Dou por mim

Texto de Alana Girão de Alencar – Poeta e Psicanalista
Todos os dias, dou por mim a acreditar, como dizia Lacan, que a arte transmite um saber que se antecipa, e assim, rendo-me inevitavelmente à poesia que parece denunciar de forma escancarada a insensatez que estamos assistindo, vivendo e sofrendo na política do nosso país. “Alguma coisa está fora da ordem”1 e, indiscutivelmente, a nossa “piscina está cheia de ratos”2. E, lamento, do que vejo: uma histeria desenfreada a apontar discursos perfurantes, como se houvesse a possibilidade de instaurar a culpa do caos na própria ausência, projetando soluções partidárias como se a estrutura perversa obedecesse ao regime democrático. Sim, Cazuza, nos resta “pedir piedade… pois há um incêndio sob a chuva rala, somos iguais em desgraça”3.
cazuza
Sigo lendo e relendo matérias críticas, soterradas de desabafos, sobre políticos, ministros, juízes, denúncias, operações, golpes, injustiças e tudo o quanto importa… e, de maneira não menos surpreendente, sempre me deparo com a conclusão lógica de ficar cara a cara com a proporção desmedida do nosso desamparo. Rasga-se a Constituição, burlam-se deveres, abusa-se de direitos, corrompe-se a esperança. Nosso circo de miséria, agora, dilata a olhos nus, nos acorrenta… nos põe aos sobressaltos de duvidar do futuro. Raul Seixas já havia alertado “que sempre houve ladrões, maquiavélicos e safados”4, só não previu por quanto tempo prolongar-se-ia esse “hoje em dia” em que “dá no mesmo ser direito que traidor. Tudo é igual, nada é melhor”5.
Num desses textos, como de espanto, li que “Marielle é um cadáver fabricado”6, e de impulso indaguei sobre as armadilhas construídas pelo arcabouço das palavras. Atirar fábulas em histórias reais, sofridas, de minorias que gritam queixas de uma sociedade adoecida, me parece despencar de qualquer bom senso rumo ao desrespeito pungente. Marielle, antes de ser cadáver, era gente, voz… E, ao passo que os passos seguem, vozes se calam, medos florescem, cordeiros endiabrados assumem o controle anárquico. Tudo às claras, sem vergonha na cara, sem pudor… sádicos gozam como se houvesse triunfo. Receio ter chegado ao tempo em que a migalha tida como luxo serve de teia ao compartilhamento da dor dos humilhados.
Não é à toa que imagens de Oscar Maroni exibindo sua natureza cruel voltam a macerar meus pensamentos. Um libertino vulgar angariando mérito por patentear a falência da lei. Ele não estava só. Havia para quem direcionar o seu olhar oco. Havia para quem responder todo esse descontrole político que enfrentamos. Estamos embarcados no Metrô Linha 743 sem que tenhamos nos dado conta. Sem que saibamos em que parada descer.
E assim, em Pessoa, sigo questionando: “As injustiças da Natureza, vá: não as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas convenções – essas, por que não evitá-las?”

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