mal interpretada. Posso te mostrar minha opinião e ser ouvida como alguém que é respeitada e que pratica o respeito. Da mesma maneira que ouço sem que me sinta violada.

O respeito é uma transformação nas relações. É um caminho aberto. É a construção de espaços com diversidade. É a celebração de diferenças que convivem, se reinventam e se encontram em um espaço comum, de igualdade, mesmo sem semelhanças.

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