O lugar da dor

Por Indyra Gonçalves

A dor é um negócio que todo mundo sente. Seja na cabeça ou na alma ela está sempre ali. Ela está presente como todo o resto. Ela existe como o amor, a felicidade, os abraços. Mas é sempre estranho falar sobre a dor e, especialmente, que ela tem um lugar em nossas vidas, às vezes diário, passageiro, mas presente.

A dor existe para nos dizer que estamos vivos. Mesmo que pareça complicado entender dor como vida, mas ela é. Ela tem um lugar importante, mas desprezado, em nosso cotidiano. É como diz o ditado, mais se aprende com a dor do que com a alegria. Porque a dor é direta ou nem tanto, mas ela incomoda e faz querer solução rápida. Ela vem como um balde de água fria em um embalado e gostoso sono debaixo de um edredom quentinho. Às vezes, ela nem é tão direta, que deixa você relaxar só para poder te acordar a cada cinco em cinco minutos e avisar que está ali.  

Falar da dor e desse lugar que ela ocupa é difícil. É difícil falar que se sente dor. Estamos acostumados a guardar ou disfarçar a dor. A gente chega a substituir a dor, porque não fomos acostumados a senti-la. Na verdade, a gente nem sabe como sentir. Mesmo quando ela apertada muito, quase que sufocando tudo, a gente só quer que passe. Mas a dor faz parte da vida. Ela é uma etapa ou várias que vão aparecer ao longo dos dias de maneiras diferentes. Em mim ela sempre parece maior, mais forte do que nos outros. É comum sentir assim. Mesmo que a dor seja  por causa de um acontecimento coletivo, onde todos sentem doer, em mim sempre parece doer mais. A dor tem dessas coisas, porque ela traz questões, inquieta, existe.

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É impossível saber. Não vale a pena tentar competir. A dor não cabe em um dosador. Ela apenas existe. A dor mora no silêncio, na ausência, na distância. Em doses parceladas em vários dias. Na partida antecipada. A dor mora dentro de si mesma. É quando achamos que ela se acalmou, que ouvimos ela gritar. A dor é uma maneira de pedir ajuda. Ela é autoconhecimento também. Em alguns casos, ela existe para colocar um fim no que um dia foi amor (ou abuso disfarçado de amor). É como fala a letra da música Angra dos Reis, “é uma dor que dói no peito”, cantada na voz do Renato Russo (por favor).

Acredite, esse lugar de dor tem vida. Tem arte. Explosão. Medo. A dor dói, mas nos movimenta. A perna está machucada, mas tem um leão atrás de você. Você corre. Ou, pelo menos, você tenta. Ela dói tanto que também paralisa. Mas existe. É presente. É passado. É futuro. Toda hora dói. Dói o coração partido na adolescência. Dói partir. Dói enterrar o filho. Dói ter medo. Dói. A dor está vida. Nos pedindo para correr. Nos fazendo parar. Ela está. Ela é branca, preta, amarela. É intensa. Suave. Ela é dor. E em você, o que dói? É físico ou na alma?

Escolhi deixar doer por um tempo. Não sei se a alma ou a carne, mas a dor se faz presente. Ela me inquieta. Dias. Noites. Estou analisando a dor. Doía mais antes ou dói mais agora? É uma dor parcelada ou foi um banho de água fria? Está confusa. Está serena. Mas dói. Essa é a hora de ter medo, acredito. Deixar as lágrimas escorrerem. Respirar. Inspirar. Qual remédio é o mais indicado? Tudo vai depender qual é a dor da vez. Talvez um abraço, que parece curar muitas dores. Tem perdão, que cura dores que já viraram mágoas. Tem silêncio. Mas ainda não sei de que dor se trata. Acho que seja daquelas difíceis de passar. Daquelas que já moram com você, mas só aparecem de vez em quando.

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Dor é autoconhecimento. É um teste, como aquele que você sempre faz quando se olha no espelho. Ela reflete algo sobre você, seu corpo, suas frustrações. Ela te cobra mudanças. Faz você reduzir o ritmo. Ela faz você expôr a sua alma, como água transparente. As suas dores dizem muito sobre você. Sobre as noites em claro, sobre o amontoado de silêncios. A dor tem voz. Ela quer falar. A dor lembra. Ela machuca enquanto você não perdoa a você mesmo. A dor se alimenta de culpa, do medo, da incerteza. Ela também te deixa forte. A dor mostra que você está vivo.

A dor precisa de espaço, não o tire. Ela precisa fazer parte da vida como engrenagem para avançar, para refletir. O tempo sabe qual o tempo da dor. Não se apresse. Não a camufle. Deixe doer. Deixe sangrar. A dor é necessária. Ela passa da mesma maneira que chega. Não se obrigue. A dor é vida e ela também sabe curar.

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